Manaus tinha tudo para ser uma bela cidade, entrecortada por igarapés, com a mata ciliar, que margeia esses braços de rios, protegida, e as habitações construídas a, ao menos, 100 metros de distância da beira d’água. Infelizmente não foi o que aconteceu e, desde o final do século 19, no governo de Eduardo Gonçalves Ribeiro (1892/1896), teve início o aterro de igarapés como o que separava a ilha de São Vicente do Centro de Manaus, e a ilha deixou de ser ilha; ou o igarapé do Espírito Santo, aterrado para ser transformado na avenida Eduardo Ribeiro.
O governador sonhava em transformar a avenida baré numa Champs-Élysées, de Paris, não atentando que aqui o modo de vida era outro.
“E ainda tem o igarapé das Naus, depois do Seminário, que passava em frente ao atual Banco do Brasil, no terminal de ônibus do Centro, aterrado em 1893”, revelou o pesquisador Ed Lincon Barros.
“Entre o Hotel Amazonas e a Bemol, na rua Floriano Peixoto, existia o imenso igarapé dos Remédios, também mandado aterrar por Eduardo Ribeiro”, lamentou.
“Não podemos esquecer do igarapé dos Remédios (ou do Aterro), que deu lugar à avenida 13 de Maio, atual Getúlio Vargas concluído, depois de vários anos, em 1929, na gestão do prefeito José Francisco de Araújo Lima (1927/1929)”, completou.
Quem passeia pelo Parque Senador Jefferson Péres, inaugurado em 2009, nem imagina que boa parte daquele espaço surgiu a partir do aterramento do grandioso curso d’água do Igarapé de Manaus, agora transformado num esgoto a céu aberto, assim como acontece com o igarapé do Mestre Chico, que passa sob a ponte Benjamin Constant, na Cachoeirinha, cujas margens foram aterradas em 2002.
Saindo do Centro, na direção dos bairros, existiram outros belos igarapés que sucumbiram à chegada do homem, mas são assunto para outra matéria.
Grande cheia de 53
Se há alguém que pode falar sobre os igarapés da Manaus de antigamente, essa pessoa é o também pesquisador José Rocha. Por pouco Rocha não nasceu sobre a água, já que seus pais moravam na Cidade Flutuante. Anos depois ele se mudou para uma casa ao lado de um igarapé, onde vive até hoje.
“Fui um menino sapeca baré, do Igarapé de Manaus. Nasci na Santa Casa de Misericórdia, mas, lógico, depois meus pais me levaram para casa, que ficava na Cidade Flutuante, entre as ruas Huascar de Figueiredo e Lauro Cavalcante”, recordou.
O Igarapé de Manaus, como outras margens da frente de Manaus, ganhou reforço de flutuantes a partir da grande cheia dos rios, de 1953, quando dezenas, talvez centenas, de ribeirinhos, que passavam fome nos interiores, ‘fugiram’ para Manaus. Sem disponibilidade de terras para construir suas casas, foram morar da maneira que já estavam acostumados: na beira de um rio, ou braço de rio.
Igual a muitos meninos da segunda metade da década de 1960, moradores da região do Igarapé de Manaus, Rocha nadava, pescava, passeava de botes e canoas e se arriscava em saltos da primeira Ponte Romana, tudo isso na época das enchentes que, em maior ou menor escala, ocorrem todos os anos.
“Na vazante, a diversão continuava. Jogava bola, soltava papagaios de papel e, no que permanecia das águas do Igarapé, pegava bodós e algumas piabas. Quando cresci um pouco mais, com nove, dez anos, comecei a procurar por igarapés ‘nunca dantes navegados”, brincou.
“Junto com meus irmãos mais velhos, ia saltar da segunda Ponte Romana, que fica sobre o aterrado igarapé do Bittencourt”, lembrou.



Pernas com cauxi
E, à medida que crescia, as aventuras de Rocha foram ficando cada vez mais ousadas. Junto com os colegas, sobre toras de árvores, usando pedaços de madeira como remos, chegavam à Ilha do Caxangá, por trás da antiga penitenciária, na Cachoeirinha; e ao Igarapé do 40, no Japiim, ainda distantes do Centro, principalmente o incipiente Japiim do final da década de 1960.
“Aos domingos era sagrado ir ao cine Guarany. Tomava banho no Igarapé até próximo do meio-dia, quando saía d’água feito um louco e, em casa, nem almoçava. Chegava ao Guarany com as pernas cheias de cauxi”, riu.
Em 1967, então com onze anos, Rocha mudou para uma casa na rua Tapajós, onde mora até hoje. Curiosamente um igarapé ficava próximo. Quando Paulo Pinto Nery foi prefeito de Manaus, entre 1965 e 1972, mandou fazer a ligação da Tapajós com a rua Leonardo Malcher e o igarapé passou a correr por canos, sob a pista. Ao invés de uma ponte, ficava mais fácil ‘esconder’ o igarapé, que até hoje percorre seu caminho entre inúmeras casas, como os demais do Centro, transformado em esgoto.
“O tempo passou, o Igarapé de Manaus foi aterrado para a construção dos parques Paulo Jacob e Jefferson Péres. Hoje me resta caminhar por esses dois parques e lembrar a minha infância, quando eu era um feliz menino do igarapé”, finalizou.
Depois de cinco décadas pesquisando, Rocha descobriu que a fonte principal do Igarapé de Manaus está localizada na rua Barcelos, no Centro. Suas águas seguem pelo Centro e deságuam próximo à ponte do Educandos. Quem quiser saber mais fatos sobre a infância de Rocha e sua ligação com esse igarapé, pode acessar seu e-book ‘O Igarapé de Manaus’.
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