Audiodescrição agora no cinema do Amazonas Shopping

Em: 21 de janeiro de 2023

As salas de cinema do Kinoplex, do Amazonas Shopping, acabam de lançar o serviço de audiodescrição para deficientes visuais. Com isso, os deficientes que antes precisavam da companhia de um parente ou amigo para descrever as cenas de um filme, agora podem ir sozinhos e contar com esse serviço. Quem comemorou a novidade foi Gilson Mauro Pereira, gerente da Biblioteca Braille do Amazonas.

“Estive no Kinoplex e gostei da novidade. Eles disponibilizam oito celulares e a audiodescrição é automática, de acordo com a exibição do filme. Quem desejar pode levar um fone e conectar ao celular. Com isso o Kinoplex se torna o primeiro cinema de Manaus a disponibilizar esse importante serviço para nós, deficientes visuais”, comemorou.

Até então Gilson contava com Sandra Amazonas para fazer a audiodescrição dos filmes que ele assistia, mas ele tem a vantagem de ser casado com ela há 40 anos e namorado mais três, praticamente desde que ele começou a ficar cego, aos 17 anos, em virtude de um descolamento de retina. Outra vantagem de Gilson é que, desde 2009, Sandra se tornou profissional como narradora audiodescritora, quando começou a trabalhar para a Secretaria de Cultura, onde permanece até hoje.

“Como eu estou com o Gilson desde o começo da deficiência, então, sem perceber, eu sempre fui sua audiodescritora”, lembrou.

Sandra contou que nunca focou numa profissão específica e que tudo foi acontecendo naturalmente. Pela experiência que tinha com o marido, logo foi contratada pela Secretaria.

Entrou para a história

“Acredito que comecei a me profissionalizar quando o Gilson estava na faculdade e tive que ajudá-lo em dois trabalhos. Num eu precisei descrever 50 capas da revista Veja e no outro a descrição era da abertura da novela ‘Vale tudo’, da Rede Globo. Nos dois trabalhos ele se saiu bem, então, acho, me saí bem, também”, contou.

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Sandra fica numa cabine, no terceiro piso do Teatro, numa mesa de som com fone e microfone

Em 2009 a Secretaria de Cultura trouxe até Manaus a audiodescritora Lívia Motta, para promover um curso. Lívia é a diretora da empresa Ver Com Palavras Audiodescrição, que oferece serviços de audiodescrição para todos os tipos de espetáculos, eventos acadêmicos, corporativos e sociais, produtos audiovisuais, audioguias para museus, audiodescrição de imagens estáticas para publicações e sites, além de cursos de formação de audiodescritores.

“Eu fiz o curso e, a partir dali, me tornei narradora audiodescritora. A Lívia ainda nos assessorou, de São Paulo, tirando todas as nossas dúvidas”, falou.

“Lívia entrou para a história das artes do Amazonas ao ser a primeira audiodescritora de uma ópera na América Latina. O fato se deu em 28 de abril de 2009, durante o Festival Amazonas de Ópera no Teatro Amazonas quando, junto com Ira Mesquita e Norimar Muller, os três audiodescreveram a ópera francesa ‘Sansão e Dalila’, de Camille Saint-Saëns”, afirmou Gilson.

“Um mês depois quem também entrou para a história foi a própria Sandra. No dia 28 de maio de 2009 ela, junto com Laila Lopes e Douglas Porto, audiodescreveram a ópera ‘Os troianos’, de Berlioz”, completou.

“Estreei audiodescrevendo uma ópera com seis horas de duração”, riu Sandra.

“Cada um dos trabalhos contou com três pessoas porque um lê a legenda e o outro descreve a cena. Um terceiro serve de apoio para os outros dois porque se trata de um trabalho árduo”, informou a audiodescritora.

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Ela também presta serviços para outras instituições públicas

Atenção aos deficientes

Nesses quase 14 anos, Sandra já audiodescreveu 279 óperas, além de shows, peças e eventos que aconteceram no Teatro Amazonas, mas também já prestou serviços para a Assembleia Legislativa, o Teatro Manauara, o Palácio da Justiça, a OAB, a prefeitura de Manaus.

“Eles solicitam esse serviço da Secretaria de Cultura, que nos cede. A Secretaria obedece à Lei nº 13.146, de 2015, LBI (Lei Brasileira de Inclusão), que instituiu o Estatuto da Pessoa com Deficiência para assegurar e promover condições de igualdade, exercício dos direitos e das liberdades fundamentais e, com isso, realizar a inclusão social e a cidadania de todas as pessoas com deficiência”, explicou Sandra.

Sandra revelou que, em todas as apresentações no Teatro Amazonas, ela fica numa cabine, no terceiro piso do Teatro, numa mesa de som com fone e microfone.

“O Teatro disponibiliza seis frisas para deficientes. Da cabine eu faço as audiodescrições para os deficientes visuais, que estarão com fones de ouvido. Eu preciso descrever, além do que acontece no espetáculo, qualquer outro episódio extra que ocorra como, por exemplo, na apresentação de ‘O encanto de Natal’ do ano passado. Na parte do balé aéreo, na hora de o bailarino descer pelo cabo de aço, houve um problema e ele ficou preso, lá em cima. Houve um burburinho na platéia e eu precisei descrever. Numa outra cena caiu a orelha do duende e todo mundo riu. Também descrevi”, revelou.

“Estou divulgando para os demais deficientes visuais sobre essa novidade do Kinoplex porque quanto mais autonomia e liberdade tivermos, mais poderemos ser independentes”, concluiu Gilson.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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