Wald Caldas e as artes que ‘dançam’

Em: 26 de janeiro de 2026
Há apenas seis anos atuando profissionalmente, o artista plástico já percorre uma trajetória de sucesso.

O Amazonas não para de produzir artistas plásticos seguindo os mais variados estilos e, detalhe, boa parte deles consegue fazer fama e viver de sua arte. É o caso de Wald Caldas com suas pinturas surrealistas e modernistas. Wald não pinta imagens que parecem se derreter, como ‘A persistência da memória’, de Salvador Dali, mas retrata prédios históricos que ‘dançam’, num vai e vem impressionante; também não repete personagens disformes, como ‘Abaporu’, de Tarsila do Amaral, mas apresenta manauaras circulando pela cidade com máscaras de animais amazônicos.

“Sou manauara, nascido no Centro de Manaus. Desde pequeno, sempre gostei de pintar e modelar. Lembro-me de que pintava meus próprios bonecos e, mais velho, na sala de aula, preenchia cadernos inteiros com desenhos, o que costumava irritar meus professores”, riu.

“Depois passei a rir dos professores quando comecei a conquistar prêmios como o de melhor desenho da escola, o que é fantástico para quem acompanhou o meu desenvolvimento. Meus desenhos já transitaram por diversas áreas: comecei com paisagens na infância, passei pela moda e, hoje, sou reconhecido pelo meu surrealismo amazônico”, completou.

Wald é um artista autodidata, mas assim como a maioria dos grandes mestres da pintura começaram como aprendizes em ateliês de mestres já estabelecidos, ele também teve mestras que o ensinaram: a avó, que sempre trabalhou com artesanato, e as tias, que pintavam em guardanapos.  

“Para me aprimorar, muito embora não tenha concluído, cursei faculdades de Design Gráfico e de Interiores, experiências que me ajudaram a moldar a forma como vejo e comercializo a minha arte”, disse.

Wald, desde pequeno, sempre gostei de pintar e modelar.
Wald, desde pequeno, sempre gostei de pintar e modelar.

Um movimento antropofágico

O estilo das pinturas de Wald é bem peculiar, com figuras que ‘dançam’, num vai e vem, com riqueza de cores e detalhes.

“Meu estilo foge das normas acadêmicas. Longe do realismo, busco me conectar por meio de uma identidade autoral. A cada coleção, estudo fórmulas de artistas de outras eras, adaptando meus traços e aprendendo com eles. Afinal, a pintura é uma forma de comunicação, e criar releituras de obras historicamente reconhecidas é uma maneira de aprender com os mestres”, ensinou.

De acordo com o artista, ele se inspira muito em nomes como Portinari, Tarsila do Amaral e Salvador Dalí, além de artistas locais como Moacir Andrade.

“Vejo meu trabalho como um movimento antropofágico, que ‘devora’ outras culturas e obras de arte para transformar o desconhecido em formas do cotidiano manauara, estabelecendo um diálogo direto com quem vive na cidade. É uma forma de conectar as pessoas e até de apresentar a arte para quem ainda não tem proximidade com ela”, explicou.

Wald trabalha com diversas técnicas, como óleo, acrílica e aquarela, utilizando pincéis em superfícies variadas: telas, esculturas e roupas. Recentemente realizou uma colaboração com o Estúdio Moi, onde customizou almofadas ao vivo.

“No início, eu pintava em suportes como papelão e portas de armário. Era a minha forma de praticar antes de me arriscar, de fato, em uma tela”, contou.

E cedo aprendeu que arte sem comércio, não se sustenta.

“Comecei a vender minhas obras aos 22 anos, em 2018, quando realizei minha primeira exposição. Desde então, não parei mais. Hoje vivo da minha arte, algo que antes parecia impossível, principalmente devido ao pensamento coletivo de que, para ser artista, é preciso sair de Manaus. Hoje, provei para mim mesmo que é perfeitamente possível prosperar aqui”, comemorou.

Hoje vivo da minha arte, algo que antes parecia impossível
Hoje vivo da minha arte, algo que antes parecia impossível

Obras por toda a cidade

Mesmo com poucos anos de atuação, Wald já tem obras espalhadas por toda Manaus. Sua última exposição aconteceu na Feira D, em dezembro passado, no Palacete Provincial. Organizada por André Porto, a Feira D ocorre a cada três meses e é o espaço onde o artista apresenta novas coleções e prints (obras mais acessíveis), conectando-se com clientes e outros criativos de todo o Brasil. Ele também conta com inúmeras parcerias, como a que mantém com a Granular Ateliê onde pinta motivos amazônicos nas peças de concreto produzidas pela empresa de artesanatos, além de realizar obras que alcançam diversos segmentos. Desenvolve projetos de interiores, cria estampas para a marca de roupas Ga.Ha, e assina embalagens para empresas de Manaus, como Tambagrill, Le Bar e Amazonas Shopping.

“Minha inspiração é algo difícil de descrever: pode surgir de um pôr do Sol, ou de uma simples ida ao mercado. Trabalhar com o cotidiano manauara é, sem dúvida, uma satisfação enorme, pois envolve a memória, a minha história e a da minha família. Acredito que essa autenticidade tem sido a chave do meu trabalho. Atualmente, trabalho em casa, pois preciso de um espaço onde possa ‘sujar’ à vontade”, finalizou.

Informações: Instagram, Wald Caldas; e-mail: [email protected]

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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