Governo deve abraçar luta em defesa da ZFM, diz Antônio Azevedo

Em: 20 de fevereiro de 2023

Empresário e economista de formação, Antônio Azevedo dá continuidade ao legado deixado pelo pai, que morreu em 2018 e foi fundador do grupo TV Lar, um dos grandes empreendimentos empresariais. Hoje, são pelo menos 75 lojas da empresa comercial com ramificações em municípios do interior do Amazonas e em Roraima.

Azevedo é o entrevistado do podcast ‘Economia com Jaraqui’, comandado pelo trio de economistas Michele Aracaty, Mourão Júnior e Jefferson Praia, veiculado pelo streaming  do Jornal do Commercio. O tema abordado é ‘O impacto do novo governo federal na economia regional”, que fomentou muitas discussões durante o programa. 

Falar em economia local (e até nacional) é ter esses três profissionais que conduzem o ‘Jaraqui’ como boas referências no segmento. A iniciativa é um projeto de extensão que nasceu na universidade e agora contribui, de forma simples e efetiva, para mastigar assuntos econômicos muitas vezes incompreensíveis pelo grande público.

Para o empresário, por enquanto só existem expectativas sobre ações do governo federal para o Amazonas, principalmente em relação ao novo superintendente da Suframa, cujo nome ainda está em definição na nova equipe econômica.

O empresário vê a pauta do Planalto focada, hoje, mais na questão ambiental. Fundos são reativados, em especial o Fundo Amazônia, possibilitando novos financiamentos dos países mais ricos do planeta, exigindo a preservação do meio ambiente amazônico como contrapartida a essa ajuda mundial.

“Não existe mais nenhum projeto exitoso de  preservar uma área tão grande de floresta como a ZFM. O pessoal fala em movimentos ESG, mas temos o maior deles. Todos os bancos deveriam se voltar para defender esse modelo. Mas quem está defendendo são os empresários daqui, que vivem aqui”, ressalta ele.

O economista é firme em sua argumentação. “A minha esperança é que o governo federal seja um defensor e vista essa camisa. O projeto ZFM vai sendo pouco a pouco podado em função de ataques de outros Estados que reivindicam os mesmos benefícios fiscais”, acrescenta. “O Amazonas protege para o Brasil e o resto do mundo o maior legado que é a floresta em pé”.

Estrategista, Antônio Azevedo traz a mesma visão do pai empreendedor – expandir a operacionalização da empresa, mas com o olhar no  futuro, mesmo enfrentando desafios em levar a TV Lar para municípios onde, por ora, não representam praticamente nenhum ganho econômico.

“Nossa prioridade é contribuir para o desenvolvimento, possibilitando gerar mais empregos e renda a localidades que nem sempre contam com a contrapartida governamental para alavancar atividades”, diz Azevedo.

Segundo ele, o modelo ZFM esvaziou o interior. A concentração de riquezas, geradas pelas mais de 500 empresas instaladas em Manaus, abriu precedentes para o êxodo rural, impactando negativamente no lado social. Nem todos possuem a qualificação profissional exigida pelas indústrias. E aí está o grande imbróglio.

De acordo com Azevedo, o grupo se esforça em amenizar potenciais gargalos dando alternativas para a vida dos municípios, hoje dependentes fundamentalmente de repasses estaduais e federais. É a única opção que movimenta a economia nas cidades fora de Manaus.

A logística é complicada no interior. O trânsito de mercadorias depende de embarcações, reféns do fenômeno da cheia e vazante. Os fretes são mais caros. Muitas vezes, o que se cobra para o transporte chega ao dobro do valor do produto comercializado na região.

Outro problema é a conectividade, tecnologia indispensável para alavancar os negócios em áreas interioranas. Falta ainda agregar condições para o empreendedor digital. Uma infraestrutura adequada de internet abriria caminhos para potencializar essas atividades, centralizadas na exploração sustentável dos insumos regionais, que se somariam às empresas da Zona Franca, diversificando a matriz econômica.

São aspectos apontados por Antônio Azevedo ao fazer uma projeção para o futuro da economia do Amazonas ou da Amazônia, hoje sob os holofotes do mundo pela rica biodiversidade, tanto na superfície como no seu subterrâneo.

“Desde a época dos militares, não temos ainda nenhum plano de desenvolvimento. A economia está concentrada somente na ZFM que é o maior projeto de preservação do mundo”, avalia o empresário. Ele ressalta que os bancos deveriam se voltar para defender o modelo Zona Franca, mas acontece o inverso. “Quem está à frente dessa luta são os empresários daqui, as pessoas que vivem aqui”, acrescenta.

O empresário diz que o abandono do interior cria uma realidade lamentável.  Com exceção de dois municípios, o resto tem IDH de países africanos, demonstrando o quanto a falta de alternativas impacta na vida do caboclo ribeirinho, hoje dependente de uma agricultura de subsistência e dos parcos empregos gerados pelas transferências de verbas do Estado e do governo federal.

“O que predomina é a economia de subsistência. Não tem escala, não tem regularidade de produto que o mercado demanda. E nem tampouco regularidade porque dependemos dos rios. E ainda existe a questão da qualidade do produto. Então, não compensa colher, não tem preço”. Afirma.

Questionado sobre suas previsões de futuro, Antônio Azevedo diz que a economia, hoje concentrada em Manaus com a ZFM, deve ser voltar para o interior do Estado. E que a sua empresa tem definido novas estratégias para expandir o seu raio de ação nos municípios, não somente com pretensões de amealhar mais riquezas, mas também para proporcionar alternativas de sobrevivência para essas populações.

“Vejo que nosso primeiro ciclo de desenvolvimento veio do interior. Agora, o segundo, que é a indústria, está concentrado na capital, e esvaziou os municípios.  O próximo é natural, vai ter que vir do interior. Temos aptidões naturais, mas infelizmente o interior foi esquecido. A economia está na capital e deve ser interiorizada”, avalia.

Marcelo Peres

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