Vazante reduz fluxo de negócios do polo naval em mais de 20%

Em: 24 de setembro de 2010
Segundo o Sindnaval, choque da seca é sentido principalmente pelos estaleiros de menor porte e com menos área de trabalho disponível
Segundo o Sindnaval, choque da seca é sentido principalmente pelos estaleiros de menor porte e com menos área de trabalho disponível

Com o Rio Negro atingindo níveis cada vez mais baixos, a indústria naval tem sentido os maiores impactos devido à logística da cidade. Na capital amazonense, onde há pelo menos 65 estaleiros, o presidente do Sindnaval (Sindicato da Indústria de Construção Naval de Manaus), Matheus de Oliveira Araújo, afirma que o setor sentiu o choque da vazante logo que ela surgiu, já que grande parte dos lugares destinados à construção ou conserto de navios são pequenos.
“Como nosso trabalho é sazonal, dependemos da subida e descida do Rio. Os grandes estaleiros têm área para trabalhar o ano inteiro. Mas, a maioria não tem espaço expressivo para as atividades navais e é obrigada a parar o trabalho ou aprontar o serviço em terra e esperar o rio subir”, lamentou.
Araújo considera que ainda é muito cedo para contabilizar o impacto, mas prevê uma retração de mais de 20% nos negócios do segmento.
No estaleiro Ponta Branca, existente há 60 anos, a vazante preocupa. O proprietário Raimundo Salomão Elgaly, que já perdeu 90% do faturamento graças a estiagem, afirma não ter mais dinheiro no banco. “Paramos de trabalhar porque estamos sem encomenda”, desabafou.
Na empresa são realizados apenas reparos nas embarcações. Em épocas normais, com a ajuda de quatro carreiras (embarcações de reboque), são puxados entre 15 e 20 barcos mensalmente. “Quase todos os anos passamos por esse problema, em virtude da seca. Mas esperamos que isso se resolva com a criação do Polo Naval [ver boxe]”, ponderou.
O proprietário usa de todos os meios para reverter os prejuízos causados pela vazante. Hoje, por exemplo, o empreendimento mantém apenas oito funcionários. Segundo o prognóstico de Elgaly, a retomada dos negócios, que geralmente acontece entre 26 e 27 de dezembro, só deve ocorrer a partir de 10 de janeiro, por causa da vazante.

Expectativa do setor é grande em torno da construção do PIM-NAVAL

Em parceria com o governo do Estado, o sindicato elabora um projeto para a construção do Polo Naval em uma área no Puraquequara, às margens do Rio Amazonas, que visa uma infraestrutura para facilitar a logística e o comércio. “Lá não haverá problema para trabalhar, porque tem um terreno grande e disponível, extremamente confortável e de leito acessível”, enfatizou.
O presidente diz que o projeto será um novo PIM-NAVAL no Norte do Brasil, que atenderá desde a construção de navios até o setor de offshore (exploração de petróleo nos rios) para o pré-sal. Atualmente, a exploração é feita somente em terra (onshore).
De acordo com Araújo, por enquanto, o setor naval deu uma boa aquecida. Ele estima que o segmento esteja faturando R$ 83 milhões e, para 2011, a previsão é de R$ 120 milhões.
Apesar dos efeitos negativos da seca no setor naval, o diretor-executivo da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Flávio Dutra, salienta que os outros segmentos do PIM (Polo Industrial de Manaus) ainda não sentiram reflexos da vazante. “No nosso caso, via de regra utilizamos Belém. Por isso, não temos grandes problemas, já que no Rio Solimões a vazante nunca chegou a um nível absurdo”, analisou, acrescentando que o comércio é a atividade mais prejudicada, devido os abastecimentos no interior.
O diretor executivo do Cieam (Centro da Indústria no Estado do Amazonas), Ronaldo Mota, é da mesma opinião. O dirigente afirma que tanto o trajeto de escoamento como de abastecimento do polo se dá por vias onde os rios são perenes. “O Rio Madeira é quem está com problema. Então, os segmentos que trabalham com os municípios do interior, como o comércio, que sentem o impacto”, finalizou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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