As negociações das convenções dos trabalhadores do varejo do Amazonas avançaram nesta semana, com o fechamento do acordo dos comerciários de Manaus. Os do interior, assim como os motoristas de cargas, já receberam a contraproposta do sindicato patronal e articulam suas respostas. Nesta quarta (9), patrões e empregados do segmento comercial de gêneros alimentícios sentam-se à mesa pela primeira vez neste ano para negociar cláusulas econômicas e planos de saúde/odontológicos.
Assinada nesta terça (2), a convenção dos comerciários de Manaus para 2020/2021 estabeleceu piso de R$ 1.155 para a categoria, o que equivale a um aumento de 2,66% em relação ao patamar anterior (R$ 1.125). Foi concedido reajuste de 2,5% aos trabalhadores que recebem acima do valor mínimo da profissão, ao passo que o vale alimentação foi fixado em R$ 12,30. Os valores são retroativos a 1º de setembro 2020 – data base das categorias – e são validos até 31 agosto de 2021, quando uma nova convenção deve atualizar os números.
Em sua proposta de aditivo, o Sindicato dos Empregados no Comércio de Manaus havia pedido correção de 4,89% para o piso salarial, para R$ 1.180, além de reajuste de 5% para os que ganham acima disso e uma correção equivalente no vale refeição (até então, em R$ 12). A contraproposta do Sindivarejista (Sindicato do Comércio Varejista no Estado do Amazonas) era de R$ 1.147,50 para o piso, reajuste de 2% para a categoria com vencimentos maiores e congelamento por 12 meses no auxílio refeição.
Já o SINDECVARGAM (Sindicato dos Empregados no Comércio Varejista, Atacadista e Representantes de Gêneros Alimentícios de Manaus) quer elevar o piso dos atuais R$ 1.133 para R$ 1.178,30, além de reajuste de 3,30% para os demais trabalhadores. Assim como os comerciários de Manaus, a entidade reivindica aumento para o auxílio refeição – dos atuais R$ 11,50 para R$ 14 – e mudanças na cláusula do plano de saúde/odontológico.
A contraproposta encaminhada pelo Sindivarejista ao SINDECVARGAM veio em teor semelhante à remetida aos comerciários: piso e reajuste de 2%, além da manutenção do valor vigente do vale alimentação. O mesmo pode ser dito em relação ao Sindicargas-AM (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes de Cargas, Distribuidoras e Veículos Automotores do Amazonas) e ao Sindcomam (Sindicato dos Empregados no Comércio de Manacapuru e Região), que ainda não formalizaram resposta ao sindicato patronal.
“Considerando os graves efeitos negativos (crise mundial da economia) que a pandemia do novo coronavírus impôs, principalmente, ao comércio varejista, julgávamos até pleitear desse [sindicato] laboral a compreensão para mantermos os mesmos salários vigentes atualmente objetivando, sobretudo, a sobrevivência da maioria das pequenas empresas com a consequente preservação do emprego”, expos o Sindivarejista, no texto endereçado aos sindicatos laborais.
“Margem de contribuição”
Embora comemore o desenlace relativamente rápido na convenção dos comerciários de Manaus e se diga otimista em relação ao andamento das negociações com os trabalhadores do segmento comercial de gêneros alimentícios, o presidente do Sindivarejista, Teófilo Gomes da Silva Neto, observa que o desempenho das vendas do setor costuma ser utilizado pelos sindicatos laborais como argumento e fator de pressão sobre as empresas, sem que as diferenças entre resultados brutos e líquidos sejam observadas.
“O segmento atacadista e de supermercados teve um faturamento bem razoável, mesmo durante a pandemia. Mas, a reposição de mercadorias ficou mais cara, em decorrência da desarticulação logística e da paralisação de várias fábricas, sendo que alguns itens já estão faltando nas prateleiras. As empresas também tiveram aumento de custos para garantir o isolamento social dos colaboradores com mais de 60 anos. Então, a margem de contribuição pode ter sido menor do que se espera”, ponderou.
Sobre a promessa dos trabalhadores de supermercados e atacadistas de “ir até o fim” em nome de suas reivindicações, incluindo a possibilidade de greve, Teófilo Gomes da Silva Neto diz que o sindicato laboral chegou perto disso na convenção do ano passado, mas acabou fechando o acordo perto da reta final. O dirigente diz que não é tradição, mas as empresas já foram um pouco além do INPC em correções salariais anteriores. Mas, garante que “a situação atual torna isso impossível” neste ano e que se limitará ao acordado em assembleia.
“Mobilização e luta”
Secretário nacional de Organização Sindical da CUT-AM e do SINDECVARGAM, além de presidente da Comissão de Negociação para os comerciários, Carlos Fernandes aponta que a proposta de reivindicações dos trabalhadores do segmento comercial de gêneros alimentícios na convenção coletiva 2019/2021 priorizam a implementação do plano saúde e odontológico, além do ticket refeição da categoria.
“As empresas vêm emperrando a contratação dos benefícios com várias desculpas, sem nenhuma justificativa. A comissão de negociação deste ano irá priorizar essas cláusulas, não para que aceitem, mas para que se cumpra a convenção coletiva. Com a reforma trabalhista, o acordado sobrepõe ao legislado. Portanto, o que foi assinado tem força de lei, basta cumprir”, argumentou.
Carlos Fernandes diz que a entidade terá de construir uma mobilização, pois os trabalhadores do segmento “nunca tiveram um sindicato que realmente lutasse por seus direitos”. A avaliação do presidente da Comissão de Negociação para os comerciários é que não será possível avançar nas reivindicações sem luta. Mas, garante que o enfrentamento se dará, caso necessário, nos campos jurídico e político-sindical.
“Estamos organizados como eles nunca viram aqui, no Estado. Não abriremos mão das conquistas que eles mesmo assinaram. Qual é o motivo para que alguns supermercados concedam esses benefícios para seus trabalhadores e outros não queiram conceder nada? A margem de lucros de redes supermercadistas e atacadistas que concedem os benefícios que citei não é maior que outras que são até maiores em Manaus. É inadmissível um segmento que é considerado essencial não ter a preocupação com a saúde de seus trabalhadores”, encerrou.







