Dívidas crescem no fim do ano

Em: 29 de janeiro de 2023

O percentual das famílias de Manaus com dívidas a vencer voltou a crescer, no mês do Natal. Ao menos 81,1% se diziam endividadas em dezembro, o equivalente a 527.952 delas. Foi um patamar bem maior do que os de novembro de 2022 (79,3% e 515.284), e de dezembro de 2021 (69,1% e 443.170). O comprometimento de renda está quase equiparado entre os níveis de renda mais elevados e mais baixos, sendo que o principal vilão ainda é o cartão de crédito (69,1%). A capital seguiu acima da média nacional, que bateu recorde, ao registrar o maior percentual de endividados desde 2011. 

Já a inadimplência avançou com mais força ainda e pulou de 37,9% (246.729) para 41,2% (267.948) entre um mês e outro, em dado também pior do que o brasileiro. Há um ano, com taxas de inflação e juros mais amenas, a taxa não passava de 27,6% (177.250). O problema é ainda maior para 18,2% delas (118.404), que já não têm mais condições de pagar contas atrasadas e crescentes. A situação também piorou nos comparativos mensal (16,8% e 109.099) e anual (14,4% e 92.516). É o que revelam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).

Na média nacional, o indicador encerrou o ano com recorde: 77,9% das famílias brasileiras estavam endividadas, uma alta de 7 pontos percentuais ante 2021, e de 14,3 p.p. frente a 2019 – ainda no período pré-pandemia. Vale notar que o patamar mais baixo registrado foi de 60,3%, em 2018. A fatia de consumidores inadimplentes (28,9%) também foi a maior em 12 anos, enquanto 10,7% já não tinham mais condições de manter os pagamentos. 

O perfil predominante entre os consumidores pendurados em dívidas, segundo a CNC, era de mulheres, com menos de 35 anos, ensino médio incompleto, morador do Sul/Sudeste, e com renda de até dez salários mínimos. O brasileiro inadimplente também pertence majoritariamente ao sexo feminino, mas já têm mais de 35 anos, conta com ensino médio incompleto e faixas de renda menores, e mora principalmente nas regiões Norte ou Nordeste.

Cartões e carnês

O cartão de crédito reduziu sua participação no bolo das dívidas de Manaus, mas continua sendo fator predominante no endividamento das famílias locais. Considerado o meio de pagamento mais caro em todo o país, o cartão respondeu por 69,1% das dívidas de setembro, fatia superior à registrada em novembro (70,7%). Ao contrário dos meses anteriores, seu uso foi mais comum entre as famílias de menor renda (70,1%). Segundo a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), os juros dessa modalidade já estão em 14,53%, ao mês, e 409,37%, ao ano. 

Os carnês (46,4), por outro lado, progrediram nas preferências em relação a novembro (45,3%), sendo impulsionados também pelos que recebem menos (47%). Na sequência estão o crédito pessoal (12,8%) e “outras dívidas” (10,2%). De acesso mais restrito, o crédito consignado, (4,9%), assim como os financiamentos de carro (8,1%) e de casa (4,8%), são predominantes entre as famílias de maior renda. O mesmo pode ser dito do cheque especial (3%), que é a segunda modalidade mais cara (8,10% ao mês e 154,63% ao ano), segundo a Anefac. Invenção brasileira, e utilizado exclusivamente pelos mais pobres, o cheque pré-datado não pontuou em dezembro.

Renda comprometida

Apesar do aumento na proporção, houve melhora qualitativa no perfil de endividamento dos manauenses. A fatia dos “muito endividados” caiu de 19,7% para 17,3%, na comparação com novembro e já é minoritária, sendo a situação mais comum entre as famílias com renda inferior a dez salários mínimos mensais (17,8%). A maioria se diz “pouco endividada” (35,2%), sendo a situação mais comum entre os consumidores de maior renda (47%). O grupo dos “mais ou menos endividados” (28,7%) vem logo em seguida.

Em média, as famílias de Manaus devem levar 32 semanas para quitar todas as suas dívidas. O percentual dos que esperam levar mais de um ano para tanto (33,3%) ainda é o mais elevado, mas sofreu leve diminuição em relação a novembro (34,3%). O mesmo pode ser dito dos grupos de endividados de três a seis meses (23,1%), entre seis meses e um ano (20,6%). Em sentido contrário, a proporção de manauenses com dívidas pendentes nos próximos três meses aumentou de 19,1% para 21,1%.

A despeito da piora do cenário, o nível médio de comprometimento de renda também encolheu. As famílias manauenses consomem 37,5% de seus ganhos com dívidas – contra 38,2%, no levantamento anterior. O percentual ainda é mais elevado do que o da média brasileira (30,2%). Ao menos 42,1% dos consumidores locais gastam mais da metade de seus rendimentos com esse fim, embora o número já seja melhor do que os de novembro (44,7%). Na sequência estão os que consomem de 11% a 50% de sua renda (48,7%) e os que limitam os dispêndios a 10% de seus ganhos (6,7%).

Mais da metade dos endividados em Manaus (50,8) estão com contas atrasadas. Apenas 16,2% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês. Outros 38,9% estimam que vão pagar apenas parcialmente, e 44,2% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas dos inadimplentes de Manaus estão atrasadas há 61 dias. Em torno de 28,5% estão nessa situação há mais de 90 dias. A maioria está devendo entre 30 e 90 dias (53,4%), sendo esse o único grupo que diminuiu de tamanho. Os que estão pendentes há menos de um mês ainda são 16,4% do total. 

Crise e juros

O assessor econômico da Fecomércio-AM, Enio Ferrarini, reforçou à reportagem do Jornal do Commercio que o cenário de endividamento e inadimplência, é “mais crítico”. “O agravamento do indicador se justifica pelo longo período de crise econômica, que forçou o aumento da taxa de juros, afetando diretamente as famílias de baixa renda, que precisam do crédito até para produtos de primeira necessidade. Diante do cenário político e econômico atual, o indicador tende a se manter nestes níveis até o segundo semestre, quando o Banco Central pode iniciar uma redução na taxa Selic”, analisou.

Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, reforça que a piora no cenário econômico apertou o orçamento das famílias brasileiras, transformando despesas essenciais em dívidas. “As pessoas com renda mais baixa estão usando o cartão de crédito para comprar alimentos e medicamentos, além de pagar contas de luz e telefone, por exemplo, para postergar o gasto para o mês seguinte ou mesmo parcelar esses valores”, frisou.

No mesmo texto, o presidente da entidade, José Roberto Tadros, destacou que a pandemia reverteu a tendência de queda no endividamento registrada até 2019. “O fechamento de negócios e o aumento de desempregados, assim como o avanço da inflação, fizeram com que as famílias com rendas mais baixas precisassem recorrer ao crédito para manter o consumo de primeira necessidade. Entre as famílias de maior renda, a retomada do consumo reprimido levou à maior contratação de dívidas”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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