No próximo dia 30 de abril, um domingo, o manauara vai ganhar mais um local onde poderá desfrutar de autênticos café da manhã, almoço ou jantar, regionais a poucos minutos da capital. Autênticos porque os produtos servidos tanto no café quanto no almoço e jantar são produzidos ou adquiridos no local e na região. Trata-se da inauguração da Fazenda PEC, um misto de restaurante e pousada, localizados na Terra Nova, comunidade pertencente ao município do Careiro do Várzea, “na costa do Careiro da Várzea, como dizem os moradores da comunidade”, falou Aldo Procópio, secretário de Pesca do município e um dos idealizadores em transformar a Fazenda PEC num empreendimento turístico.
“Essa foi a ideia do primeiro proprietário da fazenda, o empresário Pedro Queiroz Sampaio, que faleceu no mês passado. A fazenda, com esse nome, existe há mais de 40 anos, mas como empreendimento turístico tem uns 30”, contou Aldo. “O Pedro Queiroz idealizou fazer uma pousada aí atrás e chegou a construir parte do empreendimento. Como essa área aqui da Terra Nova alaga, ele mandou aterrar toda essa frente. Nem com a grande cheia de 2012 a água chegou aqui. Mas os negócios não deram certo e ele paralisou todas as obras. Desde então tudo ficou abandonado”, completou.
Só agora, com a morte de Pedro Queiroz, o casal Manoel da Conceição e Maria José Batista, que trabalharam com o empresário e hoje são os proprietários da Fazenda PEC, resolveram retomar as obras da antiga pousada e transformar a parte da frente de sua residência no restaurante onde servirão o café da manhã, o almoço e o jantar. “A edificação onde funcionaria a pousada, localizada numa parte mais pra trás da fazenda, cercada pela floresta, está em ruínas, mas o prefeito Ramiro Gonçalves está dando todo o apoio na restauração do espaço para que ele fique pronto até o dia 30 e sirva para atrair turistas para a Terra Nova”, falou Vivaldo Santos, secretário de Turismo do Careiro da Várzea.
A pousada terá capacidade inicial para dez pessoas. “Depois pretendemos construir chalés nas imediações, para quem quiser um contato mais próximo com a floresta”, acrescentou Marcelo Nogueira, filho de Manoel e Maria José. “Também teremos área para camping e a caminhada pela trilha passa junto a árvores centenárias e pequenos lagos”, falou. “Também organizaremos pesque e solte para a diversão de quem gosta de pescar”, adiantou.
O interessante das refeições na Fazenda PEC é que tudo lá é natural, produzido lá mesmo ou adquirido nas fazendas próximas: as bananas, o leite, o milho, a batata, a macaxeira, o queijo, as frutas e verduras, a galinha caipira, os peixes e a carne de gado. “Esse será o nosso diferencial. Nada virá da feira ou do supermercado. Tudo é daqui mesmo, fresquinho. Mais natural, impossível”, riu com seu jeito caboclo.
O acesso à Fazenda PEC é via Ceasa. “Basta nos ligar (9 9315-9472 e 9 9154-4622) que mandamos a lancha ir apanhar lá na Ceasa. A partir de 30 de abril iremos funcionar diariamente para todas as refeições”, garantiu Maria José.
Um lago ainda farto
Mas o Careiro da Várzea tem muito mais atrações além da Fazenda PEC. Quem for à região, poderá se maravilhar com a beleza do Lago do Rei, o gigantesco lago que ocupa boa parte do norte do município numa ilha imensa onde fica a sede administrativa. “Na realidade são 62 pequenos lagos que, na época da cheia do Solimões, se unem e formam o Lago do Rei”,explicou Aldo Procópio.
Registra a história que o lago tem esse nome porque era de suas águas que saíam peixes e outros animais para abastecer o pesqueiro real, ou pesqueiro, postos de pesca instalados pela coroa portuguesa em trechos de rios ou lagos na Amazônia, onde toneladas de peixes eram salgados ou secos, peixes-bois caçados e tartarugas recolhidas para grandes currais e seus ovos apanhados e esmagados para a produção de óleo, cujos recursos deveriam ajudar na provisão de carne e combustível para funcionários da coroa e habitantes locais.
Até hoje as águas do Lago do Rei continuam fartas de curimatãs, bodós, tucunarés, carauaçus e pacus, “mas a espécie que se destaca é o mapará. Este ano, pela primeira vez, com o apoio das secretarias de Pesca e do Meio Ambiente, a pesca no lago obedeceu regras. Assim que acabou o período do defeso, em 15 de março, promovemos a despesca do mapará. Foram pescadas 126 toneladas de maparás ao longo de três dias. Agora, pelo resto do ano até o começo do defeso, em 15 de novembro, a pesca será controlada. Pescadores que não sejam de comunidades do entorno e proximidades do lago não poderão pescar lá”, adiantou o secretário Aldo Procópio.
“E temos que cuidar dessas riquezas que o lago nos dá”, afirmou Mozamir Alves, presidente do sindicato dos pescadores do município. “Esse ano foram pescadas 126 toneladas de mapará, mas em outros anos já conseguimos pescar muito mais. Esse ano pescamos o peixe com malhadeiras 40 e 45, mas a cada ano vamos aumentar esse espaçamento (malhas) para que espécies de maior tamanho não sejam pescadas”, disse. “Também os pescadores estão notando que os bodós estão vindo cada vez mais em menor tamanho. Vamos solicitar a inclusão deles no defeso desse ano”, adiantou. “E a pesca de arrastão já está proibida durante o ano inteiro. Só é permitida de malhadeira e com vara”, esclareceu.
Pouco apreciado entre os amazonenses, o mapará (Hypophthalmus edentatus) possui carne gorda, com quase nenhuma espinha e é bem saborosa. O peixe alcança até 3 kg de peso, e seu filé tem rendimento superior a 60% do corpo. Na Fazenda PEC, Maria José prepara o peixe assado de forno, frito, na brasa, guisado, só o filé, desfiado, como tira-gosto e ainda faz piracuí, a farinha de peixe típica da Amazônia.
O pescador Sebastião Jerônimo, o Sabazinho, pesca há mais de 30 anos no Lago do Rei e até hoje não conhece os 62 lagos que formam o principal. “Porque tem uns muito distantes, mas posso dizer que o Janico é o menor de todos e o Redondo Pesqueiro é o maior. Pesco muito no Estevão e no Papocu, porque são aqui perto de casa. Pesco Tucunaré, que depois vendo na Ceasa. É um peixe difícil de pescar, com zagaia, mas quando a pesca está boa, chego a zagaiar 300 num só dia”, afirmou.
É o Lago do Rei, para nobres e plebeus.







