
Marco Dassori
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A agricultura do Amazonas fechou em queda, no ano passado, na contramão da média nacional. O valor das principais culturas do Estado atingiu R$ 1,4 bilhão e foi 8,9% menor. Foi o segundo ano consecutivo de dados negativos, após o tombo de 13,5%, em 2020 – primeiro ano da pandemia. O resultado foi puxado pelas quedas nas culturas da mandioca e do abacaxi, em detrimento das altas das safras minoritárias da banana, da cana-de-açúcar e do açaí. Apenas este, contudo, teve aumento de produção, assim como melancia, maracujá, laranja, soja, limão, abacate e goiaba. A área plantada global, por outro lado, totalizou 105,8 mil hectares e encolheu 14%, na mesma comparação.
Os dados são da pesquisa PAM (Produção Agrícola Municipal) 2021, do IBGE, que apontou a liderança de Tefé, Manicoré e Codajás, em valores de produção. As lavouras temporárias –que possuem ciclo reprodutivo inferior a um ano –foram responsáveis por 70,9% da safra. Açaí, guaraná, malva, juta e abacaxi aparecem em destaque na produção nacional, embora a mandioca ainda seja o principal produto agrícola do Estado, e o único produzido em todos os municípios. No texto de divulgação da pesquisa, o IBGE-AM salienta que a característica da produção local ainda é de subsistência e atribuiu o desempenho negativo principalmente à pandemia.
A sondagem mostra que a média nacional percorreu caminho oposto, pelo menos em termos de receita, já que a safra ficou aquém da registrada no ano anterior. O valor da produção das principais culturas do Brasil atingiu R$ 743,3 bilhões e incremento de 58,6%. Conforme o órgão de pesquisa, o recorde foi impulsionado pelo aquecimento da demanda, valorização do dólar, e pela escalada nos preços de combustíveis e commodities agrícolas. A área plantada global do país somou 86,7 milhões de hectares e foi 3,9% superior, na comparação com 2020.
Soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão foram, respectivamente, os cinco primeiros produtos no ranking brasileiro de valor de produção da agricultura, sendo que todos mostraram aumento na geração de valor. Em termos de quantidade produzida, no entanto, apenas a soja apresentou crescimento, atingindo novo recorde. Outros produtos com aumentos na produção foram o trigo, que bateu recorde, e o arroz. A safra de grãos, por sua vez, após dois anos seguidos de recordes na série histórica, mostrou redução de 0,4%, totalizando 254,4 milhões de toneladas.
Mato Grosso teve o maior valor de produção, com R$ 151,7 bilhões, um aumento de 91,5%. Em seguida, com elevação de 138,4%, o Rio Grande do Sul alcançou R$ 90,8 bilhões. São Paulo, com R$ 84,1 bilhões e crescimento de 23,7%, ficou em 3º lugar. Entre os municípios, o líder em valor de produção agrícola, pelo terceiro ano consecutivo, foi Sorriso (MT), alcançando R$ 10 bilhões, uma alta de 86,4% ante 2020. Em seguida, estão Sapezal (MT) com R$ 9,1 bilhões e alta de 111,6% no ano, e Rio Verde (GO), com R$ 7,7 bilhões, e expansão anual de 131,1%.
Lavouras temporárias
O IBGE-AM explica que as lavouras temporárias são aquelas de curta ou média duração, com ciclo reprodutivo inferior a um ano. É o grupo majoritário no Amazonas, tanto em produção, quanto em valores, sendo responsável por R$ 1,03 bilhão, em 2021. Já as lavouras permanentes, que são as de ciclo longo, cujas colheitas podem ser feitas por vários anos, e sem a necessidade de novo plantio, alcançaram a cifra minoritária de R$ 83,9 milhões. Entre as principais culturas agrícolas do Estado, há destaques nacionais no primeiro (juta, malva, mandioca e abacaxi) e no segundo (açaí e guaraná, cacau).
Em termos de valor de produção, a mandioca (R$ 752,8 milhões) representou 72,95% da safra do Amazonas. “Como o quinto produtor nacional de mandioca, o Amazonas produz basicamente para atender sua demanda pelos produtos derivados dessa raiz tuberosa; principalmente a farinha de mandioca e a goma”, informou o texto do IBGE-AM. A lista inclui também abacaxi (R$ 87,5 milhões) e cana-de-açúcar (R$ 82,7 milhões), responsáveis por fatias de 8,48% e de 8,02%, na ordem. A produção nacional de abacaxi é liderada pelo Pará, sendo que o Amazonas (R$ 87,5 milhões) ocupa a décima posição do ranking brasileiro, com destaque para Itacoatiara, Careiro da Várzea, Tefé, Amaturá e Eirunepé.
Entre os produtos agrícolas nas lavouras permanentes, a banana (R$144,3 milhões e 34%) aparece com o maior valor de produção. Na sequência estão o açaí (R$ 136,4 milhões), o maracujá (R$ 46,7 milhões) e a laranja (R$ 44,9 milhões). O maior valor de produção de banana do país é o de São Paulo (R$ 1,5 bilhão). O Amazonas (R$ 144,3 milhões) está na 17ª colocação, sendo impulsionado por Manicoré, Novo Aripuanã, Envira, Rio Preto da Eva e Atalaia do Norte. No caso do açaí, o Estado é mantido por Codajás, Barcelos, Caapiranga, Anori e Carauari e só perde para o Pará –que respondeu por 96,7% da safra.
Mandioca e abacaxi amargaram quedas respectivas de 16,4% e 33,1%, enquanto cana-de-açúcar, banana, açaí, maracujá e laranja tiveram variações positivas de 3,3%, 2,3%, 8,7%, 51,4%, 77,8%. Em 2021, Tefé (R$ 119,5 milhões) foi o principal município do Amazonas em valor de produção da agricultura, respondendo por 8,2% do total. Foi seguido por Manicoré (R$ 119,1 milhões ou 8,1%), Codajás (R$ 113,2 milhões ou 7,8%), Presidente Figueiredo (R$ 97,5 milhões ou 6,7%) e Itacoatiara (R$ 96,1 milhões ou 6,6%).
Pandemia e commodities
O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatizou à reportagem do Jornal do Commercio que a agricultura do Amazonas teve quedas expressivas em relação ao ano anterior, tanto a área plantada quanto o valor de produção tiveram. “A queda pode ser atribuída à ocorrência da pandemia e seus reflexos, no tocante à segurança do produtor em relação à comercialização de seus produtos”, resumiu.
Na análise do pesquisador, outra questão a ser levada em conta é o fato de a produção agrícola local estar “muito ligada” ao consumo interno, e não incluir quantidade significativa de commodities agrícolas. “Isso ocorre na contramão do que ocorreu no país, onde a área plantada e o valor da produção tiveram crescimento, em função da força da produção baseada em dólar. O açaí e o guaraná são os dois produtos agrícolas do Estado com destaque nacional de produção, na segunda posição do ranking. Já a produção de cacau ocupa a sexta colocação”, justificou.
Já o ex-superintendente da Conab, administrador com especialização na gestão de informação ao agronegócio familiar e empresarial, e colaborador do Jornal do Commercio, Thomaz Meirelles, questionou os números. “IBGE, Conab e Idam têm de sentar para debater juntos essas estatísticas, no âmbito do GCEA (Grupo de Controle de Estatísticas Agropecuárias)”, desabafou. “Durante a pandemia, o pessoal não estava nem saindo para fazer pesquisa. Isso é muito sério, porque isso desestimula o que não é para desestimular. Não sei porque não volta esse grupo”, encerrou.







