‘Seringal’ mantém casarão com ar dos tempos áureos da borracha no Centro de Manaus

Em: 31 de outubro de 2022

Evaldo Ferreira: @evaldo.am

Houve uma época, nos bons tempos da bonança econômica provocados pelo comércio da borracha, no início do século passado, em que a avenida Eduardo Ribeiro, a mais chic da cidade, abrigava vários cafés e leiterias (isso mesmo, serviam leite), acompanhados de doces e salgados. A partir de 1912, após a inauguração da Fábrica de Cerveja Amazonense, essa bebida passou a integrar o cardápio de tais estabelecimentos. Manaus cresceu, a Eduardo Ribeiro há muito deixou de ser chic e os cafés, leiterias e cervejarias desapareceram.

Como uma volta no tempo, eis que o casal de empreendedores Francielson Costa e Elisângela Rabelo resolveu reviver aqueles tempos e a caráter, não mais na Eduardo Ribeiro, mas num casarão que, certamente já existia nos tempos áureos do comércio da borracha, de mais de um século atrás, bem na esquina das ruas Monsenhor Coutinho com Tapajós.

'Seringal' mantém casarão com ar dos tempos áureos da borracha no Centro de Manaus - 0111 B1b
Em tempos que se perderam, no casarão do Hotel Seringal funcionou uma padaria

“Quando eu resolvi comprar esse casarão, ele estava completamente abandonado. A única coisa que sabia é que nele funcionara a Ata Turismo, na década de 1990. Então comecei as obras de restauração. Pelo que sei, originalmente, ele só tinha o térreo e o primeiro andar, depois construíram mais um piso”, contou Francielson.

“O curioso é que quando a restauração terminou, eu e a Rosângela fomos para o outro lado da rua admirar a obra e eis que, do nada, surge uma senhora e começa a falar com a gente. Disse que, na sua infância, ali funcionava uma padaria e seu pai sempre a levava para tomarem café naquele local. Depois foi embora, e eu nunca mais a vi. Infelizmente não colhi mais informações históricas com ela”, lamentou.

Chá da tarde

O empreendimento Hotel Seringal foi inaugurado no dia 12 de julho de 2014, dia de estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de futebol que, naquele ano, aconteceu no Brasil.

Foi inaugurado como hotel, com 16 apartamentos, mas foi o seu restaurante, servindo um chá da tarde, que logo fez sucesso devido o rico cardápio com café, leite, sucos, cervejas e uma lista variada de doces e salgados, igual aos estabelecimentos da belle époque baré. Para ajudar no retorno de várias décadas, o mobiliário, alguns originais, também ajudam. Mesas, cadeiras e armários no estilo rococó e até uma cristaleira, esse móvel envidraçado que, de imediato nos leva ao tempo em que nossas avós guardavam ali copos, taças, xícaras, garrafas, entre outros pequenos utensílios da cozinha.

O embolso de uma parede numa sala mais reservada foi retirado propositadamente para deixar à mostra como são as demais da construção, todas de pedra, artisticamente trabalhadas. Segundo Francielson, as paredes têm cerca de 50 cm de largura.

“O nome Seringal foi escolhido exatamente para lembrar daqueles tempos em que os seringais enriqueciam os barões da borracha e a cidade de Manaus”, explicou.

Outra sala está sendo restaurada, com o nome Seringal estampado numa placa, e já foi transformada numa área instagramável onde os clientes se reúnem para fazer selfies.

“Começamos dando destaque para o chá da tarde num espaço como não se encontra outro igual aqui no Centro de Manaus. Hoje servimos o café da manhã, das 7h às 11h; almoço, das 12h às 14h; e o chá da tarde, das 16h às 20h. O restaurante tem amplo espaço para 150 pessoas sentadas”, falou Márcio Gonzaga, gerente do restaurante.

Jantar dançante

O responsável por todos os quitutes servidos no Seringal é o chef Anderson Vilaça. Com 16 anos de experiência e à frente de uma equipe de 16 pessoas, ele comanda a cozinha, a confeitaria e a padaria que abastecem o restaurante.

'Seringal' mantém casarão com ar dos tempos áureos da borracha no Centro de Manaus - 0111 B1a
Parede de pedras, como são as demais do casarão, móveis estilosos e cristaleira ao fundo

“São 36 variedades de doces e salgados, além dos bolos e pães. Desde a manhã até a noite, não paramos de trabalhar. À medida que a mesa dos quitutes vai ficando desabastecida, já trazemos uma nova fornada”, informou.

“Não sigo uma linha gastronômica específica, mas o forte é o regional. Temos uma pequena estação onde são servidas tapiocas e sanduíches com os mais variados recheios”, destacou o chef.

Para quem gosta de música ao vivo, às sextas-feiras, a partir das 17h, o músico e cantor Udi Oliveira, @udioliveira, há 30 anos se apresentando na noite manauara, canta e toca os mais variados estilos musicais.

“Canto de tudo e ainda atendo ao pedido dos clientes”, afirmou.

“Estamos sempre pensando em alguma coisa nova para surpreender os clientes. A próxima novidade será um jantar dançante, que começará em breve. Afastaremos as mesas do centro para as laterais e será aberto um espaço para quem gosta de dançar”, avisou Márcio.

No passado os seringais foram espaços de sofrimento onde muitos homens, que tiravam o látex das seringueiras eram explorados, e até mortos, por seus patrões. No Centro de Manaus o Seringal, @hotelseringal, é um local de diversão e prazer onde as pessoas vão para comer bem e ‘frequentar’ como ‘frequentavam’ os nossos antepassados.

Informações: 9 8179-2222

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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