Endividamento e inadimplência das famílias de Manaus recuam em maio, diz CNC

Em: 18 de junho de 2023

As taxas de endividamento e inadimplência do consumidor de Manaus voltaram a ceder. Em maio, 569.415 famílias relataram ter contas a vencer, o equivalente a 87% do total. Foi um percentual abaixo do registrado em abril (89% ou 582.053) e março (89,8% ou 586.546). Mas, apesar da segunda queda consecutiva, o indicador ainda está muito acima da marca de 12 meses atrás (66% ou 426.211) Os principais indutores de endividamento ainda são o cartão de crédito e os carnês de lojas, sendo que as famílias que recebem menos de dez salários mínimos mensais ainda são as mais endividadas. 

O recuo mensal na fatia de famílias com contas atrasadas foi ainda maior, ao passar de 51,4% (335.967) para 47% (307.912). Mas, ainda corresponde a quase o dobro de um ano atrás (28,6% ou 184.630), quando os juros mais amenos geravam menos dificuldades nas parcelas e a inflação mais elevada inibia a contratação de mais dívidas. Em torno de 19,5% (127.501) já não têm mais condições de pagamento – contra 11,8% na média nacional. Os dados são da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Segundo a sondagem, a taxa de endividamento do consumidor brasileiro estabilizou em 78,3%, na passagem de abril para maio. De acordo com a entidade empresarial, o indicador segue estatisticamente inalterado há quatro meses. A proporção de famílias de Norte a Sul penduradas em meios de pagamentos diversos, no entanto, aumentou na comparação com o mesmo mês de 2022 (77,4%). A mesma dinâmica se deu na fatia de inadimplentes, que estacionou em 29,1%. Já a parcela de consumidores sem fôlego para quitar débitos voltou a subir em ambas as comparações e chegou a 11,8%. 

A queda assinalada na Peic é uma boa notícia que se soma aos crescimentos mensais consecutivos detectados em Manaus pela pesquisa de ICF (Intenção de Consumo das Famílias), também da CNC. Em maio, foram registradas melhoras acentuadas na percepção sobre renda, emprego e acesso ao crédito, assim como nas perspectivas e na disposição de adquirir bens duráveis. Os comerciantes, entretanto, ainda se mostram céticos. No mesmo mês, o ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), medido pela mesma entidade, chegou ao seu menor nível desde abril de 2021.

Cartões e carnês

A pesquisa da Peic informa que, embora tenha diminuído sua participação no bolo das dívidas, o cartão de crédito continua sendo fator predominante no endividamento do consumidor de Manaus, a despeito dos juros mais altos. O meio de pagamento respondeu por 65,5% das dívidas locais – contra os 68% de março –, sendo que a preferência é ainda maior entre as famílias de maior renda (83,1%). Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), o cartão de crédito ainda é a modalidade de financiamento mais cara, com juros mensais de 14,78% (e 422,87% anuais).

Os carnês ganharam mais preferência e corresponderam a 51,8% dos débitos das famílias de Manaus, sendo mais impulsionados pelos que recebem menos (52%). Também aparecem em destaque o crédito pessoal (16,7%), “outras dívidas” (15,6%), financiamento de carro (7,2%), crédito consignado, (6,2%) e financiamento de casa (4,3%). Segunda mais cara modalidade de pagamento, segundo a Anefac, o cheque especial (8,18% ao mês e 156,9% ao ano) é calvário de 7,9% das famílias de Manaus. Invenção brasileira, e de uso exclusivo dos mais pobres, o cheque pré-datado pontuou 0,8%.

A queda na proporção dos manauenses em dificuldades veio por uma relativa piora qualitativa no perfil de endividamento, em relação a abril de 2023. A fatia dos “muito endividados” subiu para 17,4%, sendo puxada pelas famílias com renda abaixo de dez salários mínimos mensais (18,2%). A fatia dos “pouco endividados” (48,2%) ainda é majoritária e permaneceu estável, enquanto o grupo dos “mais ou menos endividados” aumentou para 26,4%.

Em média, as famílias de Manaus devem levar 34 semanas para quitar as contas. Predomina a fatia majoritária e cadente dos consumidores que esperam levar mais de um ano (39,8%) para isso. Em seguida, estão os ‘pendurados’ entre 3 e 6 meses (20,9%), de 6 meses a um ano (20,5%), e até três meses (18,8%). O comprometimento médio de renda com dívidas diminuiu para 35,3%. Em torno de 35,6% dos consumidores locais gastam mais da metade do que ganham, mas esse grupo já é superado pelos que consomem de 11% a 50% de seus rendimentos (51,6%).

Entre os endividados, 54,1% caíram na inadimplência, em dado também abaixo do de abril. A proporção segue maior entre as famílias com ganhos acima dos dez mínimos mensais (58,1%). Uma proporção mais elevada do que a da sondagem anterior garante que conseguirá quitar o compromisso integralmente no próximo mês (30%). Outros 27,4% estimam que vão pagar parcialmente, e 41,4% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas estão atrasadas há 62 dias, sendo que a maioria dos consumidores (47,4%) está pendente entre 30 e 90 dias. 

Juros e preocupações

O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, considerou que o nível de endividamento do consumidor manauense ainda está muito alto e inspira preocupações para o setor. “O mês de maio foi atípico. Evidentemente que os juros acabam complicando e o cartão de crédito concentra a maior parte das preocupações. Temos expectativas que essa situação melhore neste segundo semestre, e que tenhamos uma queda expressiva no indicador”, asseverou. 

Em texto distribuído por sua assessoria de imprensa, a CNC destaca que o endividamento dos consumidores brasileiros segue estável desde dezembro, impactado pelo encarecimento do crédito e maior seletividade nas concessões. A taxa média de juros para pessoas físicas alcançou 59,7% ao ano em abril, na maior marca desde agosto de 2017, segundo o Banco Central. “A alta dos juros tende a ter maior influência nas contas da classe média, enquanto o incremento de políticas voltadas para os benefícios sociais tem reflexo nas faixas de menor renda. Isso explica, em boa parte, os resultados da Peic de maio”, explicou o presidente da CNC, José Roberto Tadros.

No mesmo texto, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, assinala que, enquanto o endividamento retrocedeu nos estratos mais altos e baixos de renda, o oposto ocorre nas famílias de classe média. E acrescenta que o mesmo padrão se repetiu na inadimplência. E reforça que o maior alcance e aumento dos valores do Bolsa Família, assim como a retomada das contratações formais, tem auxiliado os consumidores que recebem menos de três salários mínimos a pagar as dívidas. “São eles, também, o principal foco de renegociações”, encerrou. 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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