Sebo, oportunidade para investir em livros

Em: 29 de fevereiro de 2008
Menino, pelas ruas de Itacoatiara, Jonatas ganhava alguns trocados vendendo revistas “O Cruzeiro”, pegas do representante da ­então revista brasileira de maior circulação nacional.
Menino, pelas ruas de Itacoatiara, Jonatas ganhava alguns trocados vendendo revistas "O Cruzeiro", pegas do representante da ­então revista brasileira de maior circulação nacional.

A palavra sebo não chega a ser uma das mais belas da língua portuguesa, mas o objetivo almejado pelo comércio designado co­mo sebo, no entanto, po­de ser considerado nobre: a venda de livros usados e, consequentemente, a preços mais acessíveis em comparação àqueles com maior poder de compra.
Num sebo, livros que tinham como destino certo o lixo, voltam às prateleiras e são novamente colocados à venda e aficionados por leitura que disponham de apenas alguns trocados no bolso, R$ 5, R$ 3, podem levar para casa obras de fama e reconhecimento mundial.
Jonatas Almeida de Oliveira é fã de leitura desde criança. Hoje, aos 55 anos, Jonatas reconhece que cresceu, profissionalmente, e há alguns anos, comercialmente, graças à leitura e aos livros.
Menino, pelas ruas de Itacoatiara, Jonatas ganhava alguns trocados vendendo revistas “O Cruzeiro”, pegas do representante da então revista brasileira de maior circulação nacional. Quando cansava de carregar as revistas na cabeça, o garoto sentava à sombra de alguma árvore e punha-se a lê-las, até que numa delas encontrou a publicação integral de “Quincas Borba”, de Machado de Assis. Ao ler a obra daquele que é considerado o maior dos escritores brasileiros, Jonatas se apaixonou pela leitura e nunca mais parou de conseguir livros para saciar a sua busca por novos conhecimentos.
Com 19 anos, graças à leitura e aos livros, Jonatas passou num concurso para um emprego público e teve que vir para Manaus.

Comprar livro é um investimento, diz Oliveira

Os anos se passaram e o quarto de Jonatas já se encontrava tão cheio de livros que ele próprio quase não tinha vez no espaço. “Lembro que o meu salário era gasto quase todo na compra de livros. Roupas e calçados eram deixados para segundo plano, mas os livros não podiam faltar cada vez que eu recebia o meu salário”, recordou.
Quando estava com 22 anos, novamente as chances de melhorar de vida surgiram diante dele e não foram desperdiçadas. “Iria ser realizado um concurso para técnico da Fazenda. O livro para estudar era o Código Tributário. Uma vez estava com um colega diante de uma banca de revistas onde o Código era vendido a Cr$ 20. Eu tinha Cr$ 30 e o meu colega Cr$ 90. Ele não quis comprar o livro, mas eu, para economizar, fui comprá-lo na Imprensa Oficial a Cr$ 10 e me pus a estudar. Resultado: passei no concurso e meu colega não. Por isso eu sempre digo: comprar um livro, seja ele qual for, é ­sempre um investimento”, filosofou.

Destino
certo

Ainda bem jovem, como fiscal da Fazenda e um ótimo salário a cada final de mês, não é difícil de adivinhar onde Jonatas gastava seu gordo salário.
“Nunca soube exatamente quantos livros tinha em minha casa, mas eram muitos. Em todos os cantos tinham livros e eu os devorava, lia todos e classificava aqueles que considerava bons e os que deveriam ficar de lado, não que fossem ruins, porque não existe livro ruim, mas que não eram do meu interesse”, ­explicou.
Mais alguns anos se passaram, agora décadas, e Jonatas achou que era hora de dividir com os outros aquele rico tesouro de cultura que há muito tempo o acompanhava.,

Cultura se expande no centro da cidade

Em 2002, Jonatas resolveu vender parte de seus livros na feira de domingo na avenida Eduardo Ribeiro. “Justamente aqueles que não eram do meu interesse. Na primeira vez levei 450 livros e vendi quase todos. Vi que o negócio era promissor, pois as pessoas passaram a ligar para mim atrás de outros títulos, vinham aos domingos me procurar na feira, gostavam do preço. Percebi que o sebo, além de ser um espaço cultural, tinha um lado comercial importante também”.
No ano seguinte, Jonatas não pensou duas vezes para inaugurar um sebo na rua Joaquim Sarmento, “para que os leitores não o tivessem apenas aos domingos”, completou. Surgia assim, A República, um comércio de livros usados com aproximadamente 5.000 títulos à disposição dos clientes. Além dos livros, revistas, CDs e discos de vinil.

Obras
consagrada

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.