Comércio do Amazonas tem retração em setembro

Em: 10 de novembro de 2022

As vendas do varejo amazonense estancaram, em setembro. O crescimento foi de apenas 0,1%, na variação mensal, em resultado mais fraco do que o de agosto (+1,6%). O desempenho veio abaixo da média nacional e em sintonia com a redução do bônus da deflação no IPCA e as incertezas pré-eleitorais. O confronto com setembro de 2021 mostrou desempenho melhor (+1,5%). Com isso o setor se manteve no azul no acumulado do ano (+2,8%) – em que pese a base de comparação enfraquecida pela segunda onda – e conseguiu finalmente entrar em campo positivo, no aglutinado dos 12 meses (+0,4%). 

Em todo o país, a performance do varejo (+1,1%, +3,2%, +0,8% e -0,7%, respectivamente) só foi pior do que a do Amazonas nos acumulados. O crescimento mensal foi uma realidade apenas para seis dos oito segmentos do comércio, com destaque para papelaria, equipamentos de informática, combustíveis e supermercados, entre outros. A expansão registrada em setembro, após cinco meses de marasmo, fez a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) revisar para cima suas projeções para o crescimento das vendas do ano, de 1,2% para 1,3%. 

No Amazonas, por outro lado, subsetores dependentes de crédito, como os de veículos, de autopeças e de material de construção amargaram queda no volume comercializado, em sintonia com a permanência dos juros e das taxas de endividamento em patamares elevados. Apesar da perda do ritmo dos preços e das vendas, a inflação acumulada continuou inflando artificialmente o faturamento das empresas nas análises de longo prazo, além de inibir resultados melhores. É o que indicam os dados da PMC (Pesquisa Mensal do Comércio), divulgada nesta quarta (9), pelo IBGE.

O varejo teve vendas positivas em 17 das 27 unidades federativas brasileiras, na comparação de setembro com agosto. Os melhores número do país vieram da Paraíba (+4,5%), Rio de Janeiro (+3,1%), Sergipe e Pernambuco (ambos com +2,3%). No extremo oposto, Mato Grosso do Sul (-2,2%), Espírito Santo (-1,9%) e Roraima (-1,7%) amargaram os piores números. O Amazonas (+0,1%) aproximou-se do zero absoluto, empatando com Mato Grosso e São Paulo, ficando imediatamente acima de Tocantins (0%).

Mesmo com incremento de 1,5% em relação a setembro do ano passado, o comércio amazonense caiu do 19º para o 21º lugar do ranking nacional do IBGE. Paraíba (+41,6%) e Rio de Janeiro (-3,1%) voltaram a protagonizar os extremos de uma lista com apenas três resultados negativos. No acumulado de janeiro a setembro, o Estado (+2,9%) decresceu da décima para a 11ª colocação, em um rol mais uma vez iniciado por Roraima (+12,3%) e encerrado novamente por Pernambuco (-4,9%).

Receita e crédito

Vitaminada novamente pela inflação, a receita nominal só não foi melhor do que o volume comercializado, na variação mensal, que retraiu 0,3% – depois de subir 1,3%, no levantamento anterior. Em contraste, o confronto com setembro de 2021, que já incorpora maior variação nos preços, a receita apontou para um resultado quase quatro vezes melhor (+5,2%). Os acumulados do ano (+9,7%) e dos últimos 12 meses (+8,3%) seguiram no azul e também foram muito mais generosos. O Amazonas ficou atrás das respectivas médias nacionais (+0,2%, +13,7%, +15,5% e +13,5%, na ordem) em todas as comparações.  

Em razão do tamanho da amostragem, o IBGE ainda não segmenta o desempenho do comércio no Amazonas. Sabe-se apenas que o varejo ampliado local, que inclui veículos e material de construção, amargou saldo negativo de vendas neste mês. Houve retração de 1,9% entre agosto e setembro, e queda de 3,6% na variação anual. O desempenho acumulado nos nove meses iniciais do ano (+0,4%) foi de virtual estagnação, contribuindo para um tombo de 1,9%, em um horizonte de 12 meses.

Em todo o Brasil, o comércio avançou em seis das oito atividades investigadas pelo IBGE, entre julho e agosto, além de pontuar positivamente também no varejo ampliado (+1,5%). Os crescimentos vieram dos subsetores de livros, jornais, revistas e papelaria (+2,5%), equipamentos e material para escritório informática e comunicação (+1,7%), combustíveis e lubrificantes (+1,3%), hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (+1,2%), tecidos, vestuário e calçados (+0,7%), e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (+0,6%). Em contraste, artigos de uso pessoal e doméstico (-1%), assim como móveis e eletrodomésticos (-0,1%), recuaram.

“Performance fraca”

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatizou à reportagem do Jornal do Commercio que o varejo do Amazonas ficou praticamente estável na variação mensal do volume de vendas, mas ressalva que o resultado configurou um segundo mês consecutivo de elevação, após três meses seguidos de queda. O pesquisador acrescenta que a atividade alcançou resultados melhores nas demais comparações, mas salientou que a inflexão negativa do varejo ampliado confirmou um desempenho insatisfatório para os segmentos varejistas dependentes de crédito.

“A performance do comércio amazonense em 2022 tem sido fraca para os padrões históricos da atividade. Mesmo assim, o resultado deste ano está sendo melhor do que o do ano passado, que fechou com queda de 1,2% para as vendas. Pela frente, temos as vendas de outubro, novembro e dezembro, que geralmente são positivas. Assim, esperamos que o encerramento do ano mostre um resultado superior ao do ano passado. A média móvel trimestral, por outro lado, está positiva em apenas 0,1% para o volume de vendas. É muito pouco para amparar qualquer projeção, para cima ou para baixo”, ponderou.

Fator eleições

O presidente da assembleia geral da ACA (Associação Comercial do Estado do Amazonas), Ataliba David Antonio Filho, considerou que a “modesta subida” dos indicadores do IBGE se deve principalmente à “indefinição política” que marcou os dias anteriores à eleição. “A maior parte dos consumidores e empreendedores ficaram comedidos nas compras e investimentos. Em vista da situação, o consumo ficou mais restrito à cesta básica”, frisou.

De acordo com o dirigente, esse comportamento ajuda a explicar também a performance ainda pior registrada nas vendas de material de construção e veículos, uma vez que os consumidores estariam evitando o endividamento de longo prazo. No entendimento do comerciante, a cautela também deve marcar o movimento no comércio durante as festas de fim de ano. Vale notar que a mais recente pesquisa do Ifpeam (Instituto Fecomercio de Pesquisas Empresariais do Amazonas) indica que o consumidor de Manaus tende a priorizar o dinheiro do 13º salário para pagamento de dívidas e compra de alimentação.  

“Acho que a expectativa está nas políticas econômicas que vão ser adotadas neste novo governo. Estamos nos aproximando da melhor data do calendário do varejo, e nossa expectativa sempre é de aumento de vendas. Mas, principalmente para produtos que não levem o consumidor ao endividamento. Ainda há uma preocupação do consumidor em não contrair dívidas de longo prazo. Uma das raras exceções seriam os televisores, em razão da atipicidade da Copa do Mundo”, concluiu.

Por Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori  Instagram: @jcommercio

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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