Serviços seguem em retração

Em: 27 de maio de 2026
Amazonas reage em março, mas mantém pior desempenho nacional no acumulado de 12 meses.
Turismo mantém saldo positivo anual, apesar de duas quedas mensais consecutivas no Estado
Turismo mantém saldo positivo anual, apesar de duas quedas mensais consecutivas no Estado

A prestação de serviços no Amazonas ganhou impulso em março, em sentido inverso ao da média nacional. Mas, diferente desta, ainda não conseguiu sair do vermelho. Favorecido por três dias úteis a mais, o setor subiu 0,3% na passagem fevereiro para março, em movimento suficiente para eliminar a perda anterior (-0,1%). O confronto com março de 2025, contudo, resultou na quarta maior queda do Brasil (-3,9%), somando-se ao tombo de fevereiro (-7,6%). Com isso, os serviços amazonenses continuaram patinando no trimestre (-2,6%) e amargaram o pior desempenho do país no acumulado dos 12 meses (-2,5%).

Os serviços de todo o país se saíram melhor nas comparações de longo prazo. O ritmo regrediu 1,2% na margem, em resultado disseminado em todas as cinco atividades – principalmente os transportes (-1,7%) – e 13 das 27 unidades federativas do país. Houve, contudo, elevação de 3% ante março de 2025, a 24ª seguida. O desempenho foi induzido por quatro subsetores – com destaque para “informação e comunicação” (+7,9%) – e 51,8% dos 166 tipos de serviços investigados. O trimestre subiu 2,3% e o aglutinado dos 12 meses cresceu 2,8%. Os números são da PMS (Pesquisa Mensal de Serviços), do IBGE.

O turismo, que é contabilizado a parte, também perdeu velocidade. Entre fevereiro e março, o Amazonas declinou 4,2% no IATUR (Índice de Atividades Turísticas), que mede os segmentos de alojamento, alimentação, aluguéis não imobiliários, locação de automóveis, agências de viagens, operadoras turísticas e transporte coletivo. Em janeiro, a atividade já havia tropeçado 1,5%. O Estado, contudo, ainda cresceu 3,2% ante o mesmo mês de 2025, mantendo o trimestre (+5,4%) no terceiro lugar do ranking. No acumulado dos 12 meses (+10,8%), o Estado ainda desponta na vice-liderança nacional. Já a média brasileira (-4%, -3,9%, +0,9% e +3,5%) se saiu comparativamente pior.

 

Estados e atividades

Segundo o IBGE, o acréscimo de 0,3% perante fevereiro fez os serviços do Amazonas galgaram da 17ª para a décima posição em todo o país, empatando com Sergipe e Paraná. O melhor número veio do Distrito Federal (+10,3%) e o pior, do Mato Grosso do Sul (-6%). Em relação a março do exercício anterior, os serviços amazonenses (-3,9%) passaram 25ª para a 24ªcolocação, em lista iniciada pelo Distrito Federal (+16,2%) e encerrada por Acre (-11,2%). O Estado figura no 20º lugar no comparativo do trimestre (-2,6%) e já está na última posição do ranking do aglutinado dos 12 meses (-2,5%) – tendo também o Distrito Federal (+8,5%) na outra ponta.

O fortalecimento do IPCA de março (+0,88%) evidenciou o descolamento das vendas efetivas em relação à receita nominal dos serviços do Amazonas, principalmente nas comparações de longo prazo. Vale notar que essa diferença é maior no Amazonas do que na média do país, e se tornou mais pesada após a crise hídrica da vazante. O faturamento, nessa medida, encolheu 0,6% na variação mensal, enquanto a comparação com fevereiro de 2025 apresentou incremento de 1,3%. As vendas brutas subiram 0,7%, de janeiro a março, e aumentaram 1%, nos 12 meses. O Estado ficou atrás da média nacional (-0,6%, +8,5%, +6,8% e +7,4%) em praticamente todas as comparações.

O IBGE-AM reforça que, em virtude do tamanho da amostragem, a pesquisa no Amazonas ainda não apresenta os dados desagregados por segmentos de serviços. Em âmbito nacional, a redução de 1,2% observada na PMS de março foi induzida por todos os cinco subsetores acompanhados pelo órgão de pesquisa. A maior influência veio da divisão de transportes, serviços auxiliares e correio (-1,7%), seguida por serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,1%), informação e comunicação (-0,9%), “outros serviços” (-2%) e serviços prestados às famílias (-1,5%). 

 

“Momento crítico”

Em texto veiculado pelo site da Agência de Notícias IBGE, o analista da pesquisa, Luiz Carlos de Almeida Junior, assinala que os serviços brasileiros retrocederam em quatro dos cinco últimos meses encerrados em março. “O setor acumula queda de 1,7% desde outubro de 2025, quando atingiu o ponto mais alto da série. O setor de transportes foi o principal responsável pela queda observada no Brasil, sendo influenciado principalmente pela queda observada no transporte rodoviário de cargas e no transporte aéreo de passageiros”, explicou o analista da pesquisa Luiz Carlos de Almeida Junior.

Em vídeo, o chefe de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatiza que, embora tenham mostrado reação na margem, atividade ainda enfrenta dificuldades no Amazonas, quando comparada aos dados de 2025. “O trimestre aponta para o momento mais crítico do ano, e o resultado consolidado em 12 meses confirma que os serviços amazonenses vivem seu período de maior retração do histórico recente. Em resumo, a situação entrou em descendente, com acumulados cada vez mais negativos. O turismo ainda tem saldo, mas seu desempenho mensal, pelo segundo mês seguido foi negativo”, alertou.

 

Guerra e vazante

A ex-presidente do Corecon-AM e professora do departamento de Economia da Ufam, Michele Lins Aracaty e Silva, enfatiza à reportagem que a prestação de serviços é o motor da economia com peso de 60% do PIB nacional e destaque também no Amazonas. Na análise da economista, o cenário macroeconômico atual, tende a ser ainda mais desfavorecido pelos impactos da guerra no Oriente Médio e pela estiagem, imponto novos desafios à recuperação do setor no Estado.

“O resultado está dentro do esperado pelos analistas e reflete uma conjuntura de renda comprometida por endividamento, pagamento de dívidas e crédito caro em função da taxa de juros elevada. Para os próximos meses, a expectativa é de um cenário nacional com tendência de instabilidade mediante a indefinição do mercado internacional, ainda impactado pelo conflito internacional. Já no âmbito regional, a previsão de um ‘super El Niño’, com seus efeitos na navegação regional, poderá dificultar a recuperação do setor, contribuindo para esvaziar a atividade econômica do Amazonas”, alertou.

Na mais recente entrevista concedida a reportagem sobre o tema, o presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, ressaltou à reportagem a força e a importância dos serviços para o Amazonas. O dirigente lembrou que o setor amargou dificuldades nos meses finais de 2025, em função do peso dos juros, e sofreu com as chuvas e a sazonalidade negativa do começo do ano, período – período em que parte significativa da população viaja para fora de Manaus. Mas, reforçou que a tendência é de recuperação nos próximos meses, principalmente para o turismo. “Isso resulta do esforço das empresas e nos deixa mais otimistas, apesar do quadro ainda de dificuldades da economia e do cenário internacional de guerra”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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