As informações divulgadas pelo BCB (Banco Central do Brasil) possibilitam a avaliação dos efeitos da crise financeira internacional sobre o mercado de crédito doméstico em outubro. Todavia, esses efeitos transparecem na evolução da média diária das concessões e não nos dados de estoque (em geral utilizados na análise desse mercado), que apresentam uma maior inércia.
Se considerarmos a média diária do total das concessões (para pessoas físicas e jurídicas), o recuo foi de 7,3% em relação a setembro.
No segmento de pessoas físicas, a contração do crédito foi um pouco mais expressiva (-7,7%) do que no de pessoas jurídicas (-7,1%) e abrangeu todas as modalidades, com exceção do cheque especial – que desponta como a única opção nesses momentos de elevada preferência pela liquidez dos bancos, por ser uma modalidade de crédito rotativo e altamente rentável.
Dentre as demais modalidades, a maior retração foi registrada em “aquisições de veículos” (-39,9%), seguida de “crédito pessoal” (-13,7%), “aquisição de bens – outros” (-7,9%) e “cartão de crédito” (-4,8%).
No segmento de pessoa jurídica, a retração do crédito também foi generalizada, abrangendo as modalidades com base em funding interno e externo. A menor queda (-2,8%) ocorreu na média diária das concessões na “conta garantida” – uma espécie de cheque especial para as empresas.
Dentre as demais modalidades, vale mencionar o forte recuo das concessões de repasses externos (-38,7%) e de ACCs (-23,7%), percentuais que seriam ainda maiores se descontássemos o efeito da depreciação cambial sobre os valores em reais. Já as operações de “capital de giro” recuaram 13,1%, percentual expressivo dada a sua importância no total do estoque do crédito nesse segmento (o estoque dessas operações representa mais da metade do saldo das operações de crédito com recursos internos).
Além da contração da oferta de crédito, as condições de custo sofreram uma deterioração significativa, em função, principalmente, da alta do spread. Na média, a elevação foi de 2,5%, mas se observa uma assimetria nos dois segmentos. Enquanto a taxa de juros para pessoas físicas subiu 1,7 p.p. no segmento de pessoa jurídica o aumento foi de 3,3 p.p., reflexo da maior incerteza em relação à situação de liquidez e solvência das empresas em função das operações com derivativos cambiais.
Finalmente, as condições de prazo também pioraram (o prazo médio se estancou ou diminuiu) e já aparecem sinais de aumento da inadimplência nos não-pagamentos entre 15 e 90 dias.
Estoque de crédito
O crescimento de 2,9% no estoque total de crédito em outubro surpreendeu o economista Bruno Rocha, da Tendências Consultoria Integrada.
“Os números são bem melhores do que eu esperava”, disse.
O Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), afirmou, porém, que os efeitos da crise financeira ainda não transparecem nos dados de estoques, mas já podem ser sentidos na média diária de concessões.
“Se considerarmos a média diária do total das concessões (para pessoas físicas e jurídicas), o recuo foi de 7,3% em relação a setembro, uma queda que pode ser considerada significativa”, afirmou a nota.
O Iedi apontou a contração de 7,7% nos empréstimos às pessoas físicas, um pouco maior do que no de pessoas jurídicas, de 7,1%.
O economista da Tendências concorda, porém, que alguns segmentos já sentem os efeitos da crise. Estão nesse grupo o financiamento de veículos e o crédito pessoal.
Nas contas dele, os empréstimos para a compra de automóveis despencaram 59% em relação a outubro do ano passado e 37% na comparação com setembro deste ano. No crédito pessoal, as quedas foram de 19% e 10%, respectivamente.
Os dados, ressaltou Rocha, já descontam a inflação do período, ou seja, foram calculados em termos reais.
Outra tendência que, segundo o economista, já aparece no relatório do Banco Central, é a busca por modalidades de crédito pré-aprovadas, como o cheque especial e o cartão de crédito. No primeiro caso, o crescimento foi de 4,5% em relação a outubro de 2007. No cartão de crédito, a alta foi de 22%. Isso indica, segundo Rocha, que os brasileiros que tiveram dificuldades para obter empréstimos em modalidades mais baratas migraram para outras mais caras – cuja vantagem é o fato de serem pré-aprovadas. O Iedi chama atenção também para a deterioração das condições de custo, em função, principalmente, da alta do spread, que é a diferença entre o custo de captação dos bancos e o valor do repasse para o cliente. Na média, a elevação foi de 2,5%.







