“Sinto saudade do sol amazônico”

Em: 20 de março de 2025
Nicodemos Sena volta a Manaus para lançar seu terceiro livro, um romance que se passa na Amazônia, região pela qual é apaixonado.

Pela terceira vez, o escritor Nicodemos Sena vem a Manaus lançar um romance. Nascido em Santarém, viveu sua infância na capital amazonense e desde 1977 mora em São Paulo. É um apaixonado pela Amazônia, escrevendo, dando entrevistas e fazendo palestras sobre a região. Da primeira vez, em 2017, lançou ‘Choro por ti, Belterra!’. Em 2023 retornou com ‘A espera do nunca mais – uma saga amazônica’. Agora volta com ‘Lá, seremos felizes’, que será lançado no dia 22, sábado, às 17h, no Espaço Cultural Millenium, no Millennium Shopping, pelo projeto Canoa da Cultura. Na entrevista a seguir, ao Jornal do Commercio, Nicodemos fala sobre seus livros e, lógico, a Amazônia.

 

“Sinto saudade do sol amazônico” - Em ‘La seremos felizes narro as aventuras e desventuras de Lazaro

Jornal do Commercio: Por que essa sua paixão por Manaus?

Nicodemos Sena: Nasci em 1958 num riozinho chamado Maró, que nasce atrás de Parintins, e deságua com o nome de Arapiuns no rio Tapajós, no Pará. Fui registrado aos sete anos de idade em Santarém, o que me fez paraense, mas a metade do meu coração pertence ao Amazonas, porque minha avó Guida me trouxe para Manaus em 1965, onde ficamos até 1968. Lembro de uma Manaus pequena, que terminava na esquina da Constantino Nery com a entrada do São Jorge, onde começava a estrada Manaus-Itacoatiara, ainda em construção. Uma cidadezinha que estagnou após o declínio do ciclo econômico da borracha (1890/1910), onde ainda se podia viver em paz, de um modo até mesmo romântico. Morei nos bairros São Raimundo, Crespo e Compensa.

 

JC: Por que a Amazônia está sempre presente nas suas entrevistas e palestras?

NS: Embora eu resida fora da Amazônia, vivo na Amazônia e a Amazônia vive em mim. As forças do atraso obrigaram-me a sair de Santarém, em 1977, com 18 anos. Como centenas de outros jovens, tive que sair para completar a minha formação escolar, porque naquela época não havia curso superior em Santarém. Felizmente, os jovens não precisam mais ir para longe. Santarém é hoje um importante polo universitário. Eu queria ser jornalista e não havia curso de Jornalismo em nenhuma cidade da Amazônia. Então vim para São Paulo, mas meu cordão umbilical continua ligado ao útero verde e úmido da minha terra.

 

JC: Como é escrever a respeito da Amazônia morando distante daqui?

NS: De São Paulo, tenho a oportunidade de enxergar a Amazônia de fora para dentro. Antes de sair, só via a ‘árvore’. De fora, pude enxergar também a ‘floresta’. Isto é, pude analisar, de modo crítico, com certo estranhamento, as complexas questões que afligem os povos amazônicos. Mas sinto saudade do sol amazônico batendo na minha cara todas as manhãs. O sol de São Paulo não tem o mesmo brilho. O canto da nossa passarada me faz falta. Sei perfeitamente o que Gonçalves Dias sentia ao escrever esses versos de sua ‘Canção do Exílio’: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. Sofro de uma espécie de ‘banzo’, aquele sentimento de melancolia que os negros trazidos à força para o Brasil sentiam longe da Mãe África.

 

JC: Você tem um livro sui generis, ‘A espera do nunca mais – uma saga amazônica’, com mais de 1.000 páginas. Como foi escrever um livro tão extenso?

NS: Aos 34 anos de idade, jornalista formado pela PUC de São Paulo e em Direito pela USP, larguei tudo para me lançar no abismo da literatura. Dediquei dez anos da minha vida a pesquisar e escrever o que veio a ser o ‘A espera do nunca mais’, que, em 2000, ganhou o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos. Pretendi escrever o romance total da Amazônia, mostrando como a região, depois de cinco séculos de isolamento, foi integrada ao mundo globalizado, pela via do autoritarismo que se abateu sobre o país em 1964, e continua sendo tratada como território onde o Brasil e os países imperialistas vêm buscar recursos naturais, sem nenhuma consideração ao que pensam e querem os povos que habitam o grande Vale. Nas 1112 páginas desse épico romanção, que já alcançou 3ª edição (Kotter Editorial, 2000), reconstruí a variada gama de personagens que se movimentam no ‘palco’ da nossa história.

 

JC: Fale sobre seus outros romances.

NS: Depois do ‘A espera do nunca mais’ (1999), vieram ‘A noite é dos pássaros’ (2003, Prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras), que me fez retroagir ao período colonial. ‘A mulher, o homem e o cão’ (2008), um longo pesadelo, que se estende por 150 páginas, sem divisões ou capítulos. ‘Choro por ti, Belterra!’ (2017), que mostra as ruínas de mais um dos projetos ‘salvadores’ da Amazônia. E ‘Ladrões nos celeiros: avante, companheiros!’ (2018), que denuncia os métodos de ingerência do imperialismo norte-americano na política brasileira e conclama os brasileiros a resistirem.

 

JC: O que o leitor encontrará em ‘Lá, seremos felizes’?

NS: Em ‘Lá, seremos felizes’ narro as aventuras e desventuras de Lázaro, uma criança abandonada na Amazônia dos Anos 1930-1940, espécie de ‘Lazarilho de Tormes’ amazônico. Trabalho nesse romance desde 1994. Ele me impôs o desafio de trazer para a literatura escrita, que os críticos de matriz europeia chamam de literatura ‘culta’, a ‘literatura oral’ falada pelos caboclos, ainda essencialmente ágrafa, com suas sutilezas: por vezes doce, por vezes amarga, por vezes suave, por vezes áspera, ainda muito próxima do som dos ventos e do rugido das cachoeiras. Creio ser possível realizar uma literatura de alto nível na Amazônia, com os elementos do riquíssimo imaginário que herdamos de nossos antepassados indígenas, repleto de mitos e lendas, sem deixar de mostrar as chagas sociais, a miséria e a violência que se abatem sobre os povos amazônicos e transformam em Inferno o que, por suas belezas naturais e sortilégios, poderia ser um Paraíso.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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