No dia 14, domingo, a comunidade libanesa, de Manaus, acordou cheia de alegria. Logo cedo, às 8h, ocorreu a missa de celebração especial pela chegada da relíquia de São Charbel, que foi colocada junto à estátua de N. Sra. do Líbano, na Igreja dos Remédios. Após isso, os participantes da missa foram abençoados pelo pároco Mauro Cleto e pelo bispo Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, especialmente convidados para presidir a solenidade.
De acordo com o fotógrafo Jacques Menassa, um libanês apaixonado pelo Brasil e pela Amazônia, os primeiros libaneses vieram para a região em 1885 e hoje já estão na quinta geração. Foi Jacques o responsável por trazer a relíquia para Manaus.
“Fui eu quem trouxe a relíquia. Eu pedi para o padre Elias Khalifé, ex-superior geral da Ordem Maronita Libanesa, e ele atendeu ao meu pedido. Ela será colocada no altar de N. Sra. do Líbano. O antigo bairro dos Remédios, desde 1900, foi o bairro dos libaneses, em Manaus, e até hoje muitos dos seus descendentes vivem lá”, falou.
“Desde quando vim para Manaus pela primeira vez, em 1990, e me apaixonei pela cidade e pelo Amazonas, era um sonho meu trazer essa relíquia para cá, porque os patrícios que aqui viviam, estavam animados para ter uma, e Deus nos ajudou a consegui-la”, comemorou.
A relíquia se trata de um pingo de sangue de São Charbel acondicionado numa pequena caixa metálica incrustada numa peça esculpida em madeira de cedro, a árvore símbolo do Líbano.
“Junto com a relíquia veio um certificado do Vaticano, em latim, atestando que ela é verdadeira”, informou.

Uma nova luz
Menassa lembrou que, em 1937, foi erguida a igreja, hoje catedral, de N. Sra. dos Remédios, com o altar dedicado a N. Sra. do Líbano.
“Isso aconteceu após a visita do padre Elias Maria Ghorayeb a Manaus e a consequente fundação da Fraternidade de N. Sra. do Líbano”, explicou.
Situada no coração do centro histórico de Manaus, a Igreja dos Remédios se destaca em um bairro conhecido, desde o início do século passado, como o ‘bairro sírio-libanês’, por ter sido habitado exclusivamente por famílias oriundas da Síria e do Líbano, com exceção de apenas duas residências.
“É muito gratificante, 88 anos após ter sido erguido o altar em honra de N. Sra. do Líbano, a relíquia de São Charbel vir unir-se a ele como uma nova luz, em homenagem filial a todos os nossos compatriotas que vivem no coração da Amazônia”, afirmou.
Primeiro santo libanês
Youssef nasceu em 8 de maio de 1828, na aldeia maronita de Beqa Kafra, a mais alta do Líbano, com 1.600 metros de altura. Era filho de Antun Zarour Makhlouf e Brígita Al-Chidiac. Batizado com esse nome, Youssef (José), cresceu em uma família simples e profundamente religiosa. Desde pequeno o menino mostrava grande devoção religiosa, rezando numa pequena gruta chamada ‘a gruta do santo’.
Ainda jovem sentiu o chamado para a vida religiosa, inspirado por dois tios eremitas.
Apesar da oposição da família e do afeto de uma jovem que queria casar com ele, Youssef decidiu seguir o chamado de Deus. Em 1851, com 23 anos, entrou no mosteiro de N. Sra. de Mayfouq e, no noviciado, recebeu o nome religioso de Charbel, em homenagem a um mártir oriental.
Em 1º de novembro de 1853 fez profissão solene (compromisso definitivo e irrevogável) no mosteiro de Annaya.
Estudou teologia no mosteiro de Kiffan, como aluno do futuro santo Nimatullah Al-Hardini. Foi ordenado sacerdote em 23 de julho de 1859. Viveu exclusivamente para a vida monástica com muita oração, trabalho, silêncio, pobreza e obediência.
Após insistentes pedidos, recebeu permissão, em 1875, para viver no eremitério dos Santos Pedro e Paulo, próximo a Annaya. Levou uma vida extremamente austera: uma única refeição simples por dia, não comia carne nem frutas, trabalhava manualmente se dedicando a longas horas de oração e adoração.
Véspera do Natal
Em 16 de dezembro de 1898, no momento da Elevação (quando a hóstia é consagrada), sofreu uma paralisia durante a missa. Morreu oito dias depois, em 24 de dezembro, véspera de Natal, aos 70 anos.
Foi sepultado no mosteiro de Annaya.
O interessante é que seu corpo permaneceu intacto, flexível e transpirando um líquido sanguinolento por 67 anos. Outro dado misterioso é que luzes apareceram sobre seu túmulo semanas após sua morte. O túmulo foi aberto várias vezes entre 1899 e 1955, e sempre continuava preservado. A partir daí passou a atrair milhares de fiéis e estudiosos. Charbel foi beatificado em 5 de dezembro de 1965 e santificado, em 9 de outubro de 1977, pelo papa Paulo VI tornando-se o primeiro santo libanês.
Alguns dos milagres atribuídos a ele, durante a vida e após a morte, são curas inesperadas de cegueira, câncer e doenças incuráveis. Os milagres que o candidataram à beatificação foram a cura da irmã Maria Abel Kamari e de Alexandre Obeid (perda total da visão). Já o milagre que o elevou à condição de santo foi a cura de Mariam Assaf Awad de um câncer terminal.








