Não se faz mais boêmios como antigamente, da época da Manaus bucólica e tranquila, onde se podia virar a noite pelos bares da cidade e o único perigo era beber demais.
O Jornal do Commercio conseguiu localizar dois personagens das antigas, nascidos e criados em dois dos bairros mais boêmios de Manaus, a Cachoeirinha e o Educandos, nos quais os bares funcionavam 24 horas de portas abertas, reunindo seresteiros, intelectuais, cerveja e mulheres.
O livreiro Celestino Neto veio morar na Cachoeirinha ainda bebê. Por volta dos 14 anos começou a flertar com os bares. “Ia com os outros colegas, mais velhos, e fui tomando gosto pela coisa. Na minha adolescência dos anos de 1970, a Cachoeirinha era um bairro festeiro. Para onde nos virávamos tinha um bar”, lembrou.
“O primeiro bar que comecei a frequentar foi o Bolero Bar, na esquina da Parintins com a Carvalho Leal. Pelo nome já dá para imaginar o que tocava lá, e vinil, os famosos LP’s. Tinha também o Bar da Alzira, na J. Carlos Antony com Carvalho Leal. A característica do Alzira era a mesma de outros do bairro: de dia funcionava a mercearia e, à noite, o bar com músicas e bebida”, recordou.
Para quem queria dançar, Tóia Bar, Bar da Cida e Solarium. “O Tóia ficava na Castelo Branco com a Tefé; o Bar da Cida, na Carvalho Leal com Humaitá; e o Solarium, na Itacoatiara. Esses três bares tinham em comum tocarem brega e terem espaço para os clientes dançarem, e assim iam até amanhecer”, listou.
“Estes são apenas alguns, já fechados, que lembrei, mas tinham outros, todos com um ciclo de vida. Geralmente quando o dono morre, depois de anos aberto, o bar tende a fechar”, falou.
Mas existe um bar, na Cachoeirinha, que resiste às décadas. O Bar do Carvalho, na Ajuricaba com Castelo Branco. Carvalho morreu ano passado, aos 96 anos, sempre à frente do bar. Um dos seus onze filhos, Ordep, mantém o negócio da mesma forma que o pai.
O LP ficou para trás e hoje a moda é ter música ao vivo. “O Carvalho já tem música ao vivo, assim como o Farmácia, na Ajuricaba, porém, no Os Brandões, na Tefé, às quintas-feiras o cliente pode levar seu vinil e colocar para tocar. Tem ainda o Bar da Dona Júlia, na Parintins, onde acontece a concentração da Banda da Caxuxa, no Carnaval. O Carvalho tem a Banda do Carvalho, e Os Brandões organiza a Banda Concentra, Mas Não Sai”, lembrou.
“Muitos bares fecharam, mas tantos outros abrem. Circulo em todos, da Cachoeirinha, às vezes na Praça 14, hoje o grande point dos bares em Manaus. Enquanto existir amantes da boemia, os bares existirão”, previu.
Waldick Soriano aprontou no Educandos

O jornalista Cláudio Amazonas começou a frequentar bares no Educandos, na década de 1960, ainda adolescente. “A Leopoldo Peres era a rua dos inferninhos. Era praticamente um ao lado do outro. Com a chegada da Zona Franca eles foram fechando, um a um”, recordou.
“Era uma época em que ‘mulher direita’ não freqüentava bar, de maneira alguma”, recordou.
Os bares, e os inferninhos, do Educandos eram tão famosos que muitos clientes da cidade (o Educandos era considerado periferia) não se importavam em atravessar de catraia para conhecê-los, ou como clientes.
“O primeiro, que eu comecei a frequentar, foi o Bar Santa Rita, no Boulevard Sá Peixoto com Manoel Urbano. Funcionou até pouco tempo, mas já fechou. Um dos mais famosos era o Bar Sibéria, porque ficava bem de frente pro bonito igarapé do Educandos, no alto da encosta. Um dia, em 1971, eu estava chegando a esse bar junto com uns amigos, pela manhã, e notamos a rua rachada, em frente a ele. Em minutos o bar desabou lá para baixo”, contou. “Ficava ali no começo do Amarelinho”, completou.
Artistas e intelectuais marcavam ponto nos bares do Educandos. “Waldick Soriano, toda vez que vinha fazer show em Manaus, chegava até o Educandos, por causa dos bares e das mulheres. Numa das vezes ‘mexeu’ com uma mulher casada e teve que fugir do marido furioso e se esconder, mas quando tempos depois, voltou, foi pego pelo marido”, riu. “Um dos bares que ele gostava de ir era o São Francisco, no Boulevard Rio Negro com Amâncio de Miranda, que não existe mais, como o Bar do Bieca, na Delcídio do Amaral esquina com Amâncio de Miranda, e o Bar do Espanhol, na Leopoldo Peres”, disse.
O tempo consumiu os bares tradicionais do Educandos, mas existem os novos, como o Bar do Sirineu, na rua Macurany, o mais frequentado por Cláudio, atualmente.
“Sabia que o escritor Guimarães Rosa bebeu no Bar Sibéria? Ele foi trazido pelo pessoal do Clube da Madrugada, e eu estava lá, aliás, o que sinto falta nos bares de hoje é dessa intelectualidade. Quantas vezes bebi com os escritores Jorge Tufic, Aluízio Sampaio, Arthur Engrácio, Luiz Ruas. O pessoal de agora só quer saber de falar de futebol”, lamentou.







