Seca pode impactar vida dos manauaras, já que 70% da carga que chega em Manaus vem de navio

Em: 11 de outubro de 2023

Se configurando como a 5ª maior seca da história, a estiagem no Amazonas afeta o acesso à água potável, distribuição de suprimentos alimentícios, atividade pesqueira, colheita, e  principalmente, o transporte de carga. Para representantes dos segmentos de navegação e transporte fluvial a situação atual apresenta um cenário desolador. Rios como o Madeira e o Solimões importantes para a região nem sinalizam sinais de estabilidade. 

“Consequentemente a gente ainda vai ter mais seca aqui na região do entorno de Manaus, e isso já tem uma complicação na carga que chega em Manaus via Porto Velho, pelo Rio Madeira. Já tem uma limitação, o tempo de viagem já dobrou, aumentando a viagem de 8 para 15 dias com os custos do frete aumentando potencialmente”, avaliou o presidente da Abani (Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior). 

A baixa vazão do rio Madeira com nível 50% menor, corre o risco de manter-se como corredor de navegação nos próximos 15 dias. Em relação ao Solimões, há dificuldade nas cidades da fronteira como Tabatinga, Benjamin Constant, com maiores reflexos nas cidades do Purus e do Juruá. “Todas estão muito comprometidas. Então, assim, realmente a gente está vivendo uma seca histórica entre as cinco maiores dos últimos tempos e isso traz uma dificuldade muito grande para o nosso suprimento, uma vez que a nossa base é o transporte fluvial”, disse Carvalho. 

Conforme o empresário do setor e presidente da Abani, a situação é ainda mais preocupante porque o transporte pelos rios Amazonas, Solimões e Madeira é essencial para o abastecimento de várias cidades. Ele disse ainda  que Manaus pode colapsar por falta de mercadoria tanto de insumos para as fábricas do Distrito como para os consumíveis porque 70% da carga que chega em Manaus vem de navio. Se os navios não conseguem chegar, consequentemente vai criar desabastecimento. 

“Isso traz um complicador tanto para o suprimento de Manaus como para o suprimento da indústria da Zona Franca, porque o insumo da Zona Franca vem, a grande maioria da Ásia, vem da do canal do Panamá e entra na Foz do Amazonas para chegar até Manaus. Esses navios já têm carga ficando no Panamá, já tem carga que está em Vila do Conde em Barcarena no Pará e já tem navio fundeado aí perto de Itacoatiara que já não passa mais na Costa da Foz do Madeira e na Costa do Tabocal. E isso realmente vai afetar Manaus. Se nos próximos 15 dias a gente não tiver realmente um sinal de chuva de que essa estiagem vai parar”, alertou. 

Segundo ele, há várias preocupações por parte das empresas de transporte. Os prejuízos acumulados, que naturalmente não tem como contabilizar. “Para parte da população, uma oneração no preço das mercadorias, por parte da indústria, a falta de insumo para produzir, isso podendo, no extremo, colapsar o distrito, e acho que para o Estado, a arrecadação, então, assim, é um conjunto de perdas deste cenário”, citou. 

Ele complementa que são várias implicações e preocupações diante do atual cenário.  E que não tem muito como mitigar.  O que resta é esperar realmente um sinal de que essa estiagem recue. “A gente está na expectativa de que isso possa acontecer até dia 20 de outubro quando prevemos o inicio do período de chuva e o rio comece a encher”. 

Segundo o diretor-executivo da Abac (Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem), Luís Fernando Resano a situação do segmento só piorou porque agora o calado é limitado a 7,5m e isso tem tornado inviável a subida dos navios até Manaus por conta de questões operacionais e também baixa ocupação do navio. “ Estas regras operacionais, exigências operacionais, fizeram com que nós já tivéssemos o cancelamento de duas escalas de navios de empresas associadas essa semana, já foram canceladas, e a previsão é de cancelamento de mais três escalas de navios essa semana. Portanto, Manaus deixará de receber navios da cabotagem e do longo curso por conta dessa seca que nenhuma ação foi tomada pelo governo até o momento”, informou o dirigente. 

O vice-presidente do Sindarma, Madson Nóbrega, avalia a situação atual com muitas dificuldades, as principais empresas de transporte fluvial de cargas do Amazonas associadas ao Sindarma, seguem com suas atividades. “Mas estamos próximos ao limite em diversas regiões do Estado, como na bacia do Madeira e nossa expectativa é que até a 1ª quinzena de novembro o cenário comece a se normalizar”.

Por dentro

Na segunda-feira (9), a cota do Rio Negro chegou em 14,41 metros, o que representa a quinta maior seca da história desde 1902. Os dados são do Porto de Manaus.  Na cidade, o nível das águas está a 1,41 metro da maior seca, registrada em 2010, quando o rio chegou a descer para 13,63 metros.

Em 2010, na mesma data, o rio media 15,82 metros, ou seja: estava 1,41 metro mais alto.

Uma comparação dos dados também mostra que o rio tem esvaziado mais rápido que em 2010. Neste ano, as águas chegaram a descer 36 centímetros num único dia – 19 de setembro.

Saiba

O Governo do Amazonas, por meio do Comitê de Intersetorial de Enfrentamento à Situação de Emergência Ambiental, divulgou o boletim com informações atualizadas sobre a estiagem no estado, nesta terça-feira (10).

Até as 14h, havia 45 municípios em situação de emergência, 15 cidades em alerta, nenhum em atenção e 2 em normalidade. Houve alteração no número de municípios em situação de emergência. Itapiranga e Codajás decretaram situação de emergência. Segundo o boletim, o Amazonas tem 297 mil pessoas afetadas até o momento, cerca de 74 mil famílias. O Comitê foi instituído no dia 29 de setembro pelo governador Wilson Lima, que também decretou situação de emergência em 55 municípios do Amazonas afetados pela seca severa que atinge o estado.

Andréia Leite

é repórter do Jornal do Commercio
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