Impulsionados pelos reajustes contínuos na taxa Selic, e pelas incertezas na economia, os juros bancários tiveram nova aceleração, no mês passado. A alta detectada entre janeiro e fevereiro foi a 14ª consecutiva, e se deu em todas as modalidades de crédito. O aumento foi puxado novamente pelas pessoas jurídicas, especialmente no capital de giro. No caso das pessoas físicas, o impulso veio do financiamento para compra de veículos e empréstimos pessoais. É o que aponta a pesquisa da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).
O novo encarecimento do dinheiro foi precedido por mais uma rodada de altas na inadimplência em operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional. Dados do BC (Banco Central) informam que as taxas sofreram repique no Amazonas, e voltaram a subir na virada do ano. Em paralelo, o volume de concessões de créditos pelo SFN estancou no Estado, na passagem de dezembro de 2021 para janeiro de 2022. Em ambos os casos, o movimento foi mais sentido entre as empresas, do que entre as famílias.
A escalada nos juros bancários seguiu em sintonia com os juros básicos da economia. A Anefac informa que, considerando todas as elevações da taxa anual da Selic promovidas pelo BC, entre janeiro de 2021 (2%) e fevereiro de 2022 (10,75%), a taxa básica de juros avançou 437,50% (+8,75 pontos percentuais). No mesmo período, o custo médio do dinheiro para pessoas físicas ficou 23,62% (+9,73 p.p.) mais caro, ao passar de 92,59% para 113,15% anuais. Para as pessoas jurídicas, a elevação foi de 28,33% (+11,67 p.p.), saltando de 41,20% para 52,87% ao ano.
Alta generalizada
O incremento registrado nas linhas de financiamento para pessoas jurídicas, no entanto, foi novamente mais forte, chegando a 1,41% mensais (+0,05 p.p.) –embora o acréscimo tenha sido mais ameno do que o do mês anterior. O custo do dinheiro para esse público passou de 3,55% (janeiro) para 3,60% (fevereiro) ao mês, sendo este o maior valor desde novembro de 2018. A nova correção fez a taxa anual saltar de 51,99% para 52,87%, na mesma comparação, de acordo com a Anefac.
Todas as modalidades sofreram altas. O maior reajuste ocorrido para este público, no mês passado, ocorreu novamente no crédito para capital de giro (1,62% ao mês), que ficou 2,53% mais caro em relação a janeiro. O financiamento para desconto de duplicatas veio em segundo lugar, com a taxa mensal saindo de 1,68% para 1,72% mensais, e incremento de 2,38%. Embora tenha registrado o menor acréscimo (+1,08%), a conta garantida segue como a modalidade mais onerosa ao mês (7,47%), para as empresas. As respectivas taxas anuais ficaram em 21,27%, 22,71% e 137,38%.
O dinheiro ficou mais caro também para as pessoas físicas. Segundo a Anefac, a taxa avançou 0,77% (+0,05 p.p.) em fevereiro, embora com reforço mais baixo também do que o do mês precedente. Com isso, a taxa média para empréstimos bancários em todo o Brasil foi reposicionada de 6,46% para 6,51% mensais –o patamar mais elevado desde dezembro de 2019. Os juros anuais seguiram na casa dos três dígitos, saltando de 111,95% para 113,15%, de um mês para o outro. O aumento se deu em todas as modalidades.
Em sintonia com a crise de oferta nas concessionárias de veículos, a linha de crédito com maior variação percentual mensal para as famílias foi novamente o CDC (crédito direto ao consumidor) para financiamento de automóveis (+2,66%), que passou para 1,93% ao mês. O empréstimo pessoal em bancos ficou 1,60% mais caro, sendo remunerado a 3,70% mensais. Na sequência vieram os juros no comércio (+0,98%), cheque especial (+0,91%), empréstimo em financeiras (+0,88%) e cartão de crédito (+0,45%). Esta última ainda é a modalidade com taxas mensais (+13,50%) e anuais (+357,04%) mais altas da lista.
Selic e inadimplência
O vice-presidente de estudos e pesquisas da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, reafirma, em texto da assessoria de imprensa da entidade, que os empréstimos bancários estão mais onerosos em virtude da alta dos juros futuros financeiro e das expectativas de mais aumentos da Selic frente ao comportamento da inflação. O dado mais recente do IPCA mostra um repique da taxa mensal da inflação oficial, entre janeiro (+0,54%) e fevereiro (+1,01%). Segundo o IBGE, os principais impactos vieram da educação e da alimentação.
O ponto nevrálgico para a escalada dos juros, no entanto, está nas perspectivas de piora nas taxas de inadimplência. Segundo a Anefac, essa expectativa seria favorecida pelo fim das carências nos empréstimos, “desemprego elevado”, fim dos benefícios do auxílio emergencial, aumento da inflação e maior seletividade dos bancos para emprestar. “Tendo em vista a piora do cenário econômico, (…) a tendência é de que as taxas de juros das operações de crédito continuem sendo elevadas nos próximos meses”, frisou.
Dados do BC confirmam que a inadimplência piorou, na virada do ano, pelo menos para o Amazonas. A taxa geral de inadimplência em operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional avançou 2,83% de 3%, entre dezembro e janeiro, após o recuo anterior. Para as pessoas jurídicas, a taxa foi encorpada em 7,59% (+0,11 p.p.) e chegou aos 1,56% ao mês. No caso das pessoas físicas (4,02% ao mês), o acréscimo foi de 5,23% (+0,20 p.p.).
A mesma base de dados informa que o saldo das operações de crédito do SFN estancou na virada do ano, no Amazonas. Os números globais do Estado mostram que praticamente não houve evolução entre dezembro de 2021 (R$ 42,765 bilhões) e janeiro de 2022 (R$ 42,981 bilhões). Houve uma pequena elevação de 1,24% entre famílias (R$ 25,127 bilhões), mas o volume de concessões recuou 0,51%, no caso das empresas (R$ 17,855 bilhões).
Otimismo e reorganização
A conselheira do Corecon-AM, ex-vice-presidente da entidade, e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, avalia que o avanço da vacinação e “uma gradativa retomada” da economia estão influenciando na busca por crédito das empresas, especialmente para capital de giro. No entendimento da economista, embora as concessões tenham mostrado estabilidade, o arrefecimento da pandemia dá alento às empresas apostarem na retomada da economia, a despeito das altas dos juros e da inflação.
“Outra variável que pode ter contribuído é o saque do FGTS, bem como uma elevação nas contratações. Já podemos observar que o comércio, os serviços, e especialmente as lojas e os restaurantes, já estão com uma movimentação mais expressiva de clientes e os comerciantes procuram o capital de giro para acompanhar esta retomada. Apesar dos juros elevados, os comerciantes e empresários veem no crédito do capital de giro uma oportunidade para uma retomada de sua atividade econômica pós-pandemia”, ponderou.
Na análise da Michele Lins Aracaty e Silva, a situação seria mais complexa para as pessoas físicas, já que muitas estariam de volta ao mercado de trabalho, ou mesmo optando pelo empreendedorismo. “Como estavam inadimplentes, por causa do desemprego, temos uma busca por organizar a vida financeira, para voltar a consumir e ter crédito. Infelizmente, para um futuro próximo, teremos mais altas da taxa de juros, visto o acirrado combate à inflação, o dólar, o preço das commodities e a incerteza causada pelo conflito na Ucrânia”, concluiu.







