
Marco Dassori
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A Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) e os analistas financeiros consultados na Pesquisa Focus estimam que o Copom (Comitê de Política Monetária) deve segurar a Selic em 13,75% ao ano, em sua decisão desta quarta (21). A reunião da instância do BC (Banco Central) para arbitragem dos juros básicos começou hoje e se encerra amanhã. Caso a projeção se confirme, o BC terá interrompido uma sequência de 12 altas seguidas. Consideradas todas as elevações, de janeiro de 2021 (2%) e agosto de 2022 (13,75%), a taxa ficou 587,50% mais cara.
A Anefac avalia que o cenário de curto prazo mostra uma inflação desacelerada, ainda que elevada, o que não justificaria novas altas da Selic. A entidade destaca, no entanto, que a interrupção do ciclo de altas da Selic não deve se refletir na ponta do crédito, no curto prazo, dado o crescimento no nível de endividamento das famílias e no risco de novas altas na inadimplência. Em sintonia, a pesquisa mensal mais recente da Associação indica que os juros voltaram a ficar mais caros, em agosto.
Os juros bancários voltaram a escalar no mês passado, na 20ª alta consecutiva. Assim como ocorrido nos levantamentos anteriores, os aumentos ocorreram em todas as modalidades, tanto para pessoas físicas, quanto para as jurídicas. Os novos reajustes foram puxados principalmente pelo CDC para aquisição de veículos e pelo desconto de duplicatas, respectivamente.
O acréscimo médio nos juros para as pessoas físicas foi de 1,02% (+0,07 ponto percentual). A taxa mensal foi reposicionada de 6,83% para 6,90%, mantendo a correção anual dos empréstimos na casa dos três dígitos (+122,71%). Foi o maior número desde setembro de 2018. O incremento no custo dos financiamentos para as pessoas jurídicas foi ainda mais longe e correspondeu a 1,53% (+0,06 p.p.), sendo esta a maior taxa desde abril de 2018. Com isso, os juros passaram para 3,99% ao mês e 59,92% ao ano.
Modalidade de financiamento mais barata, por contar com garantia, o CDC para veículos (+2,87%) voltou a registrar a majoração mais elevada para as famílias, levando a taxa a 2,15% ao mês (29,08% ao ano). Na sequência vieram os empréstimos pessoais nos bancos (+1,22%), o cartão de crédito (+0,99%), os juros no comércio (+0,94%), o cheque especial (+0,88%), e os empréstimos nas financeiras (+0,55%). Cartão de crédito (14,30% ao mês e 397,23% ao ano) e cheque especial (8,07% e 153,78%) continuam sendo os meios de crédito mais proibitivos para o consumidor.
Do lado das pessoas jurídicas, a alta foi puxada principalmente pelo desconto de duplicatas (+4,02%), que foi a 2,07% ao mês e 27,87% ao ano. Crédito vital para proporcionar oxigênio e sobrevivência às empresas, especialmente em tempos de vendas oscilantes, o capital de giro (1,96% mensais e 26,23% anuais) ficou 2,08% mais caro. O menor acréscimo veio da conta garantida (+0,76%), que segue como a modalidade mais cara (7,94% e 150,14%, na ordem).
Inadimplência e inflação
O vice-presidente de estudos e pesquisas da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, avalia que o cenário macro e microeconômico não respaldam novas altas nos juros básicos, no curto prazo. “Efetivamente, acreditamos que o BC vai manter a Selic inalterada, para começar a reduzir a taxa lentamente, a partir do ano que vem. Acreditamos que não haverá nenhuma alta exatamente porque temos uma redução da inflação mês a mês e já registramos até uma deflação. Além disso, a economia ainda mantém uma taxa muito elevada de endividamento das famílias, um desemprego ainda muito alto e uma queda de renda do consumidor”, analisou.
Miguel Oliveira ressalva, contudo, que não há nada que indique estabilidade ou eventual queda nos juros bancários, no curto prazo. “A expectativa e a tendência é que os juros continuem subindo na ponta do crédito. A Selic é um dos itens que compõem o custo do dinheiro. Entretanto, o maior peso na composição das taxas vem do risco de inadimplência e estamos em um ambiente que apresenta risco elevado. A inflação carregada nesses meses comprometeu a renda das famílias, em um ambiente de desemprego e endividamento em alta. Isso tem feito com que os bancos tenham aumentado muito as provisões de perdas e renegociações de dívidas”, explicou.
O representante da Anefac acrescenta que o cenário é de piora do crédito e de expectativas de baixo crescimento da economia em 2023, o que piora o cenário de médio e longo prazos. “Isso pode levar a uma situação em que, mesmo com a Selic inalterada, as taxas bancárias voltem a subir nos meses subsequentes. Naturalmente, se não tivermos esse quadro restritivo, isso pode mudar. Temos outros fatores externos também que podem influenciar, como as recessões na Europa e nos EUA, a subida dos juros americanos, o baixo crescimento da China e os impactos da guerra na Ucrânia nos preços da energia”, listou.
“Avaliação criteriosa”
A ex-vice-presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Amazonas) e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, concorda que as estimativas do mercado são que o BC deve manter a Selic nos atuais 13,75% neste ano, mas ressalta que a taxa ainda deve permanecer em um patamar alto por mais tempo do que o mercado esperava. A economista assinala também que o dinheiro ainda deve continuar a ficar mais caro para quem busca empréstimos nos bancos, sendo necessário que empresas e consumidores redobrem a cautela em seus balanços.
“Juros elevados dificultam o investimento por parte das empresas. Também provocam o adiamento de aquisições, por parte dos consumidores, além de impactar diretamente nas decisões para ingressar em um novo financiamento, ou dificultar a vida de quem já está endividado. Caso a decisão de buscar crédito seja inadiável, recomenda-se uma avaliação criteriosa entre os produtos disponíveis nas diversas instituições bancárias e decidir pela mais adequada. Tanto para as pessoas físicas quanto para as jurídicas o cenário é de juros ainda muito elevados e deve permanecer até o final de 2022”, ponderou.
O ex-presidente do Corecon-AM, professor universitário e consultor empresarial, Francisco de Assis Mourão Júnior, concorda que o panorama econômico brasileiro não dá margem de confiança para os bancos segurarem os juros também. “Há um alto endividamento das famílias e a economia só esboçou reação há muito pouco tempo, com o crescimento do PIB do segundo trimestre. Apesar dos dois meses seguidos de deflação, teríamos de esperar o fechamento deste trimestre para refletir melhor essa questão”, concluiu.







