No dia 3 de junho passado, o mundo teatral amazonense chorou, mais especificamente o universo em torno do Teatro Amazonas. Raimundo Nonato Pereira, o Nonatinho, havia partido, aos 89 anos, depois de dedicar longos 52 anos de sua vida a trabalhar no Teatro Amazonas. A magnífica casa de espetáculos era uma extensão de sua casa. Sua vida e trajetória, como um dos mais antigos funcionários do Teatro, agora estão eternizados no documentário ‘Nonatinho, o maestro das coxias’, dirigido por Juca di Souza.
“Eu realizei o projeto desse documentário a convite da amiga Thiana Colares, que é produtora deste trabalho. Fiquei muito honrado em dirigi-lo e vejo como uma forma de homenagear e eternizar a trajetória do Nonatinho, que dedicou mais de meio século aos bastidores do Teatro Amazonas. Ele sempre foi uma figura essencial nos corredores e coxias, mas muitas vezes invisível para o grande público. Era uma história que precisava ser contada, não só por respeito à memória dele, mas para valorizar todos os técnicos de teatro que, como ele, fazem a mágica acontecer longe dos holofotes”, falou Juca.
As filmagens do documentário começaram ainda em 2023 e Nonatinho chegou a participar com muito entusiasmo.
“Inclusive foi um dos primeiros a abraçar a ideia quando apresentei o projeto. Infelizmente, ele faleceu em junho de 2025, antes da finalização do documentário. A perda foi muito difícil, mas a equipe entendeu a importância de seguir e concluir essa homenagem da forma mais respeitosa possível”, disse.

Iniciou como pedreiro
Filho de um ajudante de pedreiro e de uma lavadeira, Nonato começou a trabalhar no Teatro, em 1973, como pedreiro, ajustando as telhas da cúpula do monumento. Naquele ano o Teatro passava pela sua terceira reforma, a maior realizada até então, durante o governo de João Walter de Andrade (1971 a 1975). A reinauguração do templo das artes ocorreu, com grande pompa, no ano seguinte.
Após esse trabalho, como pedreiro, Nonatinho foi contratado pela antiga Fundação Cultural do Amazonas, depois Secretaria de Cultura, atuando como porteiro, bilheteiro, assistente técnico, agente administrativo e cenotécnico.
“Durante as gravações do documentário, entrevistamos técnicos, atores, diretores, amigos de longa data e pessoas que conviveram com o Nonatinho ao longo da vida no Teatro. O que mais me marcou foi ouvir que, mesmo já bem idoso, ele continuava indo ao Teatro Amazonas cumprir suas obrigações. Já não ia todos os dias, mas fazia questão de estar presente lá ao menos uma ou duas vezes por semana. Enquanto teve forças para se movimentar, não deixou de estar naquele espaço, como se o Teatro fosse uma extensão do corpo e da vida dele. Isso diz muito sobre o amor e o compromisso que ele tinha com o ofício”, contou.
A maior parte de ‘Nonatinho, o maestro das coxias’ foi filmado nas áreas técnicas e nas coxias do Teatro, que foi o cenário principal da vida do Nonatinho. Mas também foram realizadas algumas gravações externas, em locais simbólicos para a memória dele e da cena teatral amazonense.
Nas redes sociais
Sobre as histórias de fantasmas, que muitas pessoas afirmam vagarem pelos espaços escuros do Teatro, ninguém melhor que o próprio Nonatinho para falar se eram verdadeiras, ou não. E ele confirmou serem verdadeiras.
“As histórias de fantasmas vistos por ele, e que ‘habitam’ o Teatro Amazonas, são incríveis e podem ser conhecidas, contadas por ele, no documentário”, avisou.
Muito mais do que um simples funcionário, Nonatinho era um ‘faz tudo’ que ajudou a resolver diversos problemas técnicos daqueles surgidos exatamente na estreia de um espetáculo.
“Sim. Diante de determinadas situações inesperadas, ele improvisava soluções técnicas com pouquíssimos recursos e uma criatividade e dedicação impressionantes. Isso o tornou muito respeitado por todas as gerações, dos veteranos aos mais jovens, que atuaram no Teatro, pois sabiam que podiam contar com Nonatinho para o que desse e viesse”, revelou.
O projeto de ‘Nonatinho, o maestro das coxias’ foi pensado exclusivamente para ser acessado nas redes sociais e já está disponível nas plataformas YouTube, Instagram e Facebook, bastando procurar por ‘Documentário Nonatinho’.
“Quero que o maior número possível de pessoas veja este documentário, a fim de conhecerem a história do Nonatinho, especialmente os jovens que estão começando no teatro, para que se inspirem em sua abnegação por essa arte”, afirmou.
Juca di Souza trabalha principalmente com cenografia teatral, mas também já realizou atividades como diretor de arte para o audiovisual amazonense, além de desenvolver projetos educativos e artísticos voltados à memória cultural do Amazonas.
“Esse documentário, no entanto, é muito especial para mim porque toca diretamente na memória afetiva de quem vive os bastidores do teatro, como eu”, concluiu.








