Ano de perdas para o comércio

Em: 2 de janeiro de 2023

Depois de fechar 2021 em queda, o comércio amazonense enfrentou mais dificuldades em 2022. A inflação e seu peso sobre o poder de compra dos consumidores foi a maior delas. Dados do IBGE mostram que, após oscilar ao longo do ano, o setor voltou a crescer em outubro, consolidando altas de 2,9% no acumulado do ano. O descolamento da receita nominal em relação às vendas reais, contudo, se manteve mesmo nos meses de deflação. Os juros, por sua vez, depreciaram as vendas de segmentos de bens duráveis e dependentes de crédito. Além disso, a cheia e a vazante atípicas reduziram o fluxo da clientela e encareceram a logística, respectivamente. 

Assim como os demais setores, o comércio começa 2023 apreensivo diante das variáveis que surgem no horizonte. Uma delas é a sinalização de uma nova rodada de preços pelo aumento da carga tributária, além dos impactos do acirramento na guerra na Ucrânia e desarranjos na economia global decorrentes do rescaldo da pandemia. A iminência de uma nova guerra fiscal também assusta os comerciantes, assim como as perspectivas de uma recessão global. Mas, o ano novo traz também as expectativas de uma aproximação do setor com o governo estadual e melhores condições operacionais.

O presidente da Assembleia Geral da ACA (Associação Comercial do Estado do Amazonas), Ataliba David Antonio Filho, avalia que 2022 foi um ano de recuperação para o comércio, que se deparou com um consumidor de perfil “mais comedido” e “bastante racional” em relação às compras. No entendimento do comerciante, a mudança de comportamento se deve não apenas às dificuldades impostas pela pandemia, mas também ao ambiente de inflação e juros mais altos que surgiu nos últimos anos.

“Isso foi uma constante nas principais datas do calendário do comércio, ao longo de 2022. O varejo estendido [que inclui segmentos dependentes de crédito] não teve indicadores significativos, melhorando apenas no final do ano. A segurança que a vacinação passou para a população foi fundamental para a volta fomentada do pequeno varejo. A bolsa que o governo passou a dar a população de baixa renda permitiu maior acesso e aumento dos empregos formais, garantido uma lenta melhora do setor”, ponderou.

Embora concorde que 2023 sinaliza dificuldades, Ataliba David Antonio Filho considera que o ano novo também pode garantir alguma sobrevida ao consumo e às vendas do comércio. “Há muita expectativa em torno das políticas públicas que vão ser implementadas pelo novo governo e o ambiente de negócio que irá propiciar. O crescimento do pequeno e médio varejo tem tudo para lograr êxito, dependendo dessas implementações. Espera-se uma manutenção no crescimento do nível de emprego e da bolsa assistência”, antecipou.

Inflação e ICMS

O presidente da FCDL-AM (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado do Amazonas), Ezra Azury, avalia que 2022 tinha tudo para ser um período de retomada e de crescimento, mas ainda veio impactado pelos entraves econômicos que se seguiram no rastro dos dois anos iniciais da pandemia. O dirigente considera também que o ano foi de “vendas estáveis”, com algum aquecimento no mês da Copa do Mundo, “como ocorre a cada quatro anos”, e resultados “razoáveis” na maior parte do tempo. 

“Tivemos também problemas com relação à inflação. O governo Bolsonaro tomou algumas medidas de modo artificial para conter a alta dos preços, mas a conta vai chegar. Você não pode fazer uma mudança estrutural nos impostos, sem contrapartida com os Estados. Fazer uma mudança tributária unilateral gerou um problema de caixa, e já estamos vendo o que pode acontecer. O novo governo está sinalizando que vai fazer alguma recomposição e estamos aguardando isso”, asseverou, esclarecendo que não considera errado cortar tributos.

Indagado sobre as vitórias do setor, Azury assinala que a maior de todas foi de caráter sanitário, com a “volta da normalidade” no dia a dia do varejo, encerrados os meses mais duros da pandemia –apesar dos repiques eventuais na taxa de contágio da Covid-19. “As lojas abriram todos os dias, sem restrições de horários ou obrigatoriedade do uso de máscaras. Os clientes têm segurança de comprar. Além disso, o abastecimento regular foi mantido, apesar de enfrentarmos uma seca severa”, listou. 

A principal derrota, conforme o empresário, foi o aumento da alíquota modal do ICMS, referendado pela Assembleia Legislativa, em dezembro. “A população ainda não atentou à gravidade disso, e os próprios empresários ainda fazem as contas para entender o quanto isso vai afetar as vendas. Todos os preços vão aumentar e, consequentemente, as lojas vão vender menos, trazendo desemprego e baixa de arrecadação. “Infelizmente, os governos ainda não sabem fazer a matemática de diminuir o Estado. Em vez de fazer reformas estruturais, usaram o artifício mais fácil”, lamentou.

O risco que surge no horizonte de 2023, de acordo com o presidente da FCDL-AM, vem de São Paulo e de uma nova guerra fiscal. “Eles têm um governo liberal, na batida na qual muitos acreditam que é a correta, traduzida na redução do Estado, diminuição de impostos e competitividade. Nosso modelo de negócio é baseado em incentivos fiscais e sabemos que isso depende muito de cada Estado. O governo paulista está sinalizando que vai vir forte nessa política, para atrair novas empresas, que acabaram saindo de lá, em razão das políticas do governo anterior. O ano vai ser desafiador”, garantiu.   

“Novo momento”

Já o presidente em exercício da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, define 2022 como um “ano difícil” e “cheio de atribulações”, decorrentes da disparada das commodities e de seus efeitos nos preços, juros e consumo. “Tivemos a guerra na Ucrânia, que afetou o preço dos fertilizantes e dos alimentos. O Banco Central tentou conter a inflação com aumento de juros e todos esses fatores prejudicaram a atividade”, lembrou.

O dirigente ressaltou que, diante de um cenário mais adverso, o varejo teve de se reinventar para sobreviver, mas espera fechar o balancete de 2022 com alta nominal de 5% a 6%. “Se for descontar a inflação, não vai ser um crescimento expressivo, mas significa dizer que superamos as dificuldades e vivemos um novo momento. Temos expectativa também de conseguir melhorar nosso tratamento junto às autoridades governamentais, não só em relação aos perigos da covid, mas também com um tratamento fiscal mais justo e mais consciente. Isso vai nos motivar a abrir novas frentes”, frisou. 

Aderson Frota reforçou ainda que o comércio –juntamente com o setor de serviços – respondem pela maior parte dos empregos e da arrecadação no Estado, além de atender a população “em todos os quadrantes do Estado”, trabalhando “de domingo a domingo”. Por isso, o dirigente diz também que espera que 2023 seja um ano mais positivo. “Até porque acredito que, mesmo em transição, não teremos grandes problemas e vamos conseguir entrar de novo em uma estabilidade mais construtiva para a economia”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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