Remissão da pena

Em: 5 de fevereiro de 2015
xxxxx
xxxxx

Consagrado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2014, Patrick Modiano – definido pela Academia Sueca como uma espécie de “Marcel Proust de nosso tempo” – tem mais de 30 livros publicados em 30 idiomas e ganhou alguns dos mais importantes prêmios literários na França, seu país natal, como o Goncourt e o Grand Prix du Roman da Academia Francesa. A Record lança agora três novelas independentes (mas publicadas em uma só edição em alguns países), inéditas no Brasil, que são consideradas a “trilogia essencial” e uma excelente introdução à obra do autor, de acordo com publicações como o jornal britânico The Independent e a revista The Economist. A primeira a chegar às livrarias brasileiras é Remissão da pena, publicada originalmente em 1988 na França, em que Modiano mistura, como de costume, memória e ficção em um passeio por sua infância. Os próximos títulos serão Flores da ruína (1991) e Primavera de cão (1993), que chegam às livrarias em março e abril, respectivamente.

Após a Segunda Guerra, Patrick e seu irmão são confiados a amigas de seus pais em Paris. Das mulheres responsáveis pelos dois meninos pouco se sabe além do que revelam os trechos de conversas entreouvidas por Patrick: que uma delas é uma pessoa triste e que a outra foi artista de circo. Isso e o fato de receberem as visitas frequentes de Jean D. e Roger Vincent durante o dia e de diversos visitantes noturnos. Nesse mundo intangível, os dois irmãos seguem de mãos dadas pela infância através da rue Du Docteur-Dornaine e em meio a visitas a castelos, excursões a Paris, leitura de histórias de aventura, tardes ouvindo rádio – sempre à espera de que, um dia, alguém volte para buscá-los.

“Boa ideia. A magia de Modiano funciona ainda melhor quando se lê este trio de uma só vez, um após o outro – em ordem cronológica ou não, qualquer que seja. Estas três novelas curtas, que têm em comum a mesma veia bastante autobiográfica, refletem sozinhas toda a singularidade do universo modianesco, as obsessões deste autor nascido em 1945, suas andanças no espaço e no tempo, em busca de um passado evasivo”. L’Express

“Certos objetos desaparecem de nossa vida ao primeiro momento de desatenção, mas aquela cigarreira permaneceu fiel a mim. Eu sabia que ela sempre estaria ao alcance de minha mão, na gaveta de uma mesinha de cabeceira, em um compartimento do armário, no fundo de uma escrivaninha, no bolso interno de um paletó. Tinha tanta certeza dela e de sua presença que acabei a esquecendo. Exceto nos momentos de melancolia. Então eu a contemplava sob todos os ângulos. Era o único objeto que testemunhava um período de minha vida do qual eu não podia falar com ninguém e que às vezes me perguntava se realmente tinha vivido.”

A ficção de Patrick Modiano flutua entre memória e ficção. Como se tivesse uma ponta de febre, uma temperatura emotiva discreta, suspensa entre o presente e o passado.
Pode-se ouvir uma fricção entre dois tempos, vaporosos, imprecisos: a busca de uma infância sensitiva, no limiar da palavra. Poucos gestos em Remissão da pena rompem momentaneamente o pacto de silêncio, o quase inaudível rumor de fundo, onde tudo acontece. Ou quase.
Patrick Modiano desenha um grafite delicado num muro dolorosamente irregular.
Ouça, leitor, traz as vozes de um passado tempestuoso, que a unidade aparente da narrativa não consegue esconder. A infância solitária se traduz nos rostos desfocados, sem maior definição, ao passo que os objetos são banhados por uma luz incisiva, formando uma constelação de coisas nítidas, pontos de apoio numa quase escuridão, apesar da contínua luminosidade, ou do andante musical.
Remissão ressente-se de um forte sentido poético. Como não se sentir capturado pela melodia da infância, que continuará, estranhamente, aliás, depois de terminado o livro?
Teus olhos, leitor, tua própria infância.
Marco Lucchesi

Jean Patrick Modiano nasceu em Boulogne-Billancourt, um subúrbio de Paris, em 1945. Filho de um judeu de origem italiana e de uma comediante belga que se conheceram durante a ocupação nazista na França, é um autor francês ganhador de diversos prêmios, como o Goncourt e o Grand Prix du Roman da Academia Francesa. Com mais de trinta livros publicados em mais de trinta idiomas, em 2014, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar