Apesar das festas de fim de ano, crescimento esperado não veio para o varejo

Em: 15 de fevereiro de 2022

O Natal e o Réveillon não foram suficientes para evitar que o varejo do Amazonas  encerrasse 2021 no vermelho. Apesar do apelo das festas de fim de ano, a aceleração de vendas percebida entre novembro e dezembro ficou aquém do registro anterior. Em paralelo, o desempenho ficou aquém do apresentado 12 meses antes –período marcado por restrições a promoções e às vésperas da segunda onda da pandemia. Com isso, o setor amargou o primeiro desempenho negativo desde 2016. Pesou nesse resultado a piora nos indicadores econômicos e a chegada da variante ômicron. 

O comércio amazonense subiu 0,5%, na variação mensal, em medida mais fraca do que a de novembro (+2%) e outubro (+0,9%), e insuficiente para repor as perdas de junho (-3,7%), julho (-2,8%), agosto (-1,6%) e setembro (-0,6%). Em relação a novembro de 2020, o decréscimo se manteve em 1,5%. O acumulado do ano ainda encolheu 1,3%, no terceiro pior número desde 2010. Ainda assim, o Estado só ficou atrás da média nacional (-0,1%, -2,9% e +1,4%) na variação aglutinada dos 12 meses do ano. É o que revela a PMC (Pesquisa Mensal do Comércio) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O Natal não foi suficiente para impedir o recuo de 19 das 27 unidades federativas brasileiras na variação mensal. Com o acréscimo de 0,5%, o Estado conseguiu avançar do sétimo para quarto lugar do ranking, empatando com o Rio Grande do Norte. Foi precedido por Tocantins (+1,3%), Santa Catarina (+0,8%) e Espírito Santo (+0,6%), enquanto Mato Grosso (-4,7%) e Acre (-4,5%) ficaram no rodapé. Em 12 meses, o Estado (-1,3%) permaneceu na 21ª posição, em uma lista liderada pelo Piauí (+9,8%) e encerrada por Tocantins (-7,4%). 

Vitaminada pela inflação, a receita nominal do setor foi novamente melhor em todas as comparações com 2020. Em relação a novembro de 2021, a alta também foi de 5,5%, em resultado pior do que o da sondagem anterior (+1,7%). No confronto com dezembro de 2020, o varejo do Amazonas conseguiu crescer 6,3%. O saldo dos 12 meses do ano (+10,9%) também ficou no azul. As respectivas médias nacionais também foram todas positivas: +0,3%, +8,9% e +13,9%.

O Amazonas escalou da sexta para a quarta posição do ranking da receita nominal. Só perdeu para Tocantins (+3%), Goiás e Piauí (+ambos empatados com 0,7%) dividiram o pódio, ao mesmo tempo em que Acre (-4,9%), Rondônia  (-4,8%) e Rio de Janeiro (-4,1%) amargavam os piores números. No ano, o Estado ainda subiu da 20ª para a 19ª colocação. Piauí (+22,8%), Amapá (+21,6%) e Mato Grosso do Sul (+20,4%) encabeçaram a lista. Em contraste, Tocantins (+2,2%), Distrito Federal (+7,5%) e Paraíba (+7,7%) ficaram nos últimos lugares. 

Veículos e construção

Na média nacional, cinco das oito atividades pesquisadas tiveram taxas negativas em dezembro: móveis e eletrodomésticos (-19,4%), livros, jornais, revistas e papelaria (-9,7%), equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-8,6%), combustíveis e lubrificantes (-3,1%) e hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-2,6%) e equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-2,0%). O setor só conseguiu avançar em artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (+4,3%), tecidos, vestuário e calçados (+3,8%) e outros artigos de uso pessoal e doméstico (+0,7%).  

Em razão do tamanho da amostragem, o IBGE não segmenta o resultado do comércio no Amazonas. Sabe-se apenas que o varejo ampliado –que inclui veículos e suas partes e peças, bem como material de construção –só  não foi melhor do que a média do setor no confronto com dezembro de 2020. O volume de vendas cresceu 1%, ante novembro de 2021, mas caiu 3,8% na variação anual e encerrou o acumulado dos 12 meses negativo em 0,5%. Em todo o país, as respectivas variações foram +0,3%, +2,7% e +4,5%. 

Já a receita nominal do varejo ampliado do Amazonas ficou positiva em 2,5% na variação mensal, e cresceu 5,6% no comparativo anual. Os resultados em valores correntes do caixa dos lojistas locais avançaram 11,8% no acumulado de janeiro a dezembro do ano passado. Na média brasileira os números foram +0,6%, +10,4% e +18%, na ordem. 

“Ano difícil”

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, assinalou que desde 2016 o comércio amazonense não apresentava queda no desempenho anual. O pesquisador lembra que 2021 foi um ano difícil, principalmente por conta da pandemia, mas acrescenta que a inflação, assim como outros fatores macroeconômicos desfavoráveis, também tirou poder de compra do consumidor e gerou influências negativas para a atividade durante o ano. 

“A alta taxa de desemprego diminui o poder de compra das famílias e a inflação alta corrói os salários, além de servir de deflator para o cálculo do volume de vendas. Quando analisamos o quadro da receita nominal, que não sofre deflação, vemos que o desempenho anual foi bem satisfatório. Ao longo do ano, existem bons cenários para que o comércio possa ter uma retomada de crescimento, principalmente quando vemos a queda da taxa de desocupação”, ponderou.

Em texto postado na Agência de Notícias IBGE, o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, lembra que o primeiro semestre de 2020 foi marcado pelo início da pandemia de Covid-19 no Brasil, com fechamento do comércio durante vários meses em boa parte do país, e isso reduz a base de comparação. “O crescimento nesse período era esperado. Já a segunda metade de 2020 foi marcada pela retomada das atividades, enquanto que o mesmo período de 2021 não teve tanta força para o volume de vendas no varejo”, assinalou.

O pesquisador ressalta, entretanto, que o volume de vendas no varejo se aproxima do patamar pré-pandemia, sendo que alguns subsetores já se encontrariam acima dessa marca. “É o caso dos artigos farmacêuticos, que já cresce há cinco anos. Por outro lado, as atividades de livros, jornais, revistas e papelaria e de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação ainda se encontram bem abaixo”, analisou.

Inflação e desemprego

Na mesma linha, o presidente da assembleia geral da ACA (Associação Comercial do Estado do Amazonas), Ataliba David Antonio Filho, disse à reportagem do Jornal do Commercio que a inflação e o índice de desemprego altos ajudaram a reduzir o poder de compra. “A elevação do combustível também veio a influir no custo da mercadoria, e no seu consequente aumento de preço, o que veio arrefecer as vendas de varejo”, lamentou.

O presidente da FCDL-AM (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado do Amazonas), Ezra Azury, concorda. “O principal vilão é a inflação que, no nosso Estado, é maior que no restante do país, devido ao peso que o frete tem na composição do preço. E sabemos que o frete marítimo aumentou muito para a nossa região. Acreditamos que, com a recomposição salarial que está em andamento por acordos entre os sindicatos patronais e laborais, a tendência é que a capacidade de compra do consumidor melhore. Os resultados devem ser confirmados em março”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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