“Tudo que se extrai do fruto é 100% reaproveitado”

Em: 25 de janeiro de 2018
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Welleson Feitosa Gazel é um pesquisador amazonense que, após trabalhar no Polo Industrial de Manaus, se encantou pela docência e mudou para São Paulo, para cursar mestrado, em seguida doutorado, em Engenharia de Produção na área de Avanços em Produção Mais Limpa e Sustentabilidade em Sistemas de Produção liderados pelos professores Biagio Gianetti, Feni Agostinho e Cecília Almeida, nomes que são referência mundial em Contabilidade Ambiental em Emergia, na Unip (Universidade Paulista).
No mundo de pesquisas, as informações sobre a redução permanente de fontes de combustíveis fósseis e sua poluição causada são notórios, e neste contexto a Amazônia se mantém competitiva com o óleo de palma (dendê) sendo ótima alternativa ao se comparar às outras oleaginosas (canola, girassol, milho, soja), devido maior quantidade produzida por hectare, sendo esta monocultura geradora de desenvolvimento, emprego, incentivo à produção familiar e sustentabilidade em terras de difícil acesso como povoados e vilarejos onde as empresas privadas são as únicas alternativas de acesso à educação, saúde e transporte aos moradores, haja vista limitação e distribuição de recursos aos municípios.
Em entrevista ao Jornal do Commercio, Welleson Gazel detalhou melhor suas pesquisas.

Jornal do Commercio -Como o dendezeiro, uma planta originária da África, pode ser importante na Amazônia?
Welleson Gazel – Principalmente devido à facilidade de se desenvolver em nosso clima, incluindo terrenos de difícil acesso em regiões distantes, gerando desenvolvimento, emprego e renda para a agricultura familiar e as pessoas que residem nas proximidades das empresas produtoras as quais oferecem amparo técnico para os pequenos produtores e compram seus produtos de boa qualidade.

JC – Desde quando a árvore está sendo cultivada na região?
WG – Os projetos de incentivo ao dendezeiro no Pará começaram a partir de 1951, pelo antigo Ian (Instituto Agronômico do Norte), atualmente Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias), mas sua produção em escala na região Amazônica veio pela Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), em 1967. Essa monocultura foi a opção escolhida para gerar emprego e renda em regiões tidas como de difícil acesso, tendo seu potencial no ápice nas décadas de 1970 e 1980 com a Denpasa. Posteriormente, em 1990, a Agropalma entrou no negócio que movimenta milhões de dólares atualmente.

JC – Como tem sido esse cultivo em relação a outras regiões do país?
WG – A produção do Pará representa 95% do mercado nacional, as maiores indústrias estão inseridas na região com destaque para Agropalma, Biopalma, Marborges, dentre outras. O foco dessas empresas é o uso mínimo de produtos químicos e valorização da fitossanidade em pesquisas e intercâmbio entre outros países (Malásia, Indonésia, que juntos totalizam 90% do mercado internacional), com pesquisa e utilização de predadores naturais atacando pragas e possíveis causadores de doenças das palmeiras mantendo preço e qualidade competitivos comercialmente.

JC – O que abrange a sustentabilidade na produção do óleo de dendê?
WG – Envolve as áreas: ambiental, com leis mantendo áreas e leitos de rios preservados conseguindo certificações internacionais para exportação; social, com escolas para jovens e adultos, serviço médico e ambulâncias nas áreas sem apoio do Estado; econômica, gerando emprego, renda e desenvolvimento na região onde é produzida. Desta forma o Brasil é o 12° maior produtor mundial, com enorme potencial territorial de crescimento.

JC – Só o Pará está explorando a planta comercialmente?
WG – Como maior Estado produtor e tendo logística favorável devido as rodovias que fazem interligação para todo o Brasil, o Pará possui navios exportadores para vários países, as maiores empresas, destaque para o Grupo Agropalma com instalação de uma refinaria no município de Limeira/SP para atender uma maior fatia do mercado nacional, além de navios para o porto de Santos reduzindo custos de transporte e possibilitando maior quantidade em toneladas transportadas e disponíveis ao maior estado consumidor do país.

JC – Quais os números desse cultivo? Qual a área plantada? Quantas pessoas, direta e indiretamente, atuam no segmento? Faturamento? Quanto (em litros?) está se produzindo?
WG – Segundo a Sagri (Secretaria da Agricultura do Estado do Pará), em 2012 a área plantada era de 58.975 ha. A média é de um emprego direto para cada sete hectares, e receita bruta de R$ 7.500,00/ano a um custo estimado de R$ 3.750,00/ano. Sua maior concorrente, a soja, produz como média mundial 0,4 toneladas de óleo por hectare ao ano, o dendezeiro produz anualmente 4,2 toneladas de óleo em um hectare, quase dez vezes mais.

JC – Como é essa exploração? É apenas do óleo ou de outras partes da planta? É exportada, fica na região? O que se faz com o que o dendezeiro produz?
WG – O dendezeiro precisa de espaçamento de 9×9 metros entre árvores devido as raízes rasteiras e não profundas (143 ha), abundância de chuva e sol. Tudo que se extrai do fruto é 100% reaproveitado após a retirada do óleo, virando adubo ou queima na geração de energia elétrica. Temos como maiores importadores Índia e China. Seu consumo é bastante variado entre as indústrias de alimentos, cosméticos, rações, produtos de limpeza, inclusive o biodiesel.

O dendê no Amazonas

A Amazônia possui cerca de 70 milhões de hectares considerados como áreas aptas ou aproveitáveis para o cultivo do dendezeiro. Dessa área potencial, somente 39 mil hectares são utilizados efetivamente com a cultura, sendo que quase 85% estão localizadas no Estado do Pará. O Amazonas é o Estado que possui a maior área potencial para o plantio do dendê – cerca de 50 milhões de hectares, correspondendo a 71,4%. Os demais Estados da Amazônia Ocidental (Acre, Rondônia e Roraima) e o Estado do Amapá têm, em conjunto, 9 milhões de hectares, correspondendo a 12,9% do total de área potencialmente aproveitável.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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