Depois de derreter os lucros no último quadrimestre com pagamentos dos contratos de pré-compra de insumos no exterior em um ambiente com dólar valorizado em relação à moeda nacional, o setor de metalurgia no PIM (Pólo Industrial de Manaus) prevê queda de 1,7% na produção do primeiro semestre de 2009.
A projeção, divulgada na última semana de 2008 pelo Sinmen (Sindicato das Indústrias Metalúrgicas de Manaus) teve por base o desempenho da produção local no acumulado e a avaliação feita pela Ativa Corretora de Títulos, Câmbio e Valores S/A dos valores de algumas das principais commodities utilizadas pelo setor, como aço, alumínio e ferro.
O presidente do Sinmen, Athaydes Félix Mariano, explicou que as projeções para os próximos meses não incorporam a possibilidade de contração econômica ainda mais forte causada pela crise de liquidez nem o fato de o mercado interno compensar as perdas das siderúrgicas brasileiras com a freada internacional. O executivo avaliou que, em 2008, o impacto da crise no setor, iniciado na esfera do crédito, foi visível nos pátios lotados das montadoras do pólo de duas rodas, nos armazéns das indústrias de aço e até nos depósitos do setor de usinagem. “Em apenas um mês, de outubro para novembro, dobrou o número de indústrias que carregaram estoques excessivos. Em novembro, mais de 15% das 62 empresas do setor informaram que acumulavam estoques indesejáveis. Em outubro, praticamente 10% das indústrias já estavam nessa condição”, revelou.
Dados da FGV (Fundação Getúlio Vargas) divulgados em dezembro ajudam a entender a realidade por que passa os segmentos da indústria metalúrgica. Segundo o coordenador de pesquisa da FGV, Aloísio Campelo, o percentual de indústrias abarrotadas de produtos em 2008 foi o maior desde outubro de 2003 na série histórica que elimina oscilações típicas de cada período. De acordo com o especialista, a diferença entre a situação atual de acúmulo de estoques e de cinco anos atrás é que, naquela época, o país estava saindo da recessão, cortando os juros. “Hoje, a economia caminha para a desaceleração e com juros estabilizados em níveis elevados, o que amplia o custo de estoques altos. Os estoques excessivos na indústria refletem a desaceleração da atividade, mas é cedo para falar em recessão”, ponderou.
A pesquisa da FGV revelou que o maior impacto por conta dos estoques excessivos foi sentido exatamente pelos setores que sofreram os primeiros efeitos da crise, entre eles os segmentos industriais de peças para transporte, que se viu às voltas com a falta de crédito para venda de carros e motos, as indústrias de estamparia e os fabricantes de máquinas, atingidos pelo corte no investimento para 2009. Pior: em novembro, segundo a entidade, 17% das indústrias do setor metalúrgico, que na pesquisa inclui o aço entre as commodities mais utilizadas, tinham estoques indesejáveis, ante 3% em 2008.
Queda no faturamento para empresários do segmento pode chegar a 15%
O empresário Cláudio Magalhães, atuante no setor de metalurgia, afirmou que, em novembro, os pedidos para a indústria de material de transporte acumularam perto de 15% nos estoques no comparado a igual período de 2007. Segundo o executivo, até setembro, a empresa trabalhava sem estoque, adiando a compra de insumos para 2009, tendência comum a de outros setores que trabalham o aço. “Vamos virar o ano com dois meses de aço estocado. O problema é como faremos para repassar o valor do contrato para o produto final”, indagou o executivo.
Já o empresário Daniel Tomiasi, também atuante no setor de metalurgia, embora tenha confirmado a possibilidade de o primeiro semestre fechar com 10% a 15% de queda no faturamento, preferiu considerar o aumento projetado superior a 5% para as vendas internas em 2009, em razão das perdas de contrato das siderúrgicas brasileiras no mercado internacional. O executivo reclamou que, apesar do ritmo de queda do preço dos metais no mercado mundial seguir o mesmo padrão das crises anteriores, o preço no mercado interno foi mantido, prejudicando o fechamento de contratos nas indústrias locais. “Acontece que, se a maioria das 62 indústrias metalúrgicas locais optar por aumentar a importação, seguindo a tendência do setor em nível nacional, é possível prever que as siderúrgicas sejam obrigadas a efetivar um corte de até 10% para os preços do aço, ferro e alumínio no mercado interno”, considerou.
Estado pode negociar insumos
O presidente do Sinmen, Athaydes Mariano, disse que o Amazonas com suas 62 indústrias metalúrgicas tem cacife para negociar essa redução no valor dos insumos, mas é esperada uma ação mais efetiva do governo para assegurar os investimentos do setor em 2009. “Apesar de o governo irrigar o meio circulante, podendo retroalimentar a cadeia de produção, acreditamos que o pólo metalúrgico mereça ser contemplado por políticas incisivas, por representar os segmentos mais influentes no preço final do setor de duas rodas e construção civil”, ponderou.
Já o empresário Davi Macedo, também pertencente à indústria metalúrgica, acrescentou que as grandes mineradoras, numa súbita reviravolta, estão se preparando discretamente para cortes significativos nas próximas negociações de preço com as siderúrgicas mundiais, devido ao enfraquecimento da demanda do setor automotivo, de construção civil, infra-estrutura e eletrodomésticos. “Embora os contratos só devam ser assinados ano que vem, há indícios de que as siderúrgicas vão trabalhar por um corte de 20% a 40% em relação ao preço fechado este ano. Apesar da especulação, é certo que o setor metalúrgico vá influenciar no desempenho final de vários setores da economia local”, finalizou.







