Depois do seu 4º Congresso, em São Paulo, quando foi oficializado o alargamento da política de alianças visando o processo eleitoral de 2012, o PT (Partido dos Trabalhadores), vive o dilema de “ser ou não ser Capitania Hereditária” no Estado do Amazonas, em meio à guerra interna em que se transformou a disputa entre as tendências que agitam as bases do partido.
Vivendo sob o êxtase das batalhas ideológicas do passado, das greves metalúrgicas do final da década de 70, que produziram o maior fenômeno populista de todos os tempos, o ex-líder sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, os próceres petistas de hoje no Estado tudo fazem para evitar epítetos esquerdistas pesados como “busca do socialismo” ou termos como “fisiologismo”, com que os esquerdistas costumam classificar e ofender os políticos ditos de direita.
Para o líder do governo Omar Aziz na Assembleia Legislativa, deputado Sinésio Campos, o PT é um partido moderno e a sua política nacional de alianças, oficializada no 4° Congresso realizado há duas semanas, é uma expressão a mais da democracia brasileira conduzida pela presidente Dilma Rousseff. “O PT não tem nada que inventar a roda, a roda já foi inventada há muito tempo, e o 4º Congresso Nacional do partido já definiu as linhas mestras, é um partido de grandes dimensões nacionais, não é um partido de Capitanias Hereditárias”, explica ao Jornal do Commercio, ressaltando que os pouco mais de 1 milhão e 400 mil filiados confirmam a força da legenda.
“Eu sempre fui aliancista, como o Lula me ensinou”, diz Sinésio, para quem o exercício do poder em uma sociedade democrática exige o jogo de alianças, ainda que isso custe o sacrifício dos postulados socialistas. “Nas três vezes em que Lula fechou o leque e se recusou às alianças, ele levou três surras, perdendo disputas presidenciais para Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso”, lembra Sinésio, destacando que, aprendida a lição, Lula tratou de jogar fora o radicalismo senil e se aliançou com o maior empresário da indústria têxtil brasileira, o ex-senador José Alencar, para vencer as eleições de 2002.
Por isso, o deputado vê como normais as divergências hoje entre os petistas em função da proximidade das eleições municipais em Manaus. E garante que o PT “consultará democraticamente as suas bases” para decidir pela candidatura própria à sucessão do atual prefeito Amazonino Mendes ou pelo apoio a uma chapa encabeçada por um dos outros partidos que formam o bloco de sustentação do governo Aziz na ALE ou na Câmara Municipal de Vereadores.
Como é composto de várias tendências em nível nacional e no âmbito regional, o PT sempre terá divergências, “mas jamais rachas, de modo a prejudicar a legenda”, considera Sinésio.
No Amazonas, as divergências mais acirradas ocorrem entre as tendências Movimento, de Sinésio Campos, CNB (Construindo um Novo Brasil), dividida em dois grupos, sendo um liderado pelo ex-senador João Pedro, presidente regional do partido, e outro grupo sob a liderança do vereador Waldemir Santana. Há ainda a tendência Mensagem, liderada pelo deputado estadual José Ricardo Wendling, e a tendência Articulação, situada bem à esquerda, sob o comando do deputado federal Francisco Praciano.
De acordo com Sinésio Campos, as diferenças de pensamento ideológico e de comportamento político ainda levarão essas tendências a mais divergências e a manifestações fortes na imprensa. “Mas, o PT não queimará etapas, cumprirá naturalmente as diretrizes do 4º Congresso e os prazos do TRE com vistas as eleições municipais”, diz.
“PT não é lixo ideológico”, diz José Ricardo
Resolução aprovada no 4º Congresso permite coligações com partidos como o PSD, do governador Omar Aziz e do prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. Flexível, o documento só faz alertar, mas não proíbe, alianças com “adversários do PT como o PSDB, o DEM e o PPS”. Conforme o documento, “adversários do PT são agremiações que representam o bloco conservador”, citando o PSDB, DEM e PPS. O documento deixa de lado a velha tese de alianças só com legendas de centro-esquerda, como forma de manter a pureza ideológica.
Para o deputado estadual José Ricardo Wendling, da tendência Mensagem, “o PT não é lixo ideológico” e ainda é um instrumento de luta pelo ideal socialista. Ele lamenta que, como os demais partidos, o exercício do poder tenha afetado a legenda. Ele afirma que o apego pessoal a cargos públicos é hoje, mais do que nunca, uma característica dos políticos com mandato ou simples militantes de qualquer outro partido no país. E o PT não foge à regra. “O exercício do poder muda muito as pessoas, existem pessoas que, depois de assumirem determinados cargos em nível estadual ou municipal, não largam esses cargos depois que seus partidos tomam decisões e caminhos diferentes”, salienta.
José Ricardo recorda a situação do PT em 2010, quando a maioria petista decidiu apoiar uma candidatura contrária a do então candidato à reeleição, Omar Aziz. “As pessoas do partido, que ocupavam cargos no governo do Estado, deveriam entregá-los, mas não, permaneceram nos cargos”, lamenta.
Apesar de tudo, o deputado acha que no PT ainda há lugar para ideologia, e cita como exemplos o seu próprio caso, juntamente com o deputado federal Francisco Praciano, seu candidato a prefeitura de Manaus em 2012. “Estou no PT por ideologia, e da mesma forma o Praciano”, revela, sustentando que, a despeito do que muitos analistas calculam, o PT ainda é firme em relação a seus princípios, e observa que a prova disso está no fato de alguns políticos que aderiram ao partido em certos períodos e acabaram mudando logo de legenda por não saberem conviver com as normas petistas. “Acho que em 31 anos de existência, o PT ainda comporta batalhas ideológicas, acho que a ideologia permanece”, opina.






