Unanimidade fortalece Roberto Cidade

Em: 5 de maio de 2026
Eleição indireta unânime na Aleam amplia força política do novo governador às vésperas da disputa de 2026.
Roberto Cidade assume governo ao lado de Serafim Corrêa após votação unânime na Aleam. (Divulgação)
Roberto Cidade assume governo ao lado de Serafim Corrêa após votação unânime na Aleam. (Divulgação)

A eleição unânime de Roberto Cidade (União Brasil) para o governo do Amazonas, em votação indireta realizada na segunda-feira (4) na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), ampliou o peso político do parlamentar às vésperas do calendário eleitoral de 2026 e expôs uma convergência momentânea entre grupos que devem disputar espaço político nos próximos meses. 

O entãoi presidente da Casa foi escolhido pelos 24 deputados estaduais para assumir o comando do Executivo até dezembro, após as renúncias de Wilson Lima (União Brasil) e do vice-governador Tadeu de Souza (Progressistas).

Cidade assume o governo tampão tendo como vice Serafim Corrêa (PSB). A composição foi aprovada sem resistência pública, inclusive com votos de parlamentares ligados a grupos políticos que devem estar em campos distintos na eleição estadual deste ano. 

A unanimidade ocorreu em um cenário de rearranjo político acelerado no Amazonas, marcado pela saída antecipada de Wilson Lima para cumprir o prazo de desincompatibilização exigido pela legislação eleitoral.

A eleição indireta ocorreu com base na Constituição Estadual, que prevê escolha pelo Legislativo quando a vacância do governo acontece nos dois últimos anos do mandato. Foi a primeira vez na história do Amazonas que governador e vice foram escolhidos sem voto popular.

Após o resultado, Roberto Cidade afirmou que a votação simboliza um pacto político dentro da Assembleia. “Essa não é uma vitória individual. É uma decisão coletiva, construída com diálogo, respeito e compromisso com o povo do Amazonas”, declarou.

O cientista político Helso Ribeiro avaliou que o resultado foi de certa surpreendendente até para integrantes do grupo político ligado ao novo governador. Segundo ele, a expectativa inicial era de uma votação ampla, mas não necessariamente unânime.

Para Helso, o resultado fortalece institucionalmente Roberto Cidade dentro da Aleam e amplia sua margem política para os próximos meses. “Essa unanimidade aumenta a legitimidade dele perante a Assembleia Legislativa. Mostra capacidade de diálogo, inclusive com deputados que não fazem parte diretamente do grupo governista”, disse.

A votação reuniu apoio inclusive de parlamentares ligados a setores políticos distintos, entre eles deputados próximos ao ex-prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), e grupos que orbitam possíveis candidaturas ao governo em 2026. Nos bastidores, a composição também foi vista como um movimento de preservação institucional para garantir estabilidade administrativa até o fim do mandato.

O consultor e comentarista político Oarlem Sena avalia que a convergência observada na votação tende a ser temporária. Segundo ele, o ambiente político deve mudar rapidamente após a definição das candidaturas estaduais.

“Hoje houve uma trégua institucional. Mas isso termina agora. A partir de amanhã (hoje), cada grupo vai atuar de acordo com seu projeto político. Roberto Cidade tem a máquina do governo na mão, mas ainda precisa fazer crescer seu capital político ”, afirmou.

Na avaliação dele, a unanimidade não significa alinhamento definitivo entre os grupos políticos do Estado, mas uma construção circunstancial diante da necessidade de transição no Executivo. “Foi um acordo político amplo dentro da Assembleia. Mas o desgaste natural do governo começa imediatamente porque cada grupo vai defender seus próprios interesses eleitorais”, disse.

Embora a eleição tenha ocorrido de forma indireta, dentro da Aleam, analistas apontam que o impacto junto ao eleitorado ainda é limitado. Helso Ribeiro afirmou que parte significativa da população ainda não compreende completamente o mecanismo constitucional que levou à escolha indireta do novo governador.

“Boa parte do eleitorado ainda está distante desse debate. Muita gente não entendeu exatamente o que aconteceu”, afirmou.

O cientista político Carlos Santiago interpreta a unanimidade como um movimento estratégico de diferentes forças políticas em torno da nova configuração do poder estadual. Segundo ele, o apoio amplo recebido por Roberto Cidade também revela cálculos eleitorais sobre o cenário de outubro.

“Essa unanimidade indica que vários grupos políticos acreditam que Roberto Cidade pode não chegar como protagonista principal da disputa eleitoral de 2026. Há uma leitura de que ele pode ficar no meio do caminho, como ocorreu na eleição municipal”, afirmou.

Cidade disputou a Prefeitura de Manaus em 2024 e terminou o pleito com 187 mil votos, mas fora do segundo turno. Apesar disso, consolidou sua liderança dentro da Aleam e ampliou sua influência partidária no União Brasil.

Aos 39 anos, Roberto Cidade chega ao governo após uma trajetória de crescimento rápido na política amazonense. Ele foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2018 e, dois anos depois, assumiu a presidência da Aleam aos 34 anos, tornando-se o mais jovem parlamentar a comandar a Casa. Em 2022, foi reeleito com 105,5 mil votos, recorde histórico para o cargo no Amazonas.

Durante a pandemia de Covid-19, liderou votações ligadas à criação de auxílio estadual permanente, liberação de recursos do Fundo de Fomento ao Turismo para a saúde e aprovação da chamada Lei do Gás. Também enfrentou disputas judiciais relacionadas à recondução à presidência da Aleam, tema que chegou ao Supremo Tribunal Federal e teve o processo encerrado em 2025 após validação da eleição interna da Casa.

Fred Novaes

É jornalista
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