Museu da Catedral apresenta suas peças raras

Em: 12 de dezembro de 2022

O Brasil é um país de multireligiões, e um dos segmentos turísticos que não para de crescer é o religioso. 513 festas religiosas estão cadastradas no Ministério do Turismo, movimentando 20 milhões de viagens por ano e fazendo circular R$ 15 bilhões na economia do país, de acordo com o Ministério. Entre os eventos de maior destaque estão a romaria ao Santuário Nacional de N. As. Aparecida, em Aparecida do Norte/SP; peregrinação em honra de padre Cícero, em Juazeiro do Norte/CE; Círio de Nazaré, em Belém; visitas ao Santuário de N. Sra. do Bom Socorro e ao Santuário de Madre Paulina, em Novo Trento/SC; Teatro Nova Jerusalém, em Fazenda Nova/PE; e procissão de N. Sr. do Bonfim e lavagem das escadarias da Igreja, em Salvador.

Manaus possui três templos católicos seculares e uma procissão de embarcações em honra de São Pedro, inexplorados no quesito turismo. A catedral de N. Sra. da Conceição tem 164 anos de existência; a igreja de São Sebastião, 134; e a igreja dos Remédios, 95 anos. Quanto à procissão, ela acontece desde 1949. Os três templos e a procissão são vivenciados apenas entre os fiéis, mas se fossem divulgados como atrativo turístico, Manaus poderia receber visitantes do Brasil e até do exterior interessados em conhecê-los.

Este ano o Museu de Arte Sacra da Catedral completou 20 anos, mas a data não foi comemorada. Ainda assim consta no livro de assinaturas que o espaço anexo ao templo recebe a visita de três mil pessoas/ano mesmo, com certeza, a maioria dos manauaras não sabendo de sua existência.       

Milagre da santa

Quem está querendo mudar os rumos dessa história é a turismóloga Leonilda Arantes. Ano passado ela deu a ideia ao pároco da catedral, padre Joaquim Hudson Ribeiro, de organizar visitas guiadas tanto ao Museu quanto às dependências da catedral, no que foi autorizada. Desde então Leonilda passou a realizar as visitas que acontecem às quartas e quintas-feiras, das 9h30 ao meio-dia. Escolas e universidades podem agendar datas.

“Agora eu estou fazendo o levantamento histórico das peças. Me baseio, principalmente, nas pesquisas realizadas pela arquiteta Ana Rabelo, quando da mais recente restauração da catedral ocorrida em 2001/2002”, contou Leonilda.

Para começar, a peça mais antiga e, com certeza, a mais rica historicamente é a pequena imagem de N. Sra. da Conceição possivelmente trazida pelos padres carmelitas, que construíram a primeira igreja no Lugar da Barra, em 1695. Para quem acredita em milagres, essa imagem resistiu ao incêndio de 2 de julho de 1850, quando a segunda igreja, inaugurada em 1788, onde agora a santa estava, virou cinzas. Um jornal da época, ‘A Voz Paraense’, publicou que se salvaram apenas algumas imagens e o vaso com o Sagrado Santíssimo Sacramento. Pois o Sagrado Santíssimo Sacramento também está exposto no Museu, próximo à imagem da santa.

Outra peça que chama a atenção é a cátedra (cadeira pontifícia), utilizada pelo papa João Paulo II quando em sua visita a Manaus, em julho de 1980. A berlinda de N. Sra. da Conceição, levada na procissão de 8 de dezembro, foi projetada pelo artista plástico Jair Jacqmont e é a maior peça exposta no Museu. Precisa de vários homens para carregá-la. Na procissão a berlinda vai sobre um carro.

No centro do Museu uma grande peça de pedra foi deixada à mostra após o restauro de 2001/2002, podendo se ver como é o alicerce da construção. A parede lateral também foi mantida sem embolso mostrando como foram construídas as demais paredes da igreja.

Cápsula do tempo

Outras peças que se destacam são a réplica da cruz de madeira utilizada durante o Congresso Eucarístico realizado em junho de 1975, no então estádio Vivaldo Lima. A cruz original se encontra em frente à igreja de N. Sra. de Fátima, na Praça 14 de Janeiro desde o fim do Congresso. O Congresso anterior havia sido realizado, em 1942, na praça Antônio Bittencourt, que passou a ser conhecida popularmente como praça do Congresso.

Numa vitrine estão expostos os paramentos usados pelos clérigos durante as grandes celebrações como o Tempo Comum, as festas da igreja, a Quaresma e o Advento, o Pentecostes e Mártires, com as cores de acordo com cada evento. A obrigatoriedade de uso desse vestuário foi abolida após o Concílio Vaticano II (1962/1965).

Chamam a atenção as peças, em tamanho natural, de Jesus carregando a cruz, crucificado e morto, entre outras relacionadas ao calvário de Cristo. Essas imagens foram doadas à igreja pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, em 1980, e até hoje são levadas na procissão do Senhor Morto, na sexta-feira da paixão.

Outra raridade exposta é uma cápsula do tempo, encontrada em 2001. A garrafa de vidro tinha um bilhete dentro, escrito em 5 de fevereiro de 1862. Descobriu-se que foi deixada numa parede pelo mestre de obras Francisco Canejo. As obras na igreja aconteceram entre 1858 e 1877.   

As visitas guiadas realizadas por Leonilda fizeram tanto sucesso que logo chegaram ao conhecimento dos frades da igreja de São Sebastião, interessados na novidade.

“Lá as visitas acontecem às terças e sextas-feiras, das 9h30 às 17h e eles também estão querendo montar um museu da igreja e da história dos franciscanos em Manaus e no Amazonas”, adiantou.

Quem quiser marcar uma visita guiada aos dois templos, pode ligar diretamente para Leonilda: 9 9515-5963.

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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