Reportagem: Marco Dassori
Twitter: @marco.dassori
O comportamento atípico da demanda no ano inicial da pandemia confirmou a vocação do PIM para a produção dos carros chefes que integram seu mix. Televisores, telefones celulares e motocicletas foram os produtos com maiores valores de produção no Amazonas em 2020, conforme a PIA (Pesquisa Industrial Anual) – Produto, do IBGE. Outras linhas de produção que integram a cesta da indústria incentivada desceram do pódio, na comparação com o ano passado, para ocupar as posições seguintes, a exemplo de aparelhos de ar condicionado e concentrados para refrigerantes.
O valor total da produção de televisores encostou nos R$ 12,87 bilhões, sendo concentrada na Zona Franca. Celulares “made in ZFM” (R$ 11,99 bilhões) responderam por 47,9% da oferta nacional. Já as motocicletas de 50 a 250 cilindradas manufaturadas (R$ 7.38 bilhões) representaram a quase totalidade da fabricação brasileira. A lista dos dez principais produtos do Polo inclui ainda “preparações em xarope” (R$ 6,73 bilhões), condicionadores de ar (R$ 5,68 bilhões), gás natural, caixas registradoras e eletrônicas (R$ 2,91 bilhões), peças e acessórios para motos (R$ 2,45 bilhões), latas de alumínio e metais preciosos.
Eletroeletrônicos e bens de informática foram beneficiados pelo pico de demanda nos meses de isolamento social, subindo 25 posições no ranking nacional. O estudo sinaliza, no entanto, que o desarranjo nas cadeias produtivas gerado pela crise sanitária favoreceu mais subsetores que trabalham com commodities. Os principais produtos e serviços industriais da região Norte foram, na ordem, minério de ferro (28,9% de participação), carnes de bovinos frescas ou refrigeradas (5%); e televisores (4,8%) – que perdeu uma posição em relação a 2019. Um ano antes, celulares também estavam no pódio. Como consequência, o Amazonas cedeu a liderança ao Pará, no ranking da região Norte.
Primarização e concentração
Em âmbito nacional, os dez principais produtos e/ou serviços industriais foram responsáveis por 20,9% das vendas, com recuo ante 2019 (21,6%). O destaque também veio da extração de minerais metálicos (4,8%), seguida por óleos brutos de petróleo (3,1%) e carnes de bovinos frescas ou refrigeradas (2,1%), óleo diesel (2,3%) e álcool etílico (1,8%), entre outros. As atividades de maior receita líquida foram as de produtos alimentícios (19,3%), produtos químicos (10,8%), derivados de petróleo e biocombustíveis (8,8%), veículos automotores (8,1%) e metalurgia (7%), entre outras.
A sondagem do IBGE investigou 3.400 produtos e serviços industriais em 31,7 mil empresas com 30 ou mais pessoas ocupadas, distribuídas em 29 setores. O valor total da produção brasileira foi de R$ 3,6 trilhões, em 2020, sendo que o valor apurado em receita líquida de vendas totalizou R$ 3,1 trilhões. O Sudeste (53,3%) concentrou a maior parte da receita líquida de vendas, mas também foi o único que encolheu em dez anos. Foi seguido por Sul (20,8%), Nordeste (10,1%), Norte (8,4%) e Centro-Oeste (7,3%).
“Observa-se nas regiões Norte e Centro-Oeste, e em menor medida nas demais, uma concentração nos principais produtos industriais. No Norte, onde historicamente predomina a extração de minerais metálicos em Carajás no Pará e a fabricação de produtos eletroeletrônicos na Zona Franca de Manaus, nos últimos anos vem crescendo a produção de carne”, pontuou o IBGE-AM, no texto de divulgação da pesquisa.
Mercados diferentes
O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, reforça que a indústria amazonense mantém destaque nacional na produção de diversos produtos de elevado valor agregado, como televisores, celular, gás, xaropes para fins industriais, entre outros. Indagado sobre a perda da liderança do ranking industrial da região Norte para o Pará, que tem no beneficiamento mineral e das carnes a força motriz de sua manufatura, o pesquisador respondeu que o diferencial está nos mercados a que são destinados os bens produzidos em cada Estado.
“Os minerais são debêntures de aceitação mundial e são empregados como matéria prima de outros bens industriais. O mercado preferencial é o externo em vendas em dólares. O mesmo vale para o beneficiamento de carne. Já os produtos do PIM são bens de consumo que alcançam quase que exclusivamente o mercado doméstico. Sua demanda está sujeita às oscilações da economia brasileira. Além disso, nossa indústria vem enfrentando dificuldades de acesso a insumos e greves na Receita”, explicou.
Ao confrontar os dados da pesquisa com sua vertente dedicada às empresas, Adjalma Nogueira Jaques avalia que a indústria amazonense passa por uma recuperação recente, mas deve enfrentar mudanças significativas nos próximos anos. “No longo prazo, haverá queda significativa na quantidade de trabalhadores. A característica do polo industrial é cada vez mais ir se modernizando, mudando sistemas de produção e assim diminuindo as contratações. Por ou lado, a receita tem se mantido na ascendência a cada ano”, ponderou.
Clusters e diversificação
Na entrevista concedida para a edição anterior desta pesquisa, o presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Antonio Silva, lembrou que as grandes indústrias que se instalaram inicialmente na ZFM foram de duas rodas, eletroeletrônicos e concentrados, contribuindo para atual consolidação dos segmentos citados. O dirigente diz que isso ajudou a estruturar os clusters que alimentam as linhas de produção dos segmentos citados, contribuindo para uma manufatura local “extremamente eficiente e verticalizada”.
Antonio Silva acrescentou que o único lugar onde se fabrica condicionador de ar do tipo split fora da China, é justamente na Zona Franca de Manaus, que também concentra a produção nacional de motocicletas e televisores. O presidente da Fieam argumentou, contudo, que é necessário estruturar as bases futuras para uma vertente econômica alicerçada nas vocações regionais, além de preparar a mão de obra para atender aos anseios da indústria 4.0. “Até esta estruturação futura, é imperioso que mantenhamos o polo consolidado e como força motriz da nossa economia”, completou.
A abertura do leque do PIM é uma demanda antiga e constante das lideranças do Polo, especialmente diante das mudanças nos hábitos de consumo e da evolução tecnológica. Em nova conversa com a reportagem do Jornal do Commercio, o dirigente ressaltou que, a despeito do afunilamento da cesta da indústria incentivada ao longo dos últimos anos, “certamente” há espaço e m necessidade de desenvolvimento de novos produtos e novos segmentos no parque fabril da capital amazonense.
“Temos de considerar que alguns setores são extremamente consolidados no Polo Industrial de Manaus, a exemplo dos eletroeletrônicos e duas rodas. Esses subsetores possuem uma cadeia de produção adensada que propiciam uma otimização do fluxo fabril, de modo que deverão permanecer por alguns anos como os produtos de destaque do nosso modelo. A diversificação de nossa pauta produtiva, contudo, deve ser uma prioridade das partes interessadas, a fim de que possamos fortalecer o PIM”, concluiu.







