Manaus viveu ontem um cenário típico nesta época de estação chuvosa, mas não se esperava tantos impactos negativos na vida da população. Desde as primeiras horas da madrugada desta quinta-feira (16), o temporal causou estragos no Centro da cidade e também em bairros periféricos.
Foram pelo menos oito horas de chuvas intensas, dificultando a vida de quem se deslocava para o trabalho de ônibus e em veículos particulares, comprometendo as atividades econômicas. Poucos conseguiram chegar a tempo para trabalhar em empresas, no comércio, na indústria e até em órgãos públicos. Foi muito esforço.
Abastecimento de gêneros alimentícios ficaram inviáveis, além de outros itens de primeira necessidade. Caminhões de distribuição empacaram no trânsito, temendo serem engolidos pelas águas.
Na avenida Eduardo Ribeiro, área central da cidade, transeuntes enfrentaram situações adversas. Águas transbordaram e invadiram casas e lojas, deixando a área intrafegável. Carros flutuaram, sendo arrastados pelas enxurradas. Sem sucesso, pessoas tentavam se deslocar para pontos onde supostamente poderiam se proteger. Tudo em vão. E acabaram sendo impactadas. Difícil não sair encharcado de água nessas situações tão tradicionais nesse período do ano.
Não se previa um inverno tão rigoroso este ano na região. O volume pluviométrico surpreende os centros especializados, superando os níveis de previsões. A situação é de praticamente imprevisibilidade sobre o comportamento da natureza.
Totalmente alagada, a avenida Eduardo Ribeiro virou um rio, lembrando uma paisagem típica da Amazônia, só que as florestas deram lugar a uma selva de pedras. Estoques de mercadorias foram molhados, dando prejuízos significativos aos empresários que comercializam no local, reunindo uma alta densidade de negócios dos mais diversificados segmentos.
“Meu carro estava estacionado desde ontem. E acabou sendo engolido pelas águas”, lamentava o empresário Assem Arc, de origem árabe, que explora uma loja de infecções na Eduardo Ribeiro.
O camelô Orneide Lima, que circula pelo centro vendendo desde frutas a acessórios eletrônicos, reclamou de não poder trabalhar normalmente. “A chuva espantou os clientes. Foi um dia perdido”, afirmou.
As avenidas 7 de Setembro e Getúlio Vargas, também no Centro da capital, mostraram um cenário recorrente bem conhecido. O cruzamento entre as vias ficou totalmente obstruído com os entulhos arrastados pelas águas da chuva. Com muitas dificuldades, vendedores ambulantes que ocupam calçadas na área tentavam proteger suas barracas. E muitos amargaram prejuízos, sem poder evitar que produtos fossem levados pelas enxurradas.
O presidente da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, não quis inicialmente estimar prejuízos, mas admitiu que as perdas foram significativas para o segmento.
“Não prevíamos chuvas tão intensas nesta época, algo que vem a se somar a sérios problemas já vivenciados pelo setor”, disse ele. Até hoje, os lojistas farão um balanço dos estragos causados pelo temporal depois de reunirem dados enviados pelas empresas, segundo Aderson.
De acordo com Frota, o comércio da área central da cidade enfrenta muitas dificuldades. Falta mais segurança. Nem sempre clientes e comerciantes estão protegidos de eventuais assaltantes, situação que afugenta os consumidores.
Outro gargalo, aponta ele, envolve a questão sobre a conservação do patrimônio histórico. Prédios antigos sem nenhuma utilidade continuam na área, impedindo potenciais novos investimentos. “Já levamos essas demandas para o prefeito. Precisamos rever essas exigências”, acrescenta Frota.
Mais estragos
Nas zonas Leste, Oeste e Sul, a situação também não foi diferente, ontem. Veículos tentavam vencer as águas das chuvas e acabaram tendo problemas mecânicos. O congestionamento no trânsito foi quilométrico. E o nível de estresse devido à situação atingiu o seu ápice.
De longe, podia-se ouvir todo tipo de impropérios vindos de todas as direções onde estavam os condutores. Tanta insatisfação gerou um clima tenso e muito desagradável. Agentes tentavam acalmar usuários.
Com tantas demandas, a Defesa Civil ficou impossibilitada de atender à maioria das ocorrências, principalmente em áreas de risco, onde famílias ficaram desabrigadas, barracos tombaram, causando ainda perda de utensílios domésticos.
De acordo com dados da Defesa Civil, as áreas mais afetadas de toda a capital foram as zonas Oeste com 66 mm de chuva, zona Leste 33,0mm e zona Sul com 72,0mm. As zonas Centro-Sul e Norte apresentaram 69mm e 65mm, respectivamente.
Ontem, o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) publicou alerta de perigo, com precipitação de chuva entre 30 e 60 milímetros por hora ou 50 e 100 milímetros no dia, com ventos intensos (60-100 km/h) e risco de corte de energia elétrica, queda de galhos de árvores, alagamentos e de descargas elétricas, na região de Manaus.
O órgão orientou a população para não se abrigar debaixo de árvores em caso de rajadas de vento. Há risco de queda e descargas elétricas. A recomendação é para não estacionar veículos próximos a torres de transmissão e placas de propaganda. Se possível, desligar aparelhos elétricos e quadro geral de energia.
Em janeiro deste ano, os maiores acumulados de chuva ficaram concentrados em grande parte do Brasil, considerando uma faixa desde o noroeste da região Norte até o Leste das regiões Sudeste e Sul, passando pela parte central do país. Os acumulados ocorreram, principalmente, devido à presença de canal de umidade, além da atuação da Zcas (Zona de Convergência do Atlântico Sul).







