Baixa renda impulsiona aumento de Intenção de consumo em Manaus

Em: 2 de junho de 2023

A propensão de consumo das famílias de Manaus seguiu crescente, em maio. Os dados locais da CNC (Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) para a pesquisa do indicador de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) confirmam um 11º avanço consecutivo para a capital amazonense, em ritmo superior ao da média nacional, e puxado principalmente pelos consumidores de baixa renda. No mês do Dia das Mães, foram registradas melhoras acentuadas na percepção sobre renda, emprego e acesso ao crédito, assim como nas perspectivas e na disposição de adquirir bens duráveis.

O ICF de Manaus marcou 80,1 pontos, 6% a mais que em abril (75,6 pontos), embora corresponda ao dobro de 12 meses atrás (39,8). O indicador, no entanto, ainda não conseguiu sair da zona de insatisfação (de 0 a 100 pontos), onde permanece há 37 meses, e aquém do nível atingido no começo da pandemia –março de 2020 (105,2 pontos).  O ganho de otimismo foi maior entre as famílias de renda abaixo dos dez salários mínimos (+6,66%), embora estas ainda sigam sob a marca da desconfiança (75,2 pontos). O avanço para os consumidores mais abastados foi mais baixo (+1,87%), mas estes já estão “confiantes” (131 pontos) desde novembro de 2022. 

Manaus voltou a ter desempenho mais forte do que o da média brasileira, que está mais próxima da margem de confiança (96,7 pontos). Em todo o Brasil, o indicador marcou expansão mensal de 2,4%. No confronto com maio de 2022, houve nova escalada de dois dígitos (+21,7%). A CNC atribui o resultado à redução da inflação acumulada pelo IPCA entre janeiro e abril (4,18%), que ficou novamente abaixo do teto da meta do BC (Banco Central) (4,75%). E destaca que itens básicos e que mais pesam nas famílias mais pobres, como alimentação e bebidas, tiveram aumento ainda menor no ano (+1,52%).

Em Manaus, a nova progressão no otimismo dos consumidores ainda contrasta com os números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da mesma CNC. Os números melhoraram, mas as compras seguem embarreiradas pelo comprometimento da renda das famílias com dívidas antigas e crescentes. Ao menos 89% (582.053) das famílias da capital estão endividadas e 51,4% (335.967), inadimplentes. Já o ICEC (Índice de Confiança do Empresário Comercial) emendou seu quinto mês de ceticismo, embora o indicador –que também tem linha de corte nos 100 pontos –ainda se mantenha acima da linha divisória de confiança. 

Renda e emprego

O ICF de Manaus avançou em todos os seus sete componentes, na variação mensal, mas apenas um deles já entrou no nível de satisfação. As melhores taxas de crescimento vieram das perspectivas de consumo (+10,9%) e das avaliações sobre renda (+9,3%) e nível de consumo atuais (+8%). Já as percepções sobre as condições de acesso ao crédito (+6,4%), emprego atual (+5,4%), “momento para duráveis” (+3,5%) e perspectiva profissional (+1,7%) subiram em ritmo bem menor.

O entendimento sobre o nível de consumo atual ainda é o principal fator que puxa a média de Manaus para baixo. Apesar dos aumentos seguidos, o subindicador ainda aparece com o pior escore da lista (48,9 pontos) –sendo que as famílias com renda acima de dez mínimos têm pontuação muito maior (117,3 pontos). Nada menos do que 68,5% estão indo menos às compras do que no ano passado, sendo que a restrição cai pela metade entre os mais abastados (27,2%). Uma faixa minoritária e crescente (17,4%) assinala que está comprando mais e 12,7% apontaram empate. 

A pontuação da perspectiva de consumo (75,3 pontos) não é muito melhor, assim como a avaliação sobre a renda familiar atual (73,1 pontos), embora ambas tenham melhorado. Para 52,3% das famílias de Manaus, as compras dos próximos meses devem vir menores que no ano passado. Outros 27,6% dizem que será maior, e 17,4% confirmam estagnação. Em paralelo, 47,3% dizem que a renda familiar piorou em relação ao cenário econômico de 12 meses atrás. Só 20,4% viram melhora e 31,6% consideram que está igual. 

Na outra ponta está a avaliação sobre a perspectiva profissional (101,6 pontos). A fatia de consumidores que preveem melhora nos próximos seis meses (46,1%) já supera a dos que têm opinião contrária (44,4%) e só 9,5% estão indecisos. A visão sobre a situação atual do emprego (91,5 pontos) também voltou a crescer, embora 32,7% ainda se digam “menos seguros” em relação à ocupação. Há um virtual empate entre os que não veem mudanças (24,3%) e a faixa crescente dos que se dizem “mais seguros” (24,3%). Mas, a cota de desempregados voltou a subir e está em 18,5%. 

Em termos de situação atual do crédito (89,7 pontos), 44,4% consideram que o acesso ainda está mais difícil do que no ano passado. Em contrapartida, 34% já apontam que ficou mais fácil e 18,7% não veem diferença. Em sintonia com o mês do Dia das Mães, o “momento de aquisição de bens duráveis” (80,4 pontos) mostra que a parcela de consumidores que consideram que esta não é a melhor hora para isso (56,6%) caiu, embora se mantenha majoritária. O grupo dos que têm opinião contrária subiu para 37%. As dificuldades e cautelas ainda predominam entre as famílias de menor renda, mas a diferença diminuiu.

“Processo de acomodação”

O presidente em exercício da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, considerou que os números locais do ICF confirmam que a crise que abriu o ano começou a entrar em um “processo de acomodação”. “Esperamos que a votação do arcabouço fiscal no Congresso traga estabilidade econômica e permita ao BC reduzir a Selic. Todos esses aspectos mexem com as vendas do comércio, que está combalido pelos aumentos da carga tributária, dos juros e do endividamento do consumidor. Mas, as coisas vão tomando rumo devagarzinho”, ponderou. 

No texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, O presidente da entidade, José Roberto Tadros, ressalta que a maior satisfação dos brasileiros com o emprego permitiu dinâmica mais favorável para o ICF, assim como outros fatores. “Houve crescimento de todos os indicadores nas comparações mensal e anual, especialmente por conta das sucessivas quedas da inflação além do esperado, o que tem deixado os consumidores mais dispostos a consumir”, avaliou. Tadros acrescenta que a alta das contratações formais pode contribuir para a progressão da intenção de consumo nos próximos meses, apesar do limite imposto pela alta do endividamento e dos juros.

No mesmo texto, a economista responsável pela ICF, Izis Ferreira, reforçou que a maior intenção de compra entre os mais pobres está relacionada com a melhora da avaliação de que o dinheiro está comprando mais. Essa percepção cresceu em maior intensidade entre os consumidores de rendas médias (+3,1%) e baixa (+31,2%). A economista informa também que o otimismo das mulheres (+27,1%) vem crescendo mais do que o dos homens (+20%) – que mostram mais cautela. “Com mais mulheres ingressando no emprego formal desde o ano passado, a percepção delas sobre a segurança no emprego e na renda também tem melhorado”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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