Varejo projeta expansão moderada

Em: 4 de fevereiro de 2026

O varejo da capital amazonense espera expansão nominal de 3,8% nas vendas de material escolar. A projeção é da CDL-Manaus (Câmara dos Dirigentes Lojistas de Manaus), a partir de sondagem realizada com consumidores da cidade. A taxa de expansão é mais baixa do que a registrada na temporada de volta às aulas do ano passado (+4,8%). Embora a receita bruta não tenha sido informada pela entidade, sabe-se que o ticket médio esperado para o conjunto de lojas que atendem esse segmento é de R$ 550. A cifra supera os dispêndios médios do manauara para esse fim, contabilizados em 2025 (R$ 520) e 2024 (R$ 500).

O aumento, portanto, não se sustenta apenas pelo volume efetivo de vendas movido, pela procura sazonal por produtos típicos para a época, como também pela variação dos preços do segmento que atende essa demanda. O estudo da CDL-Manaus aponta um reajuste de 10% a 18% para os valores cobrados pelos itens escolares na ponta do consumo. A variação está bem acima da inflação oficial, já que o IPCA do IBGE fechou o ano com elevação de 4,26%. “O aumento deve refletir a pressão inflacionária, o encarecimento dos custos de produção, a alta das tarifas de energia e transporte, além da instabilidade do cenário econômico”, assinalou a entidade, no texto da sondagem.

Em sintonia com esse cenário, a maior parte dos consumidores ouvidos tem no preço seu principal critério de escolha para a aquisição. Mesmo diante da limitação orçamentária pela inflação, a prioridade novamente é pagar à vista, para fugir do risco de inadimplência, em um ambiente ainda de alta de juros. Como visto também na pesquisa do Ifpeam (Instituto Fecomercio de Pesquisas Empresariais do Amazonas), seis em cada dez pais estão adiantando as compras, e praticamente um terço (30%) informam que usarão o mesmo uniforme do ano passado, para amortizar custos –fatia pouco menor do que as registradas em 2025 (32%) e 2024 (34%). 

 

Preços e juros

Menos de um quinto dos consumidores (18%) revelou que já havia adquirido o material escolar, na data de realização da pesquisa, na virada do ano. o percentual ficou pouco abaixo do apresentado 12 meses atrás. Parte desse público já havia mencionado, em levantamento anterior da entidade, que usaria uma parcela do 13º salário para “gastos escolares” (10%). A maioria dos entrevistados informou, contudo, que faria a aquisição ao longo de janeiro (40%). Os demais disseram que vão adiar o compromisso para o começo de fevereiro (27%); para um dia antes do início das aulas (6%); e para após o começo das classes (5%). Mas, 4% “não sabem”.

Em linha com o aumento das taxas de juros para o consumidor – e ao contrário do verificado no Natal –, a parte majoritária dos consumidores avisa que vai priorizar meios de pagamento à vista, como dinheiro e Pix (47%) e cartão de crédito (14%). Quem opta por prazos de pagamentos mais folgados assinala que vai comprar o material escola do ano de forma parcelada (26%) ou à vista (10%) no cartão de crédito. Em torno de 3% ainda não haviam decidido o que fazer. Vale notar que os balanços mais recentes da CDL-Manaus e do Ifpeam para datas comemorativas variadas apontam que esta é uma previsão que nem sempre se confirma.

Tal como ocorrido no ano passado, e também nas principais datas comemorativas acompanhadas pelas entidades classistas do comércio local, o principal critério que influencia as decisões de compras é o do preço, sendo essa a escolha de 45% dos consumidores. Na sequência, e a uma boa distância, estão os fatores de “facilidade de pagamento” (15%) e “atendimento” (12%), superando o quesito “qualidade” (10%). Completam a lista os critérios de “local de venda” (7%), “marcas” (6%) e “outros” (5%). Em relação ao uniforme escolar, apenas 34% farão a compra, enquanto 29% dizem que “a escola não exige”, 30% optam pelo reaproveitamento, e 7% não souberam responder.

 

“Trabalho e oração”

O presidente da CDL-Manaus, Ralph Assayg, diz que a pesquisa visa situar melhor o setor e leva em conta que este tenha reservado parte do 13º para as compras. “A previsão é que, em 2026, o pagamento por pessoa vai ficar acima de R$ 550. Infelizmente, fica alto e não é fácil. As vendas não pararam no mês passado e, em fevereiro, teremos mais produtos saindo. Quase metade dizem que vão pagar no Pix, mas quando o cliente verifica que a vista fica caro, entra no parcelamento e talvez essa faixa até cresça um pouco mais. Vai ganhar o lojista com preço menor, mas o consumidor tem que fazer muita pesquisa para pagar menos”, sintetizou.

O diretor da CDL-Manaus e proprietário e diretor da Tropical Multilojas, Allan Bandeira de Melo, diz à reportagem que a temporada de volta às aulas traz oportunidades ao varejo, mas frisa que as lojas precisam dispor de mix completo e atualizado para capitalizar o momento, além aprimorar o atendimento e oferecer pagamento facilitado e preços justos. “Essa temporada é muito importante, mas demanda trabalho profissional, sortimento, pesquisa, mídia e oração. O maior desafio é a variação dos preços, que os salários não acompanham. Estamos estendendo mais os horários e dispondo de mais pessoal, para mostrar ao cliente que temos produtos mais em conta. Quando você oferece isso, ele retorna e até divulga”, ponderou. 

A economista, professora universitária e nova presidente do Corecon-AM, Michele Lins Aracaty e Silva, avalia que os dados da pesquisa mostram um consumidor que procura se organizar e planejar para não comprometer as contas, em cenário que apresenta desafios ao varejo. “Chamo a atenção para a perspectiva de crescimento abaixo do ano anterior, bem como o valor do ticket médio em relação a 2025. Tais números refletem um cenário pouco otimista em termos de crescimento, mas realista em relação à necessidade de ajustar o orçamento para aquisição dos itens que compõem a lista de material escolar, em uma conjuntura de pressão inflacionária”, finalizou.

 

Boxe ou coordenada: Saiba mais sobre a pesquisa

O levantamento foi realizado via Google Formulários, aplicado através de aplicativo de mensagens instantâneas e entrevistas pessoais, entre 29 de dezembro de 2025 e 9 de janeiro de 2026. No total, foram ouvidas 1.430 pessoas, entre mulheres (61%) e homens (39%), divididos entre as faixas etárias de 30 a 39 anos (34%), entre 25 e 29 anos (29%), de 40 a 49 anos (18%), entre 18 e 24 anos (10%) e 50 anos ou mais (9%). Prevalecem os entrevistados com nível médio (47%) e superior (42%), em detrimento dos que contam só com o fundamental (6%) ou estão em “outras” categorias (5%).

A maioria é de trabalhadores celetistas (49%), seguidos de longe pelos autônomos (25%), aposentados (13%) e empresários (5%), sendo que 8% dos consumidores estão classificados apenas como “desempregados”. Em termos de renda, 53% ganham de 2 a 3 salários mínimos, sendo seguidos pelos que recebem entre 4 e 5 mínimos (24%), até um mínimo (18%), e acima de 5 mínimos (5%). Predominam os pais com apenas 1 filho (57%), mas 33% têm 2 filhos, 7% já têm 3 filhos, 2% chegaram a 4 filhos, e apenas 1% contabilizam 5 filhos ou mais.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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