O reajuste vitaminado na Selic e as incertezas gerais na economia impulsionaram uma 11ª escalada sucessiva nos juros dos financiamentos bancários, em outubro. A alta foi puxada pelas pessoas jurídicas, especialmente no crédito para capital de giro. O custo do dinheiro, contudo, ainda é bem maior para as pessoas físicas, onde as maiores altas se deram em operações para financiamento de compra de veículos e empréstimo pessoal. É o que revela a mais recente pesquisa da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).
De acordo com a Anefac, o acréscimo no custo de dinheiro para as pessoas físicas foi de 1,96% – ou 0,12 ponto percentual –, reposicionando a taxa do empréstimo de 6,13% para 6,25% mensais – o patamar mais elevado desde dezembro de 2019. Para efeito de comparação, a elevação registrada pela média das taxas, no levantamento anterior, havia sido de significativamente menos forte (+1,16% ou +0,07 p.p.). Os juros anuais seguiram na casa dos três dígitos, saltando de 104,20% para 106,99%, de um mês para o outro.
O incremento registrado nas linhas de financiamento para pessoas jurídicas, no entanto, foi ainda mais forte, chegando a 2,13% mensais (+0,07 p.p.). Um mês antes, o reforço na média das taxas bancárias para as empresas não passou de 1,23% (+0,04 p.p.). Com isso, o custo do dinheiro para esse público passou de 3,29% (setembro) para 3,36% (outubro) ao mês, sendo este o maior valor desde junho de 2019. Com a nova correção, a taxa anual passou de 44,47% para 48,67%, na mesma comparação, de acordo com a Anefac.
A linha de crédito com maior alta mensal para as pessoas físicas foi o CDC (crédito direto ao consumidor) nos bancos para financiamento de automóveis
(+3,70%), que passou de 1,62% para 1,68% ao mês – o equivalente a % e % ao ano, respectivamente. O reajuste correspondeu a mais da metade do aumento registrado no levantamento anterior da Anefac (+1,63%). Vale notar que a disparada nessa modalidade ocorre em paralelo com a crise de oferta nas concessionárias brasileiras e o consequente aumento de preços dos veículos.
Na segunda posição está o empréstimo pessoal em bancos (+2,87%), que passou a onerar as operações em 3,59% mensais (52,69% ao ano) e na terceira, o cartão de crédito (+2,35%), que chegou a 13,06% mensais (336,22% anuais) – sendo ainda a modalidade de crédito com a maior taxa oferecida pelos bancos. Completam a lista os juros do comércio (+1,64%), o empréstimo pessoal em financeiras (+1,22%) e o cheque especial (+0,88%) – a menor alta de todos. As respectivas taxas mensais se situaram em 4,96%, 6,64% e 0,80%.
Do lado das pessoas jurídicas, o maior reajuste ocorrido entre setembro (+1,33%) e outubro (+1,38%) se deu no crédito para capital de giro, que ficou 3,76% mais caro – contra os 2,31% anteriores. O financiamento para desconto de duplicatas veio em segundo lugar, com a taxa mensal saindo de 1,49% para 1,54%, o que correspondeu a um incremento de 3,36%. Embora tenha registrado o menor acréscimo (+1,42%), a conta garantida segue como a modalidade mais onerosa ao mês (7,15%), para esse tipo de público.
Tendência de alta
Vale notar que o aumento segue em ritmo mais acelerado do que o dos juros básicos da economia. A Anefac informa que, considerando todas as elevações da taxa Selic promovidas pelo Banco Central, entre janeiro (2% ao ano) e setembro de 2021 (7,75% ao ano), a taxa básica de juros avançou 287,50% (+5,75 pontos percentuais). No mesmo período, o custo médio do dinheiro para pessoas jurídicas ficou 18,13% (+7,47 p.p.) mais caro. Para as pessoas físicas, a elevação foi de 15,55% (+14,40 p.p.).
Em material divulgado pela assessoria de imprensa da Anefac, o vice-presidente de estudos e pesquisas da entidade, Miguel José Ribeiro de Oliveira, reforçou que as novas elevações das taxas no crédito bancário podem ser atribuída, em grande parte, ao aumento dos juros futuros no mercado financeiro e às expectativas de mais aumentos da Selic frente ao comportamento da inflação. Pressionado novamente pelo aumento de preços dos combustíveis e da energia elétrica, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) acelerou para 1,25% em outubro, no maior percentual para o indicador no mês, desde 2002 (+1,31%).
Outros fatores citados pelo dirigente são o anúncio da elevação da alíquota de CSLL (Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido) para instituições financeiras e uma “provável” nova elevação nos índices de inadimplência – favorecida pelo fim das carências nos empréstimos, “desemprego elevado”, fim dos benefícios do auxílio emergencial, aumento da inflação e maior seletividade dos bancos para emprestar. “Tendo em vista a piora do cenário econômico, (…) a tendência é de que as taxas de juros das operações de crédito continuem sendo elevadas nos próximos meses”, frisou.
“Risco de default”
O presidente do Sindecon-AM (Sindicato dos Economistas do Estado do Amazonas) e consultor empresarial, Marcus Evangelista, concorda que o país está convivendo com juros mais altos e registrando aumento nas taxas de inadimplência. O economista reforça que, no momento em que o risco aumenta, os bancos tentam minimizar a possibilidade de ‘calote’, carregando nas taxas. “Caso ocorra algum default, a instituição já terá recebido boa parte do montante”, completou.
Indagado sobre o aumento maior para os financiamentos para capital de giro, Marcus Evangelista lembrou que isso se deve ao fato de as operações são de curto prazo e que o crédito é em dinheiro em conta. “Geralmente, a taxa é maior. O risco de inadimplência ocorrido pela eventualidade do tomador pegar o capital para desviar para uma outra compra ou investimento é muito grande. Por ser uma modalidade de maior risco do que a de investimento, há uma majoração maior”, explicou.
O presidente do Sindecon-AM lembra ainda que o país vive uma escalada na taxa Selic, e que esta gera reflexos para pessoas jurídicas e físicas, principalmente nos empréstimos com recursos livres – que são balizados pela taxa básica de juros. O economista ressalva, entretanto, que as linhas de financiamento com recursos direcionados não estão inteiramente livres da tendência de encarecimento do custo do dinheiro.
“Os fundos constitucionais seguem com IPCA como indexador. Como a inflação também está subindo, isso também acaba ocasionando taxas de juros mais caras para o FNO [Fundo Constitucional do Norte], que é a linha mais utilizada para o fomento de empresas. Basta pontuar que, de janeiro a novembro, tivemos 168% de elevação na taxa. Para complicar, o horizonte ainda é de alta. Na próxima reunião do Copom, temos expectativa de reajuste de até 2 p.p. na Selic, que a estratégia escolhida para conter a inflação. Enquanto for assim, vamos ter aumentos de juros”, arrematou.







