Um em cada quatro jovens do Amazonas são ‘nem nem’

Em: 27 de dezembro de 2022

O número de jovens que nem estudavam, e nem trabalhavam encolheu em todo o país, entre 2020 e 2021, em meio à pandemia. Ainda assim, se manteve em um patamar elevado, correspondendo a 25,8% das pessoas de 15 a 29 anos de idade, o equivalente a 12,7 milhões. O Amazonas seguiu a mesma dinâmica, mas sustentou uma taxa ainda maior: 27,5% dos jovens nessa faixa etária (312 mil) estavam na categoria dos ‘nem, nem’. A informação vem da pesquisa “Síntese de Indicadores Sociais – 2022, uma análise das condições de vida da população brasileira”, do IBGE.

Mulheres afrodescendentes ou “pardas” (grupo que inclui também os indígenas) respondiam por 41,9% dos brasileiros nessa faixa etária que estavam excluídos simultaneamente do mercado de trabalho e dos estudos, no segundo ano da pandemia. Na sequência estavam os homens “pretos” ou “pardos” (24,3%), as mulheres “brancas” (20,5%) e os homens “brancos” (12,5%). O órgão federal de pesquisa não forneceu dados delimitados por gênero e etnia para o Amazonas e as demais unidades federativas. 

O Amazonas figura com o 13º maior percentual de jovens sem emprego e sem estudar, entre as unidades federativas brasileiras. Os maiores índices vêm de Maranhão (37,7%), Alagoas (36,6%) e Acre (35,5%). Na outra ponta, Santa Catarina (12,5%), Paraná (17,9%) e Rio Grande do Sul (18,2%) apareceram com as menores proporções de habitantes nessa condição excludente. 

Segundo o IBGE, entre países da OCDE, o Brasil tinha o terceiro maior percentual de jovens de 18 a 24 anos que não estudavam, nem estavam ocupados em 2020. Em contraste, a publicação “Education at a glance” aponta que os jovens da maior parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento conseguiram aproveitar o primeiro ano da pandemia para estudar. As exceções vieram do Brasil, além de Colômbia, Canadá e EUA. Somente África do Sul e Colômbia possuíam percentual pior do que  o brasileiro.

Fora do mercado

De uma forma geral, o Amazonas contabilizou, no ano passado, mais de 3,11 milhões pessoas “em idade de trabalhar”, que é de 14 anos ou mais, conforme o IBGE. Destas, 53,2% estavam empregadas de alguma forma, em patamar 3,6 pontos percentuais abaixo da marca de 2012. Os 46,8% restantes estavam desocupadas –percentual que não parou de crescer desde 2015 –ou fora da força de trabalho. Entre os que não tinham emprego em 2021, a maioria (39,8%) estavam há menos de um ano sem trabalhar, mas 32,2% já somavam dois anos ou mais nessas condições. 

O IBGE estima que o Amazonas tenha mais de 1,13 milhão de pessoas com idades entre 15 e 29 anos, em 2021. Aponta ainda que a situação dos ‘nem, nem’ piorou significativamente no primeiro ano da pandemia, antes de sofrer refluxo no ano seguinte. O percentual de jovens nesse perfil subiu de 26,4% (2019) para 29,3% (2020), em sintonia com a chegada da crise sanitária ao país. Em 2021, esse percentual já havia recuado para 27,5%, e praticamente empatou com o número de 2016 (27,4%) –o terceiro ano seguido de recessão no país, durante a crise que marcou os anos finais do governo Dilma.

O indicador inclui simultaneamente os jovens que não estudavam e estavam desocupados (que buscavam uma ocupação e estavam disponíveis para trabalhar) e aqueles que não estudavam e estavam fora da força de trabalho –não tomaram providências para conseguir trabalho ou tomaram e não estavam disponíveis. A maior parte dos ‘nem, nem’ do Amazonas 64,4% estava nessa situação, superando novamente a média brasileira (59,8%), embora tenha ficado abaixo do percentual do Norte do país (69,9%) e figura com o menor número da região, nesse quesito.

“Sem mudanças”

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, considerou que a queda proporcional no grupo de jovens sem trabalho e sem emprego, entre 2020 e 2021, foi “bem significativa”, e explicou à reportagem do Jornal do Commercio que isso ocorreu em virtude da melhora relativa na taxa de desocupação. Mas, ressalta que isso foi apenas o suficiente para o Amazonas voltar aos níveis de 2015. 

“Em seis anos o Estado não apresentou mudança significativa para esse grupo etário no campo do trabalho e da educação. Os números indicam que uma quantidade expressiva de jovens que estão na idade de estudar ou trabalhar se encontram improdutivos para a sociedade. Pode ser um dos vários motivos que levam alguns ao tráfico e à violência. Outras estatísticas mostram que o abandono escolar antes da conclusão do ensino médio é bastante alto, o que potencializa o indicador dos que não estudam e nem trabalham”, ponderou.

Políticas públicas

A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, avalia que os números do IBGE confirmam as desigualdades regionais do país, apesar da “relativa melhora” nos indicadores de vulnerabilidade social nos últimos anos. Enfatiza que o atraso educacional acarreta perda de oportunidades de trabalho e de melhor remuneração. E acrescenta que o descompasso entre formação profissional e mercado profissional deve ser combatido com políticas públicas “bem articuladas”.

A economista lembra que as atividades de ensino foram as mais impactadas pela pandemia e observa que o deficit na infraestrutura de telecomunicações, assim como os impactos do regime de cheias e vazantes no calendário educacional, também contribuem para evasão e atraso escolar. “Devemos refletir sobre a necessidade de melhorar o acesso à internet, bem como às tecnologias de ensino e aprendizado, para possibilitar o melhor acesso aos estudantes que vivem em áreas remotas e que estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica e educacional”, recomendou.

Desigualdades e pré-conceito

O sociólogo e professor universitário, Luiz Antonio Nascimento, destaca que mulheres, negros e idosos são os primeiros a serem demitidos em uma crise, mas costumam ser os últimos a serem admitidos em ciclos de retomada. Ele ressalta que os números do IBGE desnudam as desigualdades do país  “Eles reafirmam duas premissas sobre o fato de o racismo ser mais contundente contra mulheres negras e, logo depois, sobre homens negros. Também mostram a discriminação por gênero que se impõe sobre mulheres e mulheres negras”, pontuou. 

Nascimento destaca ainda que o termo ‘nem, nem’ não é preciso, pois insinua que o público em questão está nessa condição de ser uma escolha. “Esse termo ‘nem, nem’ carrega um conteúdo preconceituoso. Se você for descrever esse jovem, a gente tem um recorte de classe”, apontou. “A história dos países em desenvolvimento sugere que essas pessoas são empurradas a essa condição. Você tem uma escola que não tem condições de acolher jovens gestantes, ou que são vítimas de abuso e violência, ou que estão nos grupos que enfrentam fome e miséria”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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