Há mais de sete décadas, os biólogos do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) transformam curiosidade em conhecimento, além de descobertas em caminhos para a conservação. Em 3 de setembro, Dia do Biólogo, o biólogo Leonardo Alho Gomes mostrou que, no coração da floresta, ainda existem histórias escondidas à espera de quem dedica a vida a desvendá-las ao descrever 33 espécies de vespas-achatadas, invisíveis aos olhos comuns, conforme revelou ao Jornal do Commercio, na entrevista a seguir.

Jornal do Commercio: Como conseguem identificar que um inseto, de uma determinada espécie, é diferente de outro?
Leonardo Gomes: Como trabalhamos com as características morfológicas dos espécimes, analisamos as variações em sua estrutura corporal para identificá-los. Essas variações são comparadas com as descrições de espécies já publicadas, com o material-tipo e com as chaves de identificação disponíveis na literatura. Caso apresentem diferenças consistentes, consideramos a possibilidade de se tratar de uma espécie nova.
JC: No caso das 33 vespas-achatadas descritas agora, o que tinham de diferente das demais espécies já conhecidas? Qual o tamanho desses insetos?
LG: Dentro do gênero Pseudisobrachium Kieffer, 1904, objeto do meu estudo, algumas estruturas são consideradas fundamentais para a identificação das espécies. Entre elas destaca-se o clípeo, localizado entre a base das antenas e as mandíbulas, que apresenta grande variação de forma nas espécies amazônicas. As estruturas genitais também revelam ampla diversidade, contribuindo significativamente para a diferenciação entre as espécies. Essas características, em conjunto com outras variações morfológicas do corpo, foram essenciais para a identificação dos táxons. As vespas desse gênero apresentam tamanho variando de menos de 2 mm até aproximadamente 7 mm.
JC: Por que descreveram especificamente essas 33 espécies?
LG: Ao ingressarmos na pós-graduação, é necessário escolher um grupo-alvo para o desenvolvimento da pesquisa. No meu caso, optei pelo gênero Pseudisobrachium Kieffer, 1904, por se tratar de um grupo de vespas que carecia de estudos na região amazônica. A partir do material disponível, foi possível identificar uma entomofauna ainda desconhecida, sobre a qual direcionamos nossos esforços. É importante destacar que muitos outros grupos na Amazônia também necessitam de investigação, mas trabalhos como este demandam tempo, dedicação e uma maior quantidade de pesquisadores envolvidos, para que possamos compreender de forma mais ampla a diversidade ainda negligenciada na região.

JC: Por que vespas-achatadas e qual a importância desses insetos para a natureza?
LG: Optei por estudar a família Bethylidae por se tratar de um grupo de vespas parasitoides sobre o qual ainda há muito a ser descoberto. Dentro dessa família, o gênero Pseudisobrachium destacava-se como um dos que necessitavam de maior atenção na região, motivo pelo qual decidi concentrar minha pesquisa nessas vespas. Os Bethylidae são parasitoides naturais que atuam no controle de populações de outros insetos, muitas vezes pragas agrícolas, desempenhando, assim, um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas.
JC: Onde são encontradas, em qualquer mata?
LG: A família Bethylidae, especificamente o gênero Pseudisobrachium, possui distribuição cosmopolita, ou seja, ocorre em praticamente todas as regiões do planeta, com maior diversidade nas áreas tropicais. Dessa forma, é possível encontrá-lo com frequência em toda a região amazônica.
JC: Existem 61 espécies de vespas descritas no Brasil. Com essa descoberta, agora serão 94?
LG: Com a inclusão das novas espécies descritas e dos novos registros que também serão apresentados para o Brasil, teremos aproximadamente esse número. No entanto, ainda são necessários estudos adicionais para compreendermos de forma mais precisa a real diversidade de Pseudisobrachium.
JC: Quantos biólogos existem no Inpa, e que outros insetos pesquisam?
LG: Não sei precisar quantos biólogos há no Inpa, considerando que a instituição possui diversos Programas de Pós-Graduação e recebe, anualmente, novas turmas de mestrado e doutorado. São, portanto, muitos biólogos atuando em diferentes áreas, como Entomologia, Ecologia e Botânica. No caso específico da Entomologia, há vários laboratórios especializados em diferentes grupos de insetos, incluindo vespas, formigas, abelhas, moscas e insetos aquáticos.
JC: Fale sobre o acervo do Inpa.
LG: A Coleção de Invertebrados do Inpa reúne um extenso acervo de insetos coletados ao longo de décadas, representando uma ampla diversidade utilizada em estudos sobre a entomofauna da região. O acervo conta com aproximadamente sete milhões de exemplares depositados em via seca e úmida, muitos dos quais ainda aguardam análise por pesquisadores. Nenhum espécime é descartado: todos são preservados com o intuito de permanecerem disponíveis para as futuras gerações, sem sofrer danos. Assim, tanto os exemplares mais recentes quanto os mais antigos são de grande importância, já que até mesmo um espécime histórico pode fornecer informações valiosas sobre a composição da entomofauna de locais onde determinadas espécies já não ocorrem mais.







