Rei manda estadista se calar

Em: 23 de janeiro de 2008
O desfecho da altercação culminou com a saída momentânea do rei Juan Carlos e a lição de moral de que há uma essência e um principio no diá­logo
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O desfecho da altercação culminou com a saída momentânea do rei Juan Carlos e a lição de moral de que há uma essência e um principio no diá­logo

A 17ª cúpula ibero-americana de che­fes de Estado e de governo em Santiago do Chile, terminou no ano que passou de uma maneira no mínimo insólita. Em meio a uma ampla gama de assuntos importantes, como a inclusão social para redução das desigualdades, sobressaiu o bate boca entre o presidente venezuelano Hugo Chávez e o rei Juan Carlos da Espanha no fim do ano passado. O cerimonioso monarca espanhol estava sentado entre Zapatero e o ministro do Exterior, Miguel Ángel Moratinos e escutava atentamente os discursos que redundariam posteriormente na assinatura da Declaração de Santiago, quando obser­vou que o caudilho venezuelano interrompia mais uma vez a fala de Zapatero. Em uma ação singular para um soberano, já bastante aborrecido com as seguidas e inoportunas observações do presidente pára-quedista da Venezuela, mandou Chávez se calar. Por qué no te callas? Shut up na tradução da Rede CNN. “Exijo esse respeito!” salientou na ocasião educadamente Zapateiro. O desfecho da altercação culminou com a saída momentânea do rei Juan Carlos e a lição de moral de que há uma essência e um principio no diá­logo. Para respeitar e ser respeitado não se pode cair na desqualificação. Pode-se discrepar das idéias sem cair na vulgaridade. O falante Chavez não se calou e o povo venezuelano o fez repelindo suas idéias no histórico referendo popular que enterrou o projeto de uma reforma constitucional revestida de conceitos ditatoriais.

Boas lições podem ser extraídas des­se fato que a imprensa internacional polidamente classificou de incidente. Pri­meiramente mais uma vez a história mostra que os gregos tinham razão. Os pais da filosofia ensinavam que o ho­mem tem duas orelhas e somente uma boca.Assim ouvir mais do que falar é prudente e inteligente.Inúmeras foram as ocasiões que a retórica desgovernada de pseudo-líderes ocasionaram tragédias mo­nu­mentais.

Napoléon Bo­na­par­­te é um exemplo historicamente reconhecido de alguém que esteve no poder da França du­rante 15 anos conquis­tando parte do continente europeu graças a sua eloquência utilizada para estimular seus soldados com promessas de glória e acesso a um rico butim depois das bata­lhas. É obvio que seu talento como estrategista não pode ser ignorado, mas o exército francês alimentáva-se na ocasião das palavras de estímulo expansionista de seu líder que muito contribuiu para o desenvolvimento do Brasil com a fuga da Família Real Portuguesa. As mesmas palavras que catapultaram o “Corso” para o poder culminaram com sua queda diante do general inverno e a morte de milhares de soldados na campanha contra a Rússia e seu triste degredo.

Adolf Hitler também não se calou. Sua vibrante oratória foi utilizada para espraiar suas teses racistas e anti-semitas. Além de escrever seus pensamentos no livro Mein Kampf (Minha luta) consolidou uma brutal ditadura direcionada contra grupos minoritários considerados impuros diante do ideal ariano. Assim poloneses, ciganos, negros, homossexuais, ju­deus, deficientes físicos e mentais, foram exterminados no que a história denominou de Holocausto. No­vamente o poder de argumentar atribuído a Hitler não foi capaz de impedir sua derrota pelos países aliados no final da Segunda Guerra Mundial. O dis­­curso bombástico, or­­namentado e vazio re­dun­dou na morte de um total estimado em 50 a 60 milhões de pessoas.O Führer cometeu suicídio no seu quartel-general (o Führerbunker), em Berlim, a 30 de abril de 1945. Ainda hoje sua bocagem influência grupos pelo mundo inteiro cuja a marca registrada é a violencia étnica.

Não faz tanto tempo que a Argentina mergulhou em um fiasco bélico pelas ilhas Falkland ou Malvinas. Naquele período de absoluta inexistência democrática o então general Leopoldo Galtieri com acen­tua­da verborréia deslanchou ataque às ilhas como forma de estimular o nacionalismo dos argentinos, ofuscando a terrível crise que a população sofria desviando as atenções para um pretenso inimigo externo, os ingleses. A

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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