Sob o olhar de Dani Cruz

Em: 11 de agosto de 2016
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Mães são sábias no que pensam, dizem e fazem. Quando Zilene deu uma máquina fotográfica (ainda que quase um brinquedo) para cada um dos três filhos mais velhos, deveria estar imaginando que um dia a fotografia, quem sabe, lhes seria útil. “A máquina era de brinquedo, daquelas todas coloridas, mas tirava fotografias. Era só apontar e clicar”, recordou a hoje fotógrafa profissional Dani Cruz, que inaugura a exposição “Olhar que te olha”, hoje, quinta-feira (11), na Galeria do Largo, a partir das 18h.
Dani tinha oito anos quando recebeu esse presente da mãe e nunca mais parou de querer eternizar uma imagem através da fotografia. “Mas pouco tempo depois, não sei, acho que perdi a máquina, ou ela escangalhou”, disse.
Os anos se passaram e eis que um dia, Dani adolescente, encontrou uma velha máquina Minolta esquecida na sua casa. “Acho que era da minha mãe. A máquina estava com a lente cheia de fungos, mas eu levei para fazer uma limpeza e comecei a usá-la. Diferente da Yashica, essa era profissional e muita coisa eu não sabia mexer, então ia lá no centro e perguntava ‘praqueles’ lambe-lambe, que ainda existiam nas praças, e eles me ensinavam. Com tempo já dominava a máquina. Depois fiz cursos para me aprimorar”, falou.
Mais alguns anos e Dani formou-se em Engenharia de Produção na Utam e depois foi funcionária pública até abrir uma loja de roupas para grávidas e bebês. Foi nessa loja que surgiram os personagens transformadores de Dani numa fotógrafa profissional. “Tive a ideia de fotografar as futuras mamães que iam até a loja, com seus imensos barrigões. No começo elas estranharam. Nunca ninguém havia feito isso em Manaus. Amigos disseram que eu não ganharia dinheiro com aquilo”, riu.

Grávidas e recém-nascidos

Logo outras futuras mães estavam na fila para serem fotografadas. Sem saber, Dani havia se tornado a pioneira em Manaus em fotografar mulheres grávidas. E logo também se tornaria pioneira em outro segmento. “Quando os bebês nasceram, dei a ideia para as mães de fotografá-los. Com cinco dias de nascidos estavam sendo clicados por mim. Me especializei nos dois segmentos”, completou. “Nem sei quantas mulheres grávidas e bebês recém-nascidos fotografei. Talvez milhares”, brincou.
“Olhar que te olha” é a segunda exposição de Dani. A primeira, lógico, foi com mulheres grávidas e seus bebês. “Foram 30 fotos”, explicou. Depois Dani partiu para outras áreas, sempre buscando um diferencial em relação ao que já se fazia. “Comecei a fotografar noivas dias antes do casamento, debutantes bem antes da festa”. Nessa espécie de pioneirismo, acabou por ser convidada a fotografar no exterior. “Fiz fotos para clientes nos Estados Unidos e na Europa. Hoje sou uma fotógrafa profissional, vivo da fotografia”, confirmou.
Quanto a “Olhar que te olha”, a fotógrafa revelou que fez as fotos antevendo mostrá-las numa exposição. “A ideia surgiu de um convite de uma amiga escritora que vive na Áustria. Ela lançou o livro infantil ‘A mensagem da borboleta’ e fiz umas fotos de crianças para expor no lançamento, mas aí o projeto foi ganhando forma e crescendo por si só”, revelou.
De crianças para rostos de adolescentes e adultos. “Olhar que te olha” está constituída por 56 fotos de rostos de homens e mulheres e mais 26 de detalhes que Dani viu pelo mundo. “Fiz esse trabalho durante uns dois meses buscando mostrar a essência da pessoa, aquilo que se esconde por trás da face, ressaltando momentos felizes de olho na recordação que ficará para as gerações futuras”, concluiu. Zilene estava certa. Mostrou o caminho certo para a filha.

Olhar que te olha

Com todas as facilitações das tecnologias contemporâneas, o ato de fotografar ainda se mantém impregnado da ritualística das primeiras tentativas de captar e reproduzir imagens. A sensação mágica dos gestos pioneiros já não exige desafios, nem uma parafernália de materiais e substâncias químicas para captar a luz e fixar as sombras. Os captadores de imagens foram ganhando maior liberdade e mais recursos técnicos, mas uma coisa jamais foi superada neste processo, o que ainda faz a grande diferença das obras autorais. Trata-se do ato de fotografar, ou seja, a maneira pessoal que cada um é capaz de olhar alguma coisa ou alguém. Assim, deciframos o trabalho da fotógrafa Dani Cruz, que é capaz de apresentar diferentes olhares encontrados em seu trajeto pela cidade de Manaus.
Para Otoni Mesquita, curador do projeto, este ensaio fotográfico é um trabalho delicado no qual a autora descobre e dialoga com transeuntes e amigos, cujos olhares captados por sua câmera podem revelar histórias e sensações dos contatos. O ato em si não se distancia muito de sua prática profissional: fotografar grávidas, crianças e idosos, mas também remete ao sentimento que carrega ao viajar pelo mundo, quando busca imagem de pessoas e paisagens de outros cotidianos, nem sempre autorizados.
“Olhar que te olha” é um exercício expressivo que define escolhas e determina recortes. Dani ensaia maneiras de recuperar, pelo olhar, histórias de pessoas que passam na paisagem local. A multiplicidade sugere a unidade na diferença. Além disso, o conjunto pode ser interpretado como a afirmação de que cada um olha, de forma particular, porque cada um de nós carrega no olhar a própria história de vida.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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