Venda de veículos tem queda de dois dígitos no Amazonas

Em: 8 de fevereiro de 2023

As vendas de veículos novos no Amazonas desabaram na virada do ano. Apenas implementos rodoviários, tratores, máquinas agrícolas e carretas conseguiram avançar nos resultados. Os emplacamentos somaram 5.360 unidades em todas as categorias, sendo que 80,80% desse total veio de Manaus (4.331). O tombo em relação a dezembro de 2022 (8.072) foi de nada menos do que 33,60%. Ainda assim, o desempenho registrado no primeiro mês de 2023 conseguiu ser 46,01% melhor do que o atingido em janeiro de 2022 (3.671), sendo alavancado principalmente pelas motocicletas.

Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que se amparou nos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) e levou em conta todos os tipos de veículos –incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas. Vale notar que os dados locais devem ser levados também sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento, um hiato que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado entre as fábricas do Centro-Sul e as concessionárias no Estado.

Conforme o levantamento, o Amazonas acompanhou a média nacional em ambas as comparações. Janeiro de 2023 registrou o licenciamento de 268.380 unidades, de Norte a Sul do país, o que representou um retrocesso de 26,85% na comparação com dezembro de 2022 (366.881). O saldo veio 16,31% mais elevado do que o conseguido 12 meses atrás (230.745). A Fenabrave atribuiu o resultado à sazonalidade e ao enfraquecimento da base de comparação pela incidência da variante ômicron, no ano passado. E reforçou que a projeção para 2023 ainda é de estabilidade de vendas.

Automóveis x motocicletas

Cinco das sete categorias listadas pela Fenabrave registraram piora no Amazonas, na variação mensal de janeiro. O pior desempenho proporcional veio novamente dos ônibus, que sofreu retração de 70,31%, com somente 19 unidades comercializadas. Foram acompanhados de perto pelos caminhões (-65,44% e 47), e mais de longe por automóveis (-35,10% e 1.307), motocicletas (-33,47% e 3.493), comerciais leves (-24,50% e 419). Em contraste, implementos rodoviários (+75% e 28) e “outros veículos” (+27,03% e 47) – que inclui tratores, máquinas agrícolas e carretas –aumentaram vendas. 

O número de categorias com expansão de vendas aumentou no confronto com janeiro do ano passado. Mas, somente motocicletas (+104,03%), “outros veículos” (+46,88%), implementos rodoviários (+12%) e automóveis convencionais (+2,27%) aparecem no azul. Na outra ponta, caminhões (-38,16%), ônibus (-36,67%) e comerciais leves (-19,11%), apresentaram redução no volume comercializado no mês.  

Embora tenham diminuído o passo em janeiro, as motocicletas voltaram a suplantar os veículos de quatro rodas no ranking das categorias veiculares mais comercializadas no Amazonas. A participação das motos no bolo de vendas do Amazonas continuou predominante, avançando de 46,64% para 65,17%, na comparação com janeiro do ano passado. Em sentido contrário, a soma dos automóveis e comerciais leves voltou a reduzir sua fatia na mesma comparação, com 32,20% (2022) contra 48,92% (2022).

Estoques e financiamentos

O gerente geral da Cometa Motocenter, Agno da Silva Montalvão, lembrou que o mercado local de motocicletas vem atravessando um boom de vendas desde o segundo trimestre de 2022, a partir do arrefecimento da pandemia, e que o resultado só não foi melhor por falta de produtos, o que motivou a formação de filas de espera. De acordo com o executivo, os descontos no IPI e a relativa melhora na economia no terceiro trimestre ajudaram a alavancar as vendas, por isso a empresa projeta um crescimento de 10% neste ano.

Sem mencionar números, Montalvão confirma que as vendas de janeiro não foram tão bem. O gerente geral da Cometa Motocenter concorda que a sazonalidade não ajudou nos resultados, assim como o fato de que a montadora que abastece a concessionária só retornou das férias coletivas a partir da segunda quinzena. Mas, avalia que a tendência dos próximos meses será de mais aquecimento e melhor equilíbrio entre a demanda e a oferta, permitindo um estoque mais satisfatório.  

“A questão das filas melhorou bastante, principalmente no caso dos modelos de giro, a exemplo das motocicletas de 125 e 160 cilindradas. A procura, neste caso, é maior entre os profissionais que desejam trabalhar nos serviços de delivery e, principalmente, entre as empresas que trabalham com a locação de veículos destinados a essa função. Ainda temos filas para os modelos de maior cilindrada, mas esperamos que, com o retorno do trabalho na fábrica, essa situação seja normalizada a partir de março”, avaliou.  

Em entrevista anterior à reportagem do Jornal do Commercio, o sócio diretor da Kodó Veículos, Diogo Augusto Maia da Silva, apontou que as vendas entraram em ponto morto no último trimestre de 2022. O empresário acrescentou ainda que os bônus conferidos pelo desconto no IPI e pelas desonerações tributárias sobre a venda da gasolina já ficaram para trás, diante da pressão dos aumentos de preços e dos juros, assim como as restrições bancárias a novos financiamentos –principalmente no segmento dos “carros populares”.

“Pode se dizer que esse aumento ocorreu devido aos faturamentos de veículos que estavam na lista de pedidos. Como diminuíram as vendas nas lojas, as fábricas conseguiram soltar pedidos antigos, principalmente os de pessoas jurídicas. Consequentemente, os números de emplacamentos subiram. Mas, a dificuldade no acesso ao crédito e as taxas de juros muito altas ainda são problemas frequentes”, lamentou.

Sazonalidade e pandemia

Em comunicado à imprensa, o presidente da Fenabrave, José Maurício Andreta Júnior, considerou que o recuo da variação pode ser explicado pela sazonalidade do mercado. “Nesta época, despesas como pagamento de IPVA e de IPTU, assim como a aquisição de material escolar, pesam na decisão de compra das famílias. Tanto que o resultado de 2023 não fica muito distante da média dos meses de janeiro dos cinco anos anteriores”, explicou.

Já o crescimento expressivo da base anual, conforme o dirigente, se deve à “situação conjuntural” que o país viveu, no primeiro mês de 2022. “Temos que lembrar que, em janeiro de 2022, o setor registrou o pior resultado para o mês desde 2017. Naquela época, os estoques das concessionárias estavam baixos, por conta da crise de abastecimento global. Além disso, o período foi marcado pelo surgimento da variante ômicron e pelo aumento dos casos de covid-19, o que causava grande preocupação na população”, rememorou. 

O presidente da Fenabrave pontua que 2023 começou com reforço de quase 15 mil unidades nos estoques de automóveis e comerciais leves, e que a projeção ainda é de estabilidade de vendas para ambos. Andreta Jr observa, por outro lado, que o mercado de motocicletas segue promissor e com taxa de aprovação média de 30% nos financiamentos. “A expectativa é positiva, já que existe uma demanda consistente e é possível que os emplacamentos se aproximem de 1,5 milhão de unidades no ano”, concluiu. 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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