Menos endividados em Manaus

Em: 11 de março de 2022
The businessman - bankrupt

A proporção de consumidores de Manaus endividados com cartões, carnês e outros meios de pagamento encolheu pelo quarto mês seguido, entre janeiro e fevereiro. A Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) revela que 67% delas (430.989) se dizem endividadas, menos do que no mês anterior (67,3% e 432.368), mas ainda acima da marca de 12 meses atrás (67,8% e 429.803). O nível de endividamento segue mais alto entre os consumidores com renda familiar igual ou superior a dez salários mínimos.

Em paralelo, a inadimplência marcou seu quinto mês consecutivo de alta, na cidade. O índice de negativados cresceu entre janeiro (29,4% e 188.622) e fevereiro (29,7% e 190.913), mas perdeu força em relação ao segundo mês de 2021 (30,3% e 192.040). Ao menos 16,2% (104.508714) declararam já não ter condições de quitar dívidas atrasadas, número superior ao do mês anterior (16% e 102.714), mas igualmente aquém do patamar de fevereiro do ano passado (18,7% e 118.641). Os atrasos são mais frequentes entre as famílias que ganham menos de dez mínimos mensais.

O desempenho do Estado, contudo, foi melhor do que o da média nacional, que apontou expansão na taxa de endividamento das famílias, entre janeiro (76,1%) e fevereiro (76,6%), com impulso ainda maior em relação a um ano atrás (66,7%). Já o percentual de famílias com contas em atraso (27%) também aumentou em ambas as comparações, e apresentou a maior taxa desde 2010. A parcela de consumidores sem condições de pagar os débitos também acirrou na variação mensal e chegou a 10,5%.

A avaliação é que os números sinalizam menos vendas, dado o esgotamento do poder de compra do consumidor, em razão dos juros e da inflação –sendo que os impactos econômicos da guerra na Ucrânia tendem a piorar o cenário. Dados do BC (Banco Central) mostram que as taxas médias nas linhas de crédito com recursos livres às pessoas físicas aumentaram de 39,4%, em janeiro de 2021, para 46,3%, em janeiro de 2022. Em contrapartida, as concessões de crédito com recursos livres para pessoas físicas subiram menos (+13,1%) em um ano, tendo desacelerado (-2,7%) no confronto com dezembro de 2020.

Cartão e comprometimento

A sondagem mostra que houve uma melhora relativa, mas não qualitativa no nível de endividamento dos manauenses. A maioria ainda se diz “muito endividada” (38,9%), seguida pelos “mais ou menos endividados” (17,4%) e pelos “pouco endividados” (10,7%). Consumidores com renda total superior a dez salários mínimos (72%) figuraram em número acima da média do indicador (67%) –puxados pelo grupo dos “mais ou menos endividados” (32,9%).

Assim como na média brasileira, o cartão de crédito é o principal vilão do endividamento em Manaus, respondendo por 86,1% do bolo das dívidas e com novo predomínio das famílias mais ricas (98,3%). Os carnês (57,9%) seguiram na segunda posição, sendo também impulsionados pelos que recebem mais (64,4%). A lista se completa com cheque especial (24%), crédito pessoal (23,6%), financiamentos de carro (19%) e de casa (18,1%), crédito consignado (3,7%), cheque pré-datado (0,6%) e “outras dívidas” (0,1%). 

A situação piorou também nas estimativas de tempo de comprometimento com as dívidas, já que aumentou o percentual dos que estimam levar mais de um ano para tanto –de 41,8% para 42,2%. Em paralelo, a proporção dos devedores comprometidos entre seis meses e um ano passou de 24,6% para 25,3%. O oposto aconteceu nos grupos endividados no curto prazo. A parcela de consumidores que esperam se livrar dos compromissos dentro de três a seis meses caiu de 16,7% para 16,3%, enquanto a fatia dos ‘pendurados’ por até três meses caiu de 15,2% para 14,4%. 

A renda ficou mais comprometida pelos juros e pela inflação. Em média, as famílias manauenses consomem 39,5% de seus ganhos com dívidas. E, diferente do que se poderia esperar, o grupo dos que recebem mais de dez mínimos seguiu preponderante (42%), pelo sexto mês seguido. A maioria (51,3%) gasta mais da metade de seus ganhos mensais com dívidas. Na sequência estão os que gastam de 11% a 50% (41,9%) e os que limitam os dispêndios a 10% de seus ganhos (5%).

Entre os consumidores com compromissos em atraso, os mais pobres (44,5%) superam os mais ricos (42,4%). Só 24,2% garantem que conseguirão quitar integralmente e 21,1% estimam que conseguirão pagar apenas parcialmente. Ao menos 22,7% devem há mais de 90 dias –especialmente os que ganham menos (24,5%). A fatia de manauenses com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (66%) ainda é majoritária, enquanto o grupo pendente há menos de um mês responde por somente 11,4% do bolo. 

Inflação e juros

Para o vice-presidente da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Paulo Tadros, os números mais recentes do indicador da CNC refletem a corrosão do poder de compra do consumidor de Manaus pela alta na inflação e nas taxas de juros médias. “Essa perda do poder aquisitivo dificulta a quitação das dívidas e tende a agravar ainda mais o cenário de endividamento e inadimplência das famílias”, lamentou.

Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, reforça que o encarecimento do crédito pela escalada da taxa Selic dificulta a renegociação de dívidas. “O panorama mostra que, na margem, o custo do crédito mais elevado, e o próprio endividamento alto entre as pessoas que vivem no mesmo domicílio, dificultam a contratação de novas dívidas e o pagamento dos compromissos na data de seus vencimentos”, assinalou.

No mesmo texto, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, pontua que o aumento no custo do dinheiro e a fragilidade apontada no mercado de trabalho devem seguir afetando a dinâmica do endividamento e da inadimplência dos consumidores, especialmente em ano de maior incerteza pelo processo eleitoral. “Consideramos necessárias e relevantes as alternativas que suportem o pagamento dos compromissos financeiros assumidos e a renegociação das dívidas ou contas não pagas”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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