Teias de aranha ideológicas

Em: 12 de fevereiro de 2008
Um dos maiores empecilhos para o progresso da América Latina são as idéias anacrônicas
Um dos maiores empecilhos para o progresso da América Latina são as idéias anacrônicas

Um dos maiores empecilhos para o progresso da América Latina são as idéias anacrônicas que grassam na sociedade. Em sucessão de ciclos de expansão e contração, o populismo endêmico impede o seu ingresso na realidade do mundo atual. Sobre o tema, dois fatos recentes merecem destaque. O primeiro é um excelente artigo publicado no jornal El Pais sobre o presidente do Peru, Alan Garcia (As teias de aranha ideológicas impedem nosso desenvolvimento). O segundo, o livro do jornalista britânico Michael Reid – editor de economia do The Economist, com 25 anos de experiência na cobertura de temas econômicos da América Latina intítulado “Forgotten Continent: The Battle for Latin America´s Soul”, que será tema da ­coluna de amanhã. Há pouquíssimos governantes que aprenderam com seus erros e tiveram a sorte de ter uma segunda oportunidade. O presidente Alan Garcia é um deles. À frente de um partido histórico (o Apra), com 36 anos e o carisma de um Kennedy latino-americano, elegeu-se presidente do Peru pela primeira vez em 1985. No exercício do mandato, a política populista que adotou elevou a inflação para 7.500%, multiplicou a corrupção e estimulou o terrorismo. Em 1990, derrotado por Alberto Fujimori, deixou o poder. Após nove anos de exílio, em 2001 Alan Garcia voltou ao Peru e pôde recuperar a presidência em 2006, contra todas as previsões, decidido a não repetir os erros do passado. Sua nova postura pode ser sintetizada em una frase lapidar dita na entrevista: “A obrigação de um político é estudar e ler. E quem não conhece a realidade e não acompanha suas mudanças cai na demagogia e no erro”. Em sua percepção, a realidade mundial é a revolução tecnológica da informação; e a realidade peruana, desde a década de 90, está caracterizada por um período de estabilidade econômica e equilíbrio fiscal que deu ao país um crescimento anual de 8% e uma considerável redução da pobreza. Após o fracasso das tentativas de engenharia social na antiga URSS e no leste europeu –simbolizado na queda do Muro de Berlim, em 1989–, a maioria dos países se convenceu de que o capitalismo é o mais eficaz sistema de produção para gerar riqueza. Até a China –com o pragmatismo e a resiliência sedimentados ao longo de quatro mil anos de história– rendeu-se a essa evidência. Nova visão A nova visão econômica do presidente peruano está contida nesta declaração: “Quisemos acentuar esse caminho (estabilidade econômica e equilíbrio fiscal) dando mais velocidade ao investimento externo e salientando ao mesmo tempo o fator social, com metas como a eliminação do analfabetismo e a ampliação dos serviços públicos”. A busca de investimentos foi o motivo de sua recente visita a Madri, quando afirmou: “Quero estimular a presença do capital espanhol em áreas como a geração de energia elétrica, que têm uma dimensão sul-americana”. Completando o pensamento, disse: “Fica para trás esse marxismo que nos convenceu de que o capital é sempre trabalho não pago. Como frase, é atraente. É o que chamo de cosmogonia do socialismo dos séculos 19 e 20, uma teia de aranha ideológica que impede nosso desenvolvimento”. O Brasil, que ainda possui muitas teias de aranha ideológicas –enquistadas no governo, no meio intelectual e na alta burocracia–, precisa ser exorcizado pelos ventos modernizadores que sopram do oeste, do Peru e do Chile. Garcia dá exemplos Na entrevista ao jornal espanhol, Alan Garcia deu exemplos da aplicação de suas idéias: “A selva pode ser trabalhada industrialmente para que produza oxigênio, madeira e empregos. Mas é uma riqueza divina que não se pode tocar, enquanto é destruída pelos madeireiros ilegais e os plantadores de coca. Ou o próprio conceito de comunidade camponesa criado há 450 anos para colocar os indígenas nas zonas menos produtivas e posteriormente idealizado por essa cosmogonia boba que quer ver em tudo isso o bom selvagem do comunismo primitivo. E depois de cinco séculos essas pessoas são as mais miseráveis do meu país”. C

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar