Entre o final das décadas de 1960 e 1980, ruas como Guilherme Moureira, Marcílio Dias, Quintino Bocaiúva e Marechal Deodoro, no Centro, eram conhecidas nacionalmente como os únicos lugares do país onde se podia comprar produtos importados. Retrato de uma fase econômica importante na história de Manaus, o conjunto de ruas, conhecido popularmente como Zona Franca Comercial, hoje sobrevive a base de um comércio bem menos atrativo. Com a mudança no foco, a partir da abertura do Governo Collor, em 1990, poucos foram os comerciantes que continuaram na ativa.
O paulistano e descendente de israelenses, Aron Hakimi, observa o movimento da rua Quintino Bocaiúva há 42 anos. Ele é comerciante e proprietário de uma loja no endereço, a Aron Tex Importações. Hakimi afirma que a área está cada vez mais abandonada e sem clientes. Por isso, planeja fechar as portas de sua loja em dezembro. “Tudo o que se fizer aqui [nas ruas da Zona Franca Comercial] vai perder dinheiro. Há muito contrabando e não posso concorrer com quem adota esse tipo de comércio. Trago e pago tudo legalmente”, lamentou.
Hakimi faz parte da leva de pessoas que vieram seduzidas pela explosão econômica provocada no início da ZFM (Zona Franca de Manaus), em 1967.Na época, o Brasil havia adotado uma barreira comercial contra produtos importados, favorecendo as indústrias locais instaladas. Os Estados não favoreciam o tráfego de mercadorias que não fossem de origem nacional. Com o surgimento do modelo, a única cidade que concedeu benefícios para os produtos estrangeiros foi Manaus.
Segundo o presidente da ACA (Associação Comercial do Amazonas), Gaitano Antonaccio, a ideia era que as zonas francas comercial e industrial se desenvolvessem ao mesmo tempo. “Aquelas ruas lá do Centro deveriam ser um ciclo comercial de importação e exportação, mas a Zona Franca Comercial acabou e a Industrial continua até hoje”, comentou.
Antonaccio já escreveu 104 livros, em dois deles –“Zona Franca: um romance polêmico entre Amazonas e São Paulo”, publicado em 1995, e “Amazonas: a outra parte da história”, de 2003– analisa o período de auge e declínio da época de livre comércio em Manaus. Segundo os registros dos livros, a economia das ruas do Centro eram tão dinâmicas que uma mesma casa poderia mudar de dono até três vezes, para abrigar uma nova importadora.
“Nunca se viu tanta reforma em faixada e no interior dos prédios. Num exagero folclórico, podemos assegurar que faltaria areia, cal, tinta e operário. Algumas ruas foram transformadas do primeiro ao último endereço. Qualquer lar do Centro se convertia em luxuosa loja no dia seguinte. Havia pressa em tudo”, cita Antonaccio usando trecho da obra “Zona Franca: um romance polêmico entre Amazonas e São Paulo”.
Nos bons tempos, área funcionava como ‘shopping do país’
Em seus primeiros anos, a ZFM funcionou como um grande shopping center para o país. Por conta da corrida às compras, a cidade ampliou serviços e a população logo teve seus costumes transformados nos de uma grande metrópole. Segundo a Jucea (Junta Comercial do Amazonas), só em 1967 foram registradas 1.339 novas empresas.
Como os importados vendidos em Manaus viajavam por todo o território nacional, isto fez com que o parque fabril brasileiro tivesse sua produção revista frente à concorrência dos mesmos produtos do exterior. Para o historiador Antonio Loureiro, a Zona Franca Comercial obrigou as indústrias do Brasil a se renovarem. “Este foi o maior impacto: a modernização da indústria brasileira. O maior exemplo disso eram os ventiladores. Antes da ZFM eram feios, perigosos e sem modelo. Com a concorrência, o Brasil copiou os fabricados pelos japoneses e outros países do oriente”, explicou.
Segundo o historiador, as importadoras do Centro movimentavam cerca de US$ 300 milhões ao ano. “Porém, no início de 1980, as forças políticas do Sul do Brasil se uniram e apoiaram a criação de uma outra Zona Franca, a do Paraguai. As importações naquele país alcançam uma média de US$ 10 bilhões ao ano”, informou.
São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, dentre outros, começaram a se deslocar para a Foz do Iguaçu, no Paraná, onde podiam entrar na fronteira com o Paraguai e adquirir produtos importados de lá. O reflexo em Manaus foi sentido pelos comerciantes entre o fim da década de 1980 e o início de 1990, com a perda de parte desta cartela de clientes turistas.
Aron Hakimi, que entre os anos 1960 e 1970 vendia eletroeletrônicos, foi obrigado a mudar de produto para tentar sobreviver. “Começou a vir muito contrabando de eletrônicos vindos do Paraguai. Parti para um outro tipo de artigo no qual eles [os paraguaios] não podiam concorrer: as bebidas”, revelou. Faz 20 anos que Hakimi vive das importações de bebidas e diz que o comércio das ruas da Zona Franca já não sobrevive mais do desembolso de turistas, mas dos moradores da cidade.
A inauguração dos centros de compras de Manaus, como o Amazonas Shopping, também ajudaram a solapar as vendas do Centro. Há ainda o problema dos flanelinhas. Hakimi alega que os guardadores de carro foram os responsáveis por retirar a outra parte de clientes que sobrou com o fim da Zona Franca Comercial.
“Tem cliente que vem comprar, mas não tem vaga para estacionar porque os flanelinhas deixam o mesmo carro ficar encostado de 7h da manhã até 19h todos os dias. Por isso muitos clientes vão para o shopping”, finalizou.






