Uma gota de São Charbel

Em: 16 de dezembro de 2025
Relíquia do primeiro santo libanês chega a Manaus e ocupará um espaço no altar de N. Sra. do Líbano.
Jacques Menassa e Dom Leonardo Steiner recebendo a relíquia
Jacques Menassa e Dom Leonardo Steiner recebendo a relíquia

No dia 14, domingo, a comunidade libanesa, de Manaus, acordou cheia de alegria. Logo cedo, às 8h, ocorreu a missa de celebração especial pela chegada da relíquia de São Charbel, que foi colocada junto à estátua de N. Sra. do Líbano, na Igreja dos Remédios. Após isso, os participantes da missa foram abençoados pelo pároco Mauro Cleto e pelo bispo Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, especialmente convidados para presidir a solenidade. 

De acordo com o fotógrafo Jacques Menassa, um libanês apaixonado pelo Brasil e pela Amazônia, os primeiros libaneses vieram para a região em 1885 e hoje já estão na quinta geração. Foi Jacques o responsável por trazer a relíquia para Manaus.

“Fui eu quem trouxe a relíquia. Eu pedi para o padre Elias Khalifé, ex-superior geral da Ordem Maronita Libanesa, e ele atendeu ao meu pedido. Ela será colocada no altar de N. Sra. do Líbano. O antigo bairro dos Remédios, desde 1900, foi o bairro dos libaneses, em Manaus, e até hoje muitos dos seus descendentes vivem lá”, falou.

“Desde quando vim para Manaus pela primeira vez, em 1990, e me apaixonei pela cidade e pelo Amazonas, era um sonho meu trazer essa relíquia para cá, porque os patrícios que aqui viviam, estavam animados para ter uma, e Deus nos ajudou a consegui-la”, comemorou.

A relíquia se trata de um pingo de sangue de São Charbel acondicionado numa pequena caixa metálica incrustada numa peça esculpida em madeira de cedro, a árvore símbolo do Líbano.

“Junto com a relíquia veio um certificado do Vaticano, em latim, atestando que ela é verdadeira”, informou.

A igreja dos Remédios foi construída com o apoio da comunidade sírio-libanesa
A igreja dos Remédios foi construída com o apoio da comunidade sírio-libanesa

Uma nova luz        

Menassa lembrou que, em 1937, foi erguida a igreja, hoje catedral, de N. Sra. dos Remédios, com o altar dedicado a N. Sra. do Líbano.

“Isso aconteceu após a visita do padre Elias Maria Ghorayeb a Manaus e a consequente fundação da Fraternidade de N. Sra. do Líbano”, explicou.

Situada no coração do centro histórico de Manaus, a Igreja dos Remédios se destaca em um bairro conhecido, desde o início do século passado, como o ‘bairro sírio-libanês’, por ter sido habitado exclusivamente por famílias oriundas da Síria e do Líbano, com exceção de apenas duas residências.

“É muito gratificante, 88 anos após ter sido erguido o altar em honra de N. Sra. do Líbano, a relíquia de São Charbel vir unir-se a ele como uma nova luz, em homenagem filial a todos os nossos compatriotas que vivem no coração da Amazônia”, afirmou.

 

Primeiro santo libanês

Youssef nasceu em 8 de maio de 1828, na aldeia maronita de Beqa Kafra, a mais alta do Líbano, com 1.600 metros de altura. Era filho de Antun Zarour Makhlouf e Brígita Al-Chidiac. Batizado com esse nome, Youssef (José), cresceu em uma família simples e profundamente religiosa. Desde pequeno o menino mostrava grande devoção religiosa, rezando numa pequena gruta chamada ‘a gruta do santo’.

Ainda jovem sentiu o chamado para a vida religiosa, inspirado por dois tios eremitas.

Apesar da oposição da família e do afeto de uma jovem que queria casar com ele, Youssef decidiu seguir o chamado de Deus. Em 1851, com 23 anos, entrou no mosteiro de N. Sra. de Mayfouq e, no noviciado, recebeu o nome religioso de Charbel, em homenagem a um mártir oriental.

Em 1º de novembro de 1853 fez profissão solene (compromisso definitivo e irrevogável) no mosteiro de Annaya.

Estudou teologia no mosteiro de Kiffan, como aluno do futuro santo Nimatullah Al-Hardini. Foi ordenado sacerdote em 23 de julho de 1859. Viveu exclusivamente para a vida monástica com muita oração, trabalho, silêncio, pobreza e obediência.

Após insistentes pedidos, recebeu permissão, em 1875, para viver no eremitério dos Santos Pedro e Paulo, próximo a Annaya. Levou uma vida extremamente austera: uma única refeição simples por dia, não comia carne nem frutas, trabalhava manualmente se dedicando a longas horas de oração e adoração.

 

Véspera do Natal

Em 16 de dezembro de 1898, no momento da Elevação (quando a hóstia é consagrada), sofreu uma paralisia durante a missa. Morreu oito dias depois, em 24 de dezembro, véspera de Natal, aos 70 anos.

Foi sepultado no mosteiro de Annaya.

O interessante é que seu corpo permaneceu intacto, flexível e transpirando um líquido sanguinolento por 67 anos. Outro dado misterioso é que luzes apareceram sobre seu túmulo semanas após sua morte. O túmulo foi aberto várias vezes entre 1899 e 1955, e sempre continuava preservado. A partir daí passou a atrair milhares de fiéis e estudiosos. Charbel foi beatificado em 5 de dezembro de 1965 e santificado, em 9 de outubro de 1977, pelo papa Paulo VI tornando-se o primeiro santo libanês.

Alguns dos milagres atribuídos a ele, durante a vida e após a morte, são curas inesperadas de cegueira, câncer e doenças incuráveis. Os milagres que o candidataram à beatificação foram a cura da irmã Maria Abel Kamari e de Alexandre Obeid (perda total da visão). Já o milagre que o elevou à condição de santo foi a cura de Mariam Assaf Awad de um câncer terminal.

 

Relíquia faz parte da escultura feita com cedro, árvore símbolo do Líbano
Relíquia faz parte da escultura feita com cedro, árvore símbolo do Líbano

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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