Setores de construção e imóveis comemoram ano no azul

Em: 2 de janeiro de 2023

Diferente dos demais setores econômicos, a construção civil e seu segmento imobiliário afirmam que têm mais motivos para comemorar do que lamentar. Diversos indicadores mostram que o crescimento parcial de 2022 ficou acima da média do PIB – pelo menos nos números nacionais. As contratações da atividade, considerada um motor de geração de empregos, mantiveram o passo. Embora concorde que o aumento da carga tributária estadual não foi uma boa ideia, o setor espera retomada nos investimentos públicos em 2023, assim como maior equilíbrio na taxa de juros e menos burocracia. 

O presidente da Ademi-AM (Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Amazonas), e também vice-presidente da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), Albano Máximo, considerou que 2022 foi um ano “excelente” para o setor. “Para o Brasil, foi o segundo melhor ano da série histórica. Para a nossa região, foi o melhor. De janeiro a setembro, as vendas já estavam 50% acima do registrado no mesmo período de 2021. A quantidade de unidades lançadas também foi bastante superior. Foi um ano excelente e devemos fechar com crescimento de 30%”, comemorou.  

O dirigente ressalva que a expansão nas vendas veio acompanhada por uma disparada nos custos e uma escalada nos juros, além de escassez de mão de obra. “Setores oligopolizados, como a produção de ferro, aço, e tubos de PVC tiveram aumentos extremamente acima da inflação e impactaram no valor da obra e no preço do empreendimento. Para a construção, o aumento dos juros não afetou tanto, porque a correção nos financiamentos para a partir de um certo patamar da Selic. Outra questão é que já começa a faltar trabalhador, em decorrência do aquecimento do setor. Mas, esse é um doce problema”, listou.

Subsídios e propostas

Entre as vitórias, Albano Máximo destaca a “correção da curva de subsídios”, que deslocou os incentivos governamentais para habitação em favor do comprador de menor renda, em detrimento de “quem não precisa tanto assim”. “Dessa forma, conseguimos reverter a quantidade de vendas. Outro ponto foi que conseguimos taxas de juros diferenciadas para o Norte e o Nordeste, o que também turbinou as vendas. Outra mudança, que deve surtir efeito daqui para frente, é o aumento do prazo de financiamento, de 30 para 35 anos. Isso vai incluir ou repor consumidores que não tinham condições de comprar imóvel”, asseverou.

Com relação ao futuro, o presidente da Ademi-AM assinala que o setor passa por uma fase de modificação, em razão da mudança de governos em Brasília. Ele avalia que essa alteração vai afetar o andamento e a performance da atividade imobiliária no próximo ano. E conta que, diante dessa constatação, a CBIC participou de uma reunião com a equipe de transição, em Brasília, em dezembro. Na oportunidade, os representantes da entidade classista entregaram uma relação de pautas do setor para “balizar” o novo governo.

“Não conseguimos avançar muito, pois não existia um plano de governo muito bem estruturado, e as pessoas que efetivamente vão ocupar os ministérios ainda não estavam disponíveis. Temos de esperar para ver o que vai acontecer. Esperamos ter um bom relacionamento com o governo que entra, tanto quanto o que tivemos com o anterior, que sempre ouviu nossas sugestões. Gostaria de lembrar também que a primeira versão do Minha Casa Minha Vida foi feita com base em uma proposta entregue pela CBIC”, frisou. 

PIB e contratações

O presidente do Sinduscon-AM (Sindicato da Indústria da Construção do Estado do Amazonas), Frank Souza, também avaliou que 2022 foi um ano positivo e concorda que o segmento imobiliário foi o grande indutor do crescimento das construtoras. “Mesmo não tendo uma evolução tão positiva para imóveis de médio e alto padrão, a categoria dos produtos de padrão econômico deve subir uns 15%, no trinômio que inclui número de lançamentos, valor geral de vendas e quantidade de unidades comercializadas”, assinalou.

O dirigente lembra que o PIB nacional da construção civil cresceu pelo quinto trimestre consecutivo e superou novamente o ritmo de expansão da economia nacional, em todas as comparações, ao final de setembro. A alta atingida pela atividade no acumulado do ano foi de 8,2%, conforme o IBGE, para um incremento de 3,2% no Produto Interno Bruto brasileiro. Ele acrescenta que a mão de obra também registrou saldo positivo no ‘Novo Caged’, a despeito das oscilações ao longo do ano – e da baixa incidência de postos de trabalho com carteira assinada em sua cadeia produtiva.

“Em relação às contratações, houve estabilidade, com saldo positivo de 1.894 empregos diretos, em 11 meses, envolvendo obras imobiliárias, de infraestrutura e de serviços para o setor. Na cadeia de produção da construção civil, entre formais e informais, chegamos perto de algo como 140 mil, 150 mil colaboradores formais. O problema que procuraremos tratar em 2023, e que também combatemos em 2022, é o da informalidade”, afiançou.

Juros e investimentos

O presidente do Sinduscon-AM avalia que, embora o setor trabalhe com taxas de juros pré-fixadas em seu segmento imobiliário, a escalada da Selic prejudicou a construção civil como um todo. “Isso faz toda a diferença para quem contrata novos empreendimentos para obras, e também para o tomador de empréstimos. Esperamos que, em 2023, essa taxa baixe, assim como a inflação. Quanto mais caro o dinheiro, mais difícil fica para as construtoras produzirem moradias e demais empreendimentos, assim como gerar contratações”, argumentou.

Frank Souza diz esperar que as mudanças e continuidades administrativas decorrentes das eleições de 2022, resultem em ações governamentais que reduzam a burocracia e aumentem investimentos em infraestrutura, moradia, obras viárias e de saneamento. E, assim como mencionado por lideranças dos demais setores econômicos do Amazonas, o executivo pontua que o reajuste das alíquotas de ICMS tende a oferecer um obstáculo significativo, ao encarecer ainda mais a atividade.

“Levamos nossas propostas ao novo governo e esperamos que isso evolua. No Amazonas, já temos um ponto de gargalo a partir do aumento do ICMS. Já tínhamos uma alíquota de 17%, passamos para 18% e, agora, vamos para 2023 com 20%. Todos os produtos da construção civil vão ficar mais caros. Isso levando em conta que os custos dos materiais já começaram 2022 muito altos, pelos efeitos da pandemia na cadeia produtiva e a falta de insumos. A gente espera que haja um equilíbrio de valores”, lamentou.

Uma perspectiva positiva para 2022, conforme o presidente do Sinduscon-AM, é que o novo governo federal já anunciou intenção de aumentar os investimentos na construção civil, levando em conta que as empresas “contratam muito mais com menos dinheiro” e “com menos formação”, quando comparadas às de outros setores econômicos. “Informaram que vai investir mais de R$ 1 bilhão em obras paradas, além de aumentar os aportes em moradia, dos atuais R$ 90 milhões, para algo entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões. isso dá algum alente e a gente espera que isso aconteça”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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