Safra de grãos no Amazonas fica sem crescimento

Em: 15 de outubro de 2022

Reportagem: Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori

A Conab espera que a safra de grãos 2021/2022 do Amazonas empate com a anterior, e que não passe das 47.800 toneladas. O mesmo vale para a área de plantio e para a produtividade. A estimativa está no primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento referente ao período assinalado. O Estado é o único a figurar com projeção de estagnação na lista, que incluiu cinco unidades federativas com quedas de produção e outras 21 com altas em seus resultados. Também é um ponto fora da curva, quando comparado às médias do Brasil (+15,3%) e da região Norte/Nordeste (+3,3%), que apresentam crescimentos para o período.

Vale notar que o empate projetado para o Amazonas até setembro do próximo ano –o período de colheita da chamada “safrinha” –equivale a um tombo de 12,5%, no confronto com a safra de 2020/2021 (54.600 toneladas). Assim como ocorrido no período anterior, apenas o milho conta com previsão positiva, mas com acréscimo de apenas 1,3% (24.100 toneladas). A expectativa para a soja (13.500 toneladas) e para o feijão (2.400 toneladas) é de empate. O dado negativo vem novamente do arroz (-3,7% e 7.800 toneladas) –que chegou a desabar pela metade, anteriormente.

O levantamento também informa que o Estado ficou estagnado em termos de área de plantio. Empatou com Amapá, Paraíba, Sergipe, Espírito Santo e Rio de Janeiro nesse quesito, sendo que o maior crescimento veio de Roraima (+20%). Os 19.600 hectares estabelecidos para o Amazonas representam um tombo de 9,7% na comparação com a safra de 2020/2021 (21.700 hectares). Arroz sequeiro (2.900 hectares), milho (9.500 hectares), soja (4.500 hectares) e feijão caupi (2.700 hectares) aparecem com os mesmos números da safra precedente –que apresentou queda de 50%, altas de 6,7% e de 4,7%, e estabilidade, respectivamente. 

O indicador de produtividade também desponta com dado estagnado, ao pontuar 2.439 quilogramas por hectare, marca que equivale a uma retração de 3,1% no confronto com dois anos atrás (2.516 kg/ha). O Amazonas ficou na 16ª posição do ranking, em termos de variação, em uma lista iniciada pelo Rio Grande do Sul (+61%) e encerrada pelo Tocantins (-4,6%).  Feijão (905 kg/ha) e milho (2.539 kg/ha) aparecem com evoluções respectivas de apenas 0,6% e 1,6%, em resultado melhor do que o do período anterior. A Conab calcula que a soja (3.000 kg/ha) deve pontuar seu segundo ano de estabilidade e que o arroz (2.689 kg/ha) deve sair do zero a zero para recuar 4%.

Clima e água

No texto do estudo, a Conab destaca a importância do clima nas estimativas de produção, ao informar que algumas áreas do país, depois de terem passado mais de 100 dias sem chuva, registraram “acumulados de chuva” que ultrapassaram 20 milímetros. “Na região Norte, os maiores acumulados de chuva foram superiores a 150 mm, principalmente em áreas do Noroeste da região, mantendo os níveis de armazenamento de água no solo elevados”, amenizou.

No caso do arroz, a estatal assinala que as condições para o plantio já estão dadas, no Amazonas. “Com base na expectativa da aquisição de sementes e a estabilização do regime de chuvas para a região de terra firme do Sul do Estado, os produtores aguardam para realizarem a semeadura para a safra 2022/23”. A Conab não cita a região nos comentários das demais culturas, mas cita que o feijão caupi é “o tipo de feijão que apresenta rusticidade bastante elevada, especialmente em relação à demanda hídrica, adaptando-se bem às condições de menor disponibilidade de água” –como o Nordeste.

Em matérias anteriores do Jornal do Commercio, a estatal informou que a produção estadual de milho se concentra principalmente em Manacapuru e Boca do Acre, onde está o maior plantel animal, já que entre 60% e 70% da produção é destinada à ração. A soja vem de Humaitá, principalmente da Fazenda Santa Rita. O arroz tem destaque nos municípios do rio Juruá, com destaque para Eirunepé e Envira. O feijão, por outro lado, é cultivado na calha do rio Purus –em especial, Lábrea e Boca do Acre.

“Perspectivas de expansão”

O cálculo mais conservador da Conab não convenceu o setor. O presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, reforçou que a percepção do setor privado é que milho e soja demonstram perspectivas de crescimento na região. Segundo o dirigente, a “eventual redução” do arroz poderia se dar por motivos comerciais, com os investimentos sendo redirecionados para outra cultura com maior valorização momentânea no mercado –o que poderia ser o caso do milho e também o da soja. 

“Esperamos que essa estagnação não se confirme. Temos trabalhado com informações de produtores rurais privados que apontam para uma ampliação de áreas de produção. Principalmente em Humaitá. É importante dizer também que, especificamente em relação à soja, temos boas perspectivas. Estudo do IBGE aponta que, entre 2019 e 2021, a produção naquele município cresceu 33% e atingiu 10 mil toneladas. Em valores de produção, o aumento foi de 44%”, afiançou, acrescentando que o recuo da safra anterior contabilizado pela Conab foi “pequeno” e ficou “quase no parâmetro de estabilidade”.

No entendimento do dirigente, a produção de grãos no Estado ainda enfrenta desafios para sua expansão, principalmente em questões relativas à regularização fundiária e ao licenciamento ambiental –pré-condições para o acesso ao crédito e condições de investir. “A produção de grãos deve ser estimulada em nosso Estado, em especial nas áreas vocacionadas do Sul do Estado, pois precisamos diminuir a dependência de produtos importados de outros Estados e reduzir o custo de rações”, encerrou. 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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