Rui Machado e os bancos indígenas

Em: 7 de abril de 2025
Para nós eles são apenas objetos utilitários, mas para muitos povos indígenas os bancos são muito mais do que isso.

Continua aberta ao público, no Icbeu (av. Joaquim Nabuco, 1286 – Centro) a exposição ‘Bancos Indígenas do Brasil – Rituais’. São 100 peças, confeccionadas em madeira, oriundas de 39 etnias da Amazônia e do Xingu.

Se para nós, da cidade, um banco de madeira não passa de um utilitário, e às vezes de um objeto de decoração, para alguns povos indígenas seu significado vai além, pois acreditam que, quando utilizados em rituais, como os ritos de passagem e de iniciação, de homenagem aos mortos, e de agradecimento aos espíritos, os bancos servem de transporte para outros estados da mente e da alma. Tirando isso tudo, os bancos indígenas também têm a mesma utilidade que para nós, da cidade, usados no dia a dia, e nas rodas de conversa.  

Uma curiosidade desses bancos é que, mesmo sendo confeccionados por dezenas de etnias distantes uma das outras, a maioria tem as mesmas características: são esculpidos em um único tronco de madeira, sem juntas ou emendas; têm formas de animais da floresta, ou entidades místicas; são ricamente decorados com grafismos e entalhes.

A exposição teve a curadoria de Marisa Moreira Salles, Tomas Alvim, Danilo Garcia (assistente de curadoria e produtor executivo) e do artista plástico Rui Machado. Rui doou 30 bancos de sua coleção particular para a Coleção BEI, organizada por Marisa Moreira e Tomas Alvim. Atualmente a Coleção BEI reúne mais de 1.300 peças e é apresentada pelo país, em exposições como esta, no Icbeu.

“O banco é um objeto de uso difuso, cheio de significados, e que marca momentos da vida indígena. Abordar o banco a partir de seu uso ritual lhe dá uma nova camada de sentido, trazendo mais complexidade, mais sofisticação e mais beleza às culturas dos povos nativos do Brasil”, falou Marisa.

 

Mais de 50 peças  

“Os curadores oficiais da Coleção BEI são seus proprietários Marisa e Tomas. Para a exposição de Manaus eu fui convidado para compor o quadro de curadores e também da cenografia juntamente com o Danilo”, contou Rui Machado.

A coleção de bancos, de Rui, começou quando ele ganhou um banco de indígenas Tukano, do alto rio Negro.

“Com o decorrer do tempo fui adquirindo mais bancos e formei uma pequena coleção com mais de 50 peças, das mais variadas etnias de todo o Brasil”, revelou.

Em 2017 Rui tomou conhecimento do livro ‘Bancos indígenas do Brasil’, da BEI Editora, e logo adquiriu um exemplar.

“Em 2021, quando me preparava para celebrar os meus 40 anos de vida artística, que aconteceria em 2022, recebi um e-mail do Tomas Alvim querendo conversar comigo sobre bancos indígenas, pois tinha tomado conhecimento dessa nossa paixão em comum”, disse.

“Depois disso nos tornamos grandes amigos e resolvi doar parte do meu acervo para sua coleção, pois assim eu estaria concretizando meu sonho de que várias outras pessoas também pudessem ter acesso à arte indígena, algo tão presente na essência do povo brasileiro”, completou.

“A importância desses bancos para os indígenas está na referência e preservação da continuidade de sua cultura e tradição, além de fazerem parte do seu cotidiano nas mais diversas atividades Com a inauguração desta exposição, em 2025, meu sonho e eu, agora fazemos parte do sonho da Marisa e do Tomas”, afirmou.

A coleção de bancos, de Rui, começou quando ele ganhou um banco de indígenas Tukano.
A coleção de bancos, de Rui, começou quando ele ganhou um banco de indígenas Tukano.

Artista consagrado

Rui Machado é um artista plástico consagrado já tendo perdido as contas de quantas exposições de sucesso realizou em mais de quatro décadas de produção artística. Seus trabalhos, sempre com cores vivas, retratam Manaus, o Amazonas, a Amazônia e sua gente.    

“A Amazônia e tudo que nela existe, com destaque para a arte indígena e os povos originários, sempre foram, e sempre serão minhas eternas paixões e inspiração para a continuidade do meu trabalho, seja nas artes plásticas, na poesia ou na música. Assim venho trabalhando há mais de 40 anos, todo esse tempo falando em defesa do que acredito ser e ter importância. Na pintura, além do elemento decorativo, é preciso utilizar a arte como um instrumento de transformação”, ensinou.

Sobre ser um dos grandes nomes das artes plásticas da Amazônia, Rui explicou.

“O diferencial da minha arte é a identidade e a mensagem que emprego nela, mas isto só se adquire com o amadurecimento, trabalho e dedicação. Muita pesquisa, conhecimento e técnica por conta do passar dos anos, mas tudo sem perder a essência e a verdade que são fundamentais na construção de toda uma vida, seja pessoal ou artística”.

Para Rui, os bancos indígenas são pequenas e belas peças de arte.

“Eu considero a arte indígena uma expressão artística genuinamente brasileira, pois reúne toda a diversidade cultural dos povos originários e a identidade de cada etnia que a produz, com suas crenças, tradições e costumes”, concluiu.

Formei uma pequena coleção com mais de 50 peças.
Formei uma pequena coleção com mais de 50 peças.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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