Valor do salário segue longe do necessário e continua massacrando o trabalhador

Em: 5 de setembro de 2022
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Andreia Leite

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Com uma diferença de R$ 90 em comparação ao valor atual, o valor do  salário mínimo estipulado para janeiro de 2023 é de R$ 1.302. A proposta orçamentária apresentada na última quarta-feira pelo governo ao Congresso Nacional, sem ganho real, é avaliada por economistas ouvidos pelo Jornal do Commercio, que avaliam o repasse inferior à inflação e segue como aquém do necessário para a sobrevivência das famílias. 

Para o  professor universitário e consultor econômico Francisco de Assis Mourão Júnior,  o valor é considerado muito abaixo da previsão de inflação e do IPCA  (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) que hoje está em 0,6%, ao lembrar que a inflação atual chega a 10,07%, com uma deflação. “Tem três meses para ver se a inflação atinge a meta de 6%. É preocupante que o salário mínimo não tenha ganho real e ainda esteja acima da inflação”. 

Para ele, o impacto é um cenário de perda de poder de compra visto que o governo visualiza  a questão previdenciária, após o rombo. “É um valor que já é muito baixo e não sendo corrigido no mínimo pela inflação vai causar um dano, principalmente nas famílias de baixa renda”. 

O presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Amazonas), Marcus Evangelista reforçou que diante da inflação atual o reajuste no valor do mínimo não vai ter nenhum impacto positivo às famílias de classe baixa, isso porque grande parte dos gastos desse grupo é direcionado a despesas com alimentação que segue num patamar de custo muito alto. “É praticamente nulo, pois não está repondo nem o valor da inflação. A deflação dos últimos dois meses, não quer dizer que o preço do alimento diminuiu. Muito pelo contrário, dependendo do tipo, o valor de determinados produtos continuam subindo, então esse é o tipo de salário que dependendo da família mal vai conseguir pagar por uma boa cesta básica”. 

Segundo ele, existem várias travas para reajustar o salário mínimo, mesmo porque se aumentasse para R$ 2 mil ou R$ 3 mil seria impossível manter esses salários. “Os empresários iam ter uma dificuldade muito grande porque para pagar um salário nessa proporção teria que aumentar os preços para pagar essa majoração, então seria uma inflação desenfreada para custear um salário alto que no final das contas também não ia fazer diferença porque a inflação tinha subido”. 

Reajuste faz diferença

Para o economista e professor da Fundação Getúlio Vargas Joelson Sampaio, mesmo que o salário mínimo não tenha ganho real, o reajuste ainda faz diferença para as famílias de baixa renda.

“Quando olhamos a regra, temos uma cobertura para a inflação e também tínhamos um repasse de ganho real para as famílias olhando o crescimento do PIB“, disse ele em entrevista à CNN.

“Mas o cenário de pandemia afetou muito a economia do Brasil e do mundo, e tivemos só o repasse com o INPC, índice oficial do governo para reajuste do salário mínimo. Ele ainda faz diferença porque as famílias de renda baixa são as que mais sofrem com a inflação”, acrescentou.

O economista analisou que as famílias com rendimento de um salário mínimo têm um orçamento basicamente voltado para questões de necessidade básica. Portanto, elas acabam sendo fortemente impactadas com a alta dos preços destes itens, como no caso dos alimentos.

“Temos uma economia bastante fragilizada, que tem se recuperado, mas encontra novos desafios para esse ano. O grande desafio para o governo é acomodar essas demandas mais sociais no orçamento público”, concluiu.

Por dentro

A desvalorização do salário mínimo vem ocorrendo ano a ano. Porém, desde 2019, o piso nacional passou a ser corrigido apenas pelo INPC, a fim de preservar o poder de compra do mínimo.

A decisão, no entanto, não traz ganho real à remuneração dos profissionais. Com a correção sendo feita apenas pela inflação, o salário mínimo fica cada vez mais distante do valor necessário para a sobrevivência das famílias.

Andréia Leite

é repórter do Jornal do Commercio
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