A afirmação de que as empresas brasileiras estão adaptadas à valorização da moeda pode ser verdadeira, porém em um sentido muito restrito. Mesmo uma grande empresa que em média exporta algo como 25% a 30% de sua produção não deixa de ser afetada por um aumento do valor do real, que no ano passado foi de 17% e neste ano já acumula mais de 10%. Ela, no entanto, dispõe de colchões amortecedores do impacto dessa valorização sobre sua rentabilidade.
Os preços internacionais favoráveis, as possibilidades de aplicações em mercados futuros, as operações de hedge e o deslocamento na margem das vendas externas para o mercado interno, são todos mecanismos que vêm compensando eventuais perdas, o que, no entanto, é praticamente restrito às empresas de grande porte.
Até quando será possível usar esses expedientes, ninguém é capaz de dizer. Note-se que os artifícios assinalados podem compensar a queda da rentabilidade empresarial, mas não a competitividade do produto nacional. Em outras palavras, a grande empresa é capaz de se “adaptar” a um real valorizado, mas a competitividade nacional se deteriora. É essa distinção entre a ótica da empresa, ou microeconômica, e a ótica do produto da economia nacional é que deveria nortear as avaliações públicas sobre o tema do câmbio.
A valorização cambial pode já não ser tão negativa para a empresa, sobretudo a de grande porte, mas, na intensidade e na velocidade com que se deu, é negativa para a economia do país.
Perde o país em sua capacidade exportadora e perdem os setores domésticos em sua capacidade de concorrer com o produto importado. Para quem não crê nisso, basta consultar a trajetória recente do comércio exterior brasileiro. As exportações vivem de preços crescentes, enquanto os volumes embarcados crescem pouco ou até mesmo declinam, como no caso dos manufaturados; enquanto isso, as importações crescem vigorosamente em termos de volumes. Mais do que isso, como será publicado brevemente, um estudo do Iedi mostra que são os setores mais intensivos em tecnologia os que mais rapidamente vão mudando o sinal do comércio exterior. A indústria como um todo já acusa déficit, o qual já é de grande volume nos setores de mais alta tecnologia.
Quanto à produção e ao emprego, os setores mais afetados pelo câmbio voltaram a mostrar, nos cinco primeiros meses deste ano, a trajetória declinante que tiveram na entrada de 2007 – a qual fora revertida nos meses seguintes do ano passado devido ao dinâmico crescimento do mercado interno. Calçados, produtos de madeira, indústria têxtil e, nos últimos meses, a indústria de vestuário acusam redução de produção no acumulado do corrente ano, assim como demitiram mais funcionários do que contrataram ao longo desse período. Não é por acaso que nesses setores haja um predomínio maior de empresas de menor porte, exatamente aquelas que não têm o poder de neutralizar o efeito da valorização cambial.
Valorização da moeda impacta na rentabilidade
Em: 24 de julho de 2008
A afirmação de que as empresas brasileiras estão adaptadas à valorização da moeda pode ser verdadeira, porém em um sentido muito restrito.
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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