Tudo o que existe cumpre uma finalidade. Tudo tem um caráter teleológico, palavrinha estranha que quer dizer justamente isso: tudo tem uma finalidade. Por extensão, todas as coisas boas têm uma finalidade, da mesma forma que as coisas que consideramos más. Alguém poderia imaginar, com adequação, que existiria uma relação direta entre o caráter das coisas (serem boas ou más) e a sua finalidade (o bem ou o mal). Felizmente, sabe-se hoje, que a lógica do mundo não é assim. Tanto as coisas boas quanto as coisas más levam para o mesmo destino: o bem. Os caminhos da bondade são o trajeto mais rápido; os caminhos que contêm coisas ruins são mais prolongados. A razão é simples: as coisas más são demonstrações de que ainda há aprendizados não aprendidos e que precisam ser conquistados. Quando o indivíduo conquista todos os males, aprende com eles, sabe como lidar com eles e, consequentemente, aprende a se livrar deles. É para este estágio que a nova educação pretende levar cada indivíduo do planeta. Este ensaio tem como objetivo mostrar que a conquista da felicidade é a finalidade da nova educação.
A palavra educação é composta de dois vocábulos latinos que somente agora podem ser compreendidos plenamente pela humanidade. E somente agora podem estruturar uma nova educação. O primeiro deles é o prefixo “Ex”, que designa exterioridade, no sentido de mundo para além de outro mundo, algo para além de alguma coisa; o segundo é o núcleo “Ducere”, cujos inúmeros significados podem ser sintetizados em condução, caminhar. O segundo termo, que encerra a essência da educação, é a busca da compreensão dos fatos e fenômenos do mundo exterior ao mesmo tempo, simultaneamente, com a saída da interioridade do próprio indivíduo! Esquisito isso. Vamos explicar com mais detalhe.
A ideia de educação parte do princípio de que mundos existem, coisas existem e que, pelo fato de existirem, agem e se comportam. Agir significa realizar algum esquema premeditado com alguma finalidade, o que é o mesmo que dizer “alcançar objetivo”, enquanto comportar-se tenta dar conta daquelas ações não premeditadas, espontâneas, instintuais. Pedras agem ou se comportam? Árvores agem ou se comportam? Pessoas agem ou se comportam? Ações e comportamentos dos outros, externos (veja novamente o termo “ex” em ação), podem implicar (e quase sempre implicam) em impactos sobre o indivíduo, sobre as pessoas. Ao compreendermos os esquemas lógicos de ação e comportamentos das coisas de fora, maiores possibilidades haverão de convergência, harmonia e sintonia dessas ações e comportamentos com as ações e comportamentos do indivíduo, das pessoas.
É preciso conhecer para obter a harmonia. E, para conhecer, é necessário que o indivíduo saia de si e se dirija ao outro. É essa ação de alteridade (do latim alter, que significa outro) que o núcleo central da palavra educação (Ducere) quer significar. Aquele que se educa sai de si, caminha para fora de si, ao encontro dos outros, do mundo. No diálogo com o mundo, o indivíduo conhece expande sua consciência (termo que significa conhecer a lógica das coisas e saber manuseá-la, obter essa habilidade) para conjugar as suas ações e comportamentos com as do mundo. É aí que o indivíduo vai perceber que faz parte do mundo, o que lhe permite, finalmente, reconhecer a si mesmo e aos seus limites. Como parte do mundo e ao se aliar ao mundo, amplia a sua capacidade consciencial ao infinito do mundo. E nesse instante instaura em si mesmo a transcendentalidade do infinito.
Explicação um pouquinho complicada. Vamos, com o perdão da supersimplificação, sintetizar assim: a educação é esse caminhar que o indivíduo faz de dentro para fora de si mesmo. Na infância, imaginamos que podemos tudo. Fazemos birras, tolices, enraivecemos, enciumamos como demonstração inequívoca dessa fase (muitos continuam com isso por toda a vida). Com o tempo vamos percebendo que não posso querer o brinquedo do outro porque o brinquedo não é meu, da mesma forma que o meu brinquedo não deve ser tomado pelo outro. Compreendo e entendo esse esquema lógico. Isso significa que conheci o brinquedo do outro, conheci o outro, conheci a regra, reconheci minhas birras, reconheci meus comportamentos, reconheci minhas ações e muitas outras coisas que mudaram minha consciência (meu entendimento e minhas atitudes). Educar-se é isso: conhecer para agir e agir cada vez melhor porque se conhece com mais adequação. É um caminho vai de dentro do mundo do indivíduo para os mundos de fora dele.
Por que temos que fazer esse caminho? Por diversas razões que podem ser sintetizadas da seguinte forma: devido à limitação do mundo interior, se continuarmos presos ali seremos profundamente infelizes, sofreremos muito. Vejam as crianças birrentas, os velhos rabugentos e os adultos irônicos. São todos muito infelizes. Ao aprender, o indivíduo vai domando suas paixões. No fundo, a educação é justamente o caminho de se libertar das paixões e se deixar guiar pelas luzes da razão e das emoções nobres, justamente as ferramentas que abrem as portas do contentamento.
As escolas quase sempre não lidam com educação. Infelizmente, quase todas se dedicam apenas à instrução. E o pior é que as poucas que refletem sobre educação tomam um caminho ainda mais obscuro, confundindo-a com instrução voltada para o trabalho. As escolas precisam ser instituições educativas, cuja preocupação central seja com o caráter, a continuidade das lições das famílias, centrada no bem e voltada para a conquista da felicidade. É o bem que toda aula deve focar porque é a única garantia de que a felicidade pode ser alcançada. Não há felicidade fora do bem.
A beleza da matemática só pode ser percebida se o indivíduo sair de si e conseguir ver que o mundo pode ser conhecido matematicamente. A maravilha da História só pode ser compreendida enquanto percurso contínuo das trevas do egoísmo profundo para a luminosidade da alteridade universal. O encanto da engenharia só é compreensível, se nela forem vistas as infinitas possibilidades do gênio humano. Tudo isso são bens que precisam ser conquistados e conhecidos porque levam à felicidade. O conhecimento do cérebro permite a construção de estratégias de aprendizagem centradas no bem na concretização do sonho de ser feliz, ainda que de forma efêmera.







