O Ano Novo se inicia com os senadores do Amazonas em cantos opostos do ringue político e ideológico que emergiu das eleições de um Brasil rachado. Com diferenças de prestígio, os ex-governadores Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (PMDB) reforçaram seu apoio ao governo eleito. O primeiro participou de um de seus grupos de trabalho na equipe de transição. Em seu primeiro mandato na casa legislativa, Plínio Valério (PSDB) procura marcar posição no outro extremo. A polarização da bancada ocorre justamente às vésperas de uma reforma Tributária com possíveis desdobramentos sobre a ZFM.
O senador Plínio Valério disse à reportagem do Jornal do Commercio que, da mesma forma que aconteceu na economia, 2022 também não foi fácil para a política. “Foi muito difícil para o brasileiro e muito conturbado para o cenário político. Tudo ficou muito, muito radicalizado e dividido. A direita aflorou como nunca no país, e o pessoal da esquerda foi para o confronto. Essa disputa entre Lula e Bolsonaro causou muita apreensão, tanto durante a eleição, quanto depois. Foi um ano que a gente enfrentou e sobreviveu. E temos de tirar muito aprendizado disso”, ressaltou.
O parlamentar considera que o cenário econômico que emergiu em 2022 após dois anos de pandemia é promissor, embora o panorama político ainda sinalize turbulências. “Mesmo com os índices melhorando, o desemprego caindo, as exportações aumentando e a inflação praticamente controlada, a gente se preocupa. Há essas incertezas. Mas, ficou patente, claro e cristalino, que o Brasil vai mudar no aspecto político. O pessoal que está indo para os portões dos quartéis vai acompanhar e gostar mais de política. A gente pode até sonhar que o eleitor vai melhorar, e fazer melhores escolhas. Porque, em uma democracia, escolher bem seus representantes é o que resolve”, opinou.
Reforma e BR-319
No entendimento de Plínio Valério, a Zona Franca de Manaus e a rodovia BR-319 devem continuar sendo os grandes focos de batalha no Legislativo nacional. Ele assinala que o Estado terá de enfrentar, “logo de cara”, a reforma Tributária, considerada por ele como a “mãe de todas as reformas”. Diante disso, o parlamentar diz que há riscos para o “calcanhar de Aquiles” amazonense, e salienta que isso vai continuar acontecendo enquanto o Amazonas não entender que é necessário buscar outras matrizes para encontrar outras saídas que não sejam só a ZFM.
“Temos de ficar muito atentos, pois isso vai mexer na ZFM e cabe a nós não deixar que isso aconteça. É nossa prioridade e nossa preocupação maior. Lula e Dilma não foram ruins para o modelo, mas o momento atual é totalmente diferente. Temos o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSD-SP) no Mdic, e o economista Bernard Appy como braço direito do ministro da Economia Fernando Haddad (PT-SP) Nossa batalha pela BR-319 também deve arrefecer, com a ministra Marina Silva (Rede-SP). Mas, vamos continuar lutando”, frisou.
Quase ministro
Vindo de uma reeleição apertada, o senador Omar Aziz teve uma participação discreta no grupo de trabalho da segurança pública, na equipe de transição do novo governo, na qual apontou “desmonte de políticas públicas, aumento do desmatamento, falta de diálogo com a sociedade civil e de políticas nacionais integradas na área de justiça e segurança pública”. Ele chegou a ser cotado para integrar o novo time que passa a ocupar a Esplanada dos Ministérios, a partir de 2023. Mas, declinou do convite para ser ministro, argumentando que pretende ajudar o novo governo federal apenas no Senado.
O principal motivo para a recusa é a percepção do político de que o Amazonas vai precisar não apenas de votos, mas também de todo o poder de articulação política para garantir a manutenção das prerrogativas constitucionais da ZFM, no âmbito da reforma Tributária. Notícias postadas em sites voltados para a política informam que, durante a diplomação de Lula, o senador teria defendido, junto ao novo ministro da Economia, a garantia de leis complementares que garantem as vantagens e a excepcionalidade fiscal da Zona Franca – como aquela que estipulou sua prorrogação até 2073.


Omar Aziz salientou, por meio de texto remetido de sua assessoria de imprensa, que os próximos anos devem ser pautados na luta pela defesa e ampliação da ZFM e que esta representa melhoria na qualidade de vida de milhares de trabalhadores e menos desmatamento na Floresta Amazônica. “Seus incentivos e excepcionalidade estão na Constituição e cabe a nós, parlamentares do Amazonas, debater esse assunto de forma transparente e ampla. Somos brasileiros de uma região que precisa de excepcionalidade de cargas tributárias para atrair a indústria”, justificou.
Segundo o parlamentar, os benefícios do modelo se espraiam em cadeia pela região. “Mesmo um comércio pequeno de bairro pode ser afetado com a saída de grandes indústrias. Um trabalhador que ganha seu salário em uma empresa do Distrito faz compras no mercadinho, vai ao salão de beleza, contrata serviços diversos e faz o dinheiro do PIM circular. O cenário de milhares de trabalhadores desempregados e que não podem mais consumir seria devastador para a economia e para o futuro da Amazônia”, reforçou.
“ZFM intocável”
Procurada pelo Jornal do Commercio, a assessoria de imprensa do senador Eduardo Braga não retornou as perguntas da reportagem até o fechamento desta edição. Saído de uma derrota nas eleições para governador no Amazonas, o político conseguiu ser reconduzido à liderança do MDB no Senado, mas viu frustradas as suas tentativas de retornar à Esplanada dos Ministérios. A pasta de Minas e Energia, que ele comandou durante os governos Dilma, foi para a cota do PSD –mais especificamente para o senador Alexandre Silveira (MG).
Encerradas as eleições, o senador tem evitado os holofotes da mídia, mas não as redes sociais, nas quais marcou posição em votações no Senado, apresentou críticas ao governo estadual reeleito e reiterou sua defesa sobre a Zona Franca de Manaus. “A ZFM não fracassou. Graças ao modelo, mais de 90% da floresta permanece íntegra no Amazonas, o que garante o ritmo hidrológico tão fundamental para os recordes do agronegócio no Brasil. Somente por isso já deveria ser considerada, sim, uma iniciativa ‘intocável’”, concluiu.







